Pandemia, mitos e falta de esclarecimento afetam transplantes de órgãos em Goiás

Segundo Secretaria de Saúde, 1.228 pessoas aguardam procedimento no estado. Transplante de córneas foi o mais afetado pelo cenário pandêmico.

Goiás intensifica campanha para doação de órgãos em Setembro. | Foto: reprodução

Os procedimentos para transplantação de órgãos foram um dos mais prejudicados pela pandemia da Covid-19. Em Goiás, o número de indivíduos na fila para receber um órgão é de 1.228 e no país estima-se que esse momento chega a 46 mil pessoas. As campanhas para conscientizar da população foram intensificadas em setembro, mês do Dia Nacional da Doação de Órgãos (27).

Diante do cenário pandêmico, a Central de Transplantes da Secretaria de Estado de Saúde de Goiás tem intensificado as ações para reduzir os prejuízos causados pelas paralisações do ano passado. Em 2020, o procedimento ficou parado no estado por um mês para que fossem feitas adaptações, como realização do exame RP-PCR para Covid-19. Outro ponto prejudicial foi o receio dos pacientes de serem transplantados em meio a uma crise sanitária.

Apesar dos prejuízos, a redução de transplantes realizados em Goiás ficou abaixo da média brasileira. Enquanto a queda nacional foi de 26%, a do estado foi de 11%, segundo a SES. Com a vacinação em massa, os resultados começam a aparecer de forma sutil, alguns positivos, outros nem tanto.

No primeiro semestre de 2021, apenas o transplante de rins registrou queda (-46,5%). Houve aumento na transplantação de fígado (133%), córneas (50%) e medula óssea (12,5%), o que elevou a taxa geral para 11,2% com relação a 2020.

Conforme informado pela SES, a fila maior é de pessoas que precisam de córneas (1.047 pessoas). Número muito acima de indivíduos que necessitam de outros órgãos, como fígado (9 pessoas) e rins (172 pessoas). A gerente da Central de Transplantes, Katiúscia Freitas, explica a diferença. “O transplante de córneas foi parado no Brasil inteiro, por recomendação do Ministério da Saúde, por seis meses. Foi o mais prejudicado. Nossa fila, hoje, está perto de 1100 pessoas”, justifica.

Katiúscia informa que Goiás foi o 5º estado que mais transplantou rins no país por milhão de habitantes no ano passado. Além disso, o fechamento de 2020 foi superior ao de 2019. “No início da pandemia, foi difícil para todos os estados. Alguns pararam totalmente. Tivemos problemas como malha aérea. Mesmo assim, fechamos 2020 com 80 doadores, mais do que 2019, que teve 75. Isso se deve porque a secretaria tentou resguardar o Hospital Geral de Goiânia, e mantivemos as campanhas de doação de órgãos”, diz.

Outro ponto exaltado pela gerente foi a diminuição da recusa das famílias. Enquanto em 2019, a taxa foi de 68%, em 2020, foi de 57%. Nesse primeiro semestre de 2021, o número está em 58%. Apesar do resultado positivo, Katiúscia Freitas trabalha para atingir a média nacional, que é de 40%.

“Foi uma redução considerável na recusa familiar. Temos trabalhado para isso. Acredito que isso é fruto de um trabalho que fazemos há anos. É fundamental a conscientização, a capacitação do profissional de saúde para acolher as famílias e explicar o que é morte encefálica, além do envolvimento da imprensa”, justifica a responsável pela Central de Transplantes.

Mito da doação de órgão

A gerente Central de Transplantes revela que existe um mito em torno do doador de órgãos. Muitas pessoas acreditam que é preciso registrar a vontade de alguma forma. “Para ser doador, não precisa estar registrado em nenhum documento, nem em cartório. Isso não tem validade. Tem, simplesmente, que comunicar sua família, porque é ela que vai decidir se você vai ser doador ou não”, explica a também enfermeira.

Em palestras de conscientização, Katiúscia Freitas identifica que há dúvidas de como é feito o procedimento. Para ela, falta esclarecimentos sobre a transplantação de órgãos à população. Por isso, aponta como fundamental o trabalho da equipe que conversa com as famílias.

“Quando a família recebe a notícia de que o ente querido dela está em morte encefálica, é um momento difícil. Conversamos com ela sobre o direito de doação de órgãos. Temos profissionais capacitados para isso. O paciente ter se manifestado anteriormente pesa nessa decisão familiar”, aponta a gerente.

Outro ponto relevante para decisão da família em doar os órgãos do ente querido é entender que o procedimento somente pode ser feito em caso de morte cerebral. “Em quais casos pode ser doador? Em caso de morte encefálica. Existe um protocolo, no Brasil, extremamente rigoroso para se chegar neste diagnóstico. É um dos protocolos mais rigorosos do mundo. Existe uma legislação. A central de transplantes acompanha, é feito por médicos diferentes, são feitos exames”, enfatiza Katiúscia Freitas, que lembrou, ainda, que a lei prevê que a família pode escolher um médico de sua confiança para acompanhar o diagnóstico.

A profissional lembra que 95% dos transplantes realizados no Brasil são feitos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Além disso, enfatiza que o processo é extremamente seguro. “As pessoas tinham medo de perder a identidade com essa informação (de doador) porque não conhecem o processo. Não tem como pegar uma pessoa, tirar os órgãos e sair com ele no saco plástico”, brinca a gerente da Central de Transplantes.

Fila de córneas

Segundo Katiúscia Freitas, não há como se falar em zerar a fila de doação de órgãos em Goiás. O trabalho da SES é voltado para diminuição de pessoas nessa espera. O transplante de córneas é o mais aguardado. “A fila de córneas já foi zerada em Goiás em outro momento. Hoje, estamos prejudicados pela pandemia”, lembra a enfermeira.

Este tipo de transplantação tem sido dificultado pela maior burocracia imposta pelo cenário pandêmico. “Difícil falar em zerar a fila neste momento. A doação de córneas tem mais contraindicações. Por causa da Covid-19, isso aumentou. Vamos tentar reduzir”, aponta Katiúscia Freitas.

Enquanto a doação de órgãos exige a morte encefálica, a doação de córneas é feita de maneira diferente. “Qualquer pessoa entre dois e 80 anos, que teve o coração parado, pode doar. Até 12 horas depois do coração ter parado é possível fazer o procedimento. Nosso trabalho é voltado para que as Unidades de Saúde nos notifiquem”, lembra a gerente da Central de Transplantes.

 

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