Pandemia acentua desigualdade educacional no Brasil

Estudo da FGV aponta que educação pode retroceder até quatro anos devido à pandemia. Professora relata que alunos mais vulneráveis ficaram à margem do processo

Foto: Prefeitura de Goiânia

A educação foi profundamente impactada pela pandemia da Covid-19, devido à interrupção das aulas presenciais. E para entender as consequências dessa crise, a Fundação Lemann encomendou um estudo ao Centro de Aprendizagem em Avaliação e Resultados para o Brasil e a África Lusófona (FGV EESP Clear), vinculado à Fundação Getúlio Vargas (FGV), para simular a perda de aprendizado que os estudantes podem ter sofrido neste período.

O FGV EESP Clear seguiu outros pesquisadores internacionais e desenvolveu uma simulação do aprendizado neste ano atípico, com metodologia baseada em estudo realizado pelo Banco Mundial. Foram considerados o aprendizado em um ano típico; tempo de interrupção das aulas; eventual aprendizado com o ensino remoto.

O aprendizado dos alunos brasileiros dos ciclos do ensino fundamental e ensino médio em um ano regular foi medido com base em dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) de 2015 e 2019.

O tempo de interrupção de aulas foi calculado como igual a 72% do ano letivo, conforme hipótese de que as redes de ensino retomariam as aulas presenciais em novembro e a evidência de que quase a totalidade dos sistemas de ensino deixaram de dar aulas presenciais na semana do dia 15 de março de 2020.

Já para calcular o eventual aprendizado via ensino remoto foram explorados três cenários:

  • Otimista, em que os alunos aprenderiam através do ensino remoto tanto quanto aprenderiam no presencial, desde que realizassem as atividades escolares;
  • Intermediário, em que os alunos aprenderiam através do ensino remoto proporcionalmente às horas gastas com atividades escolares;
  • Pessimista, em que os alunos não aprenderiam com o ensino remoto.

Em 2020, os alunos deixarão de aprender mais em matemática em comparação com língua portuguesa e, na maioria dos casos, os mais prejudicados serão aqueles do fundamental 2 em relação aos estudantes do ensino médio.

O estudo mostra que outra forma de entender quanto esse aprendizado não realizado representa é transformar o aprendizado não realizado em 2020 em uma porcentagem do aprendizado em um ano típico. Para o ensino fundamental 2, no cenário otimista, os alunos deixarão de aprender, em 2020, o equivalente a 14% do aprendizado de um ano típico; já no cenário intermediário, esse aprendizado não realizado será de 34% e, no pessimista, de 72%.

Para o ensino médio, no cenário otimista, os alunos deixarão de aprender 15% do que aprenderiam em um ano típico, em comparação a 33% no cenário intermediário e a 72% no pessimista. Nota-se, então, que, enquanto no cenário otimista os alunos do ensino fundamental 2 tem resultados melhores que os de ensino médio, no intermediário essa situação se inverte; isso é consequência da dedicação de mais horas ao ensino remoto por parte dos alunos do ensino médio.

A simulação também foi refeita para cada um dos estados, separadamente, para explorar como o aprendizado não realizado pode variar regionalmente. Os mapas apresentam quanto, em termos percentuais, o aprendizado não realizado em 2020 representa do aprendizado verificado em um ano típico.

As cores mais próximas do amarelo indicam menores percentuais de aprendizado não realizado, enquanto cores mais próximas do roxo, percentuais maiores.

Goiás

No mapa da simulação do percentual do aprendizado não realizado em língua portuguesa e matemática por série no ensino fundamental 2, Goiás apresenta resultado entre 32,63% e 34,25%. No ensino médio, o Estado fica entre 28,8% e 29,91%.

Observa-se ainda que em ambas as etapas de ensino, os alunos de estados das regiões Norte e Nordeste deixarão de aprender mais que alunos dos estados do Sul e Sudeste no contexto da pandemia de covid-19. Há diferenças entre essa perda percentual quando comparamos as etapas de ensino no mesmo estado, mas, de forma geral, os estudantes do ensino médio deixarão de aprender, em termos percentuais, menos que os do ensino fundamental por estarem se dedicando mais ao ensino remoto.

O estudo também permite compreender como essa dedicação ao ensino remoto está distribuída entre os estados brasileiros. Cores mais próximas do amarelo indicam menor dedicação ao ensino remoto, enquanto cores mais próximas do roxo, maior dedicação. Especialmente no ensino fundamental 2, os alunos do Norte e Nordeste apresentam uma menor dedicação ao ensino remoto que os alunos do Sul e Sudeste.

Goiás atinge entre 52,435 e 54,68% de dedicação dos alunos do ensino fundamental 2 ao ensino remoto. No ensino médio, o resultado fica entre 58,47% e 60,01%.

Por fim, o estudo aponta que o aprendizado não realizado pode variar de acordo com características pessoais dos alunos, tais como: sexo; raça/cor; escolaridade da mãe. Analisando apenas o cenário intermediário e comparando os diferentes subgrupos, os resultados indicam que:

• Alunos do sexo masculino deixarão de aprender mais que os do sexo feminino, especialmente em matemática no ensino fundamental.

• Os grupos populacionais mais prejudicados, para ambos os ciclos de ensino e disciplinas, são os do sexo masculino, que não se declararam brancos, com mães com ensino fundamental incompleto ou sem instrução.

• Já os grupos populacionais menos prejudicados são, na maioria dos casos, do sexo feminino, que se declararam brancas, com mães com pelo menos ensino médio completo.

Desafio dos educadores

A professora Riva Rodrigues atua na rede pública de ensino e afirma que a adaptação de seus alunos ao novo formato imposto pela pandemia foi lenta. “Ainda agora, no final do ano, muitos ainda não acessaram a plataforma de ensino ou buscaram atividades impressas, que é a opção para quem não tem nenhum acesso à internet”, relata.

Na escola em que a educadora trabalha são realizadas buscas ativas. “Contatos são feitos constantemente com as famílias para tentar trazer o estudante de volta, nem que seja para a atividade impressa, se for o caso”, explica Riva. Ao Jornal Opção, a professora que leciona para estudantes do ensino médio pondera que a mudança brusca no modelo de ensino impactou a relação professor – aluno.

Alunos mais vulneráveis ficaram à margem do processo

Parte dos alunos, principalmente os mais vulneráveis ficaram à margem do processo, pontua a professora. “O Estado ofereceu o ensino à distância, uma plataforma e atividades impressas para quem não tem acesso à internet. Esses últimos não contam com o suporte do professor, vídeo-aulas e outras estratégias, o que torna a aprendizagem mais difícil”, detalha.

“Os estudantes se viram diante do desafio de aprender longe do suporte dos educadores, que até então mediavam o ensino de forma direta. Ainda existem outras questões que envolvem condição econômica, saúde mental, etc. Elas influenciam contra um resultado positivo”, conta a professora. “Como vamos reelaborar isso num futuro próximo  é o maior desafio dos educadores”, conclui.

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