Os vales que produzem os mais famosos vinhos chilenos consumidos no Brasil

Características geográficas do país sul-americano resultam em distintos cultivos de uvas para produção da bebida

Vinicius Mendes
Especial para o Jornal Opção

Da Terra do Fogo à região fria da capital Santiago, os vinhos chilenos não são apenas resultado da descoberta recente da uva carménère, mas também da variedade geográfica e dos métodos diferentes no cultivo, que proporcionam sabores, intensidades e estilos distintos da bebida. Atualmente, o país é dividido em 11 vales produtores com características próprias, muitas delas demandadas pelos consumidores brasileiros.

O vale mais famoso nos últimos anos pela redescoberta da uva carménère pelo ampelógrafo francês Jean-Michel Boursiquot e um dos mais tradicionais da produção de vinho chileno é o de Maipo, que agrega tanto a principal cidade do país quanto as regiões litorâneas.

Registros coloniais apontam que o cultivo de uva neste território começou em 1555 e, três séculos depois, seriam as vinícolas de Maipo que passariam pela introdução de plantas francesas, que revigoraria toda a produção chilena. Em 1994, Boursiquot encontrou a uva carménère, original de Bordeaux, sendo catalogada pelos cultivadores como “merlot” no mesmo território.

O vale de Maipo possui um clima estável, com verões quentes e invernos secos e suaves, onde não há muita chuva e sol na maior parte do ano. Por isso, as uvas existentes na região são ideais para a produção de vinho tinto, como cabernet sauvignon, merlot e malbec. Alguns hectares, habitados por vinícolas especiais, trabalham apenas com plantas de uva para vinhos brancos, como chardonnay e sémillon.

De acordo com ampelógrafos, as mudas adquirem boas condições no período em que estão brotando, e precisam ser protegidas do frio também durante o crescimento e a maturação da fruta. Por isso, a região de Maipo Alto é a mais beneficiada.

Maipo, enfim, utiliza um método de irrigação próprio: o sistema de goteo, ou gotejamento, em português. Ele funciona por meio da construção de canais cujas fontes ficam nos pés dos Andes e que, quando chegam à vinícola, formam pequenos rios naturais. A água da cordilheira é armazenada em poços, o que garante uma economia de até 95% no consumo de água. No caso de Santiago, o sistema beneficia até mesmo o abastecimento urbano.

Mais longe de Santiago e do litoral, há o vale do Aconcágua, ao redor da montanha de mesmo nome considerada a mais alta de toda a cordilheira, com 7 mil metros de altura. O solo arenoso e com pedregulhos, além de canais fluviais naturais ricos em minerais e matérias orgânicas, facilitam o cultivo da uva syrah, que ficou famosa nos anos 1980 e 1990 por meio das vinícolas australianas – em 1995, o vinho Penfolds Grange Hermitage, produzido no país da Oceania, ganhou o prêmio Wine Spectator.

Em 2011, quando o ampelógrafo brasileiro Luiz Horta visitou a região, escreveu um artigo no jornal O Estado de S. Paulo surpreso com o sabor que havia encontrado no vinho produzido no Aconcágua a partir da syrah. “Nunca tinha provado um vinho desses de clima frio tão notável aqui, pelo Novo Mundo”, disse.

O vinho da uva syrah geralmente é mais encorpado e profundo, e, no caso do cultivo em climas frios, resulta em notas de pimenta-do-reino e couro. Relatos históricos dão conta que algumas vinícolas francesas do século XIX misturavam a bebida da syrah com as outras para encorpar mais o produto final.

Enfim, um terceiro vale – mais alternativo – é o de Bio Bio, a 500 quilômetros de Santiago e próximo às terras geladas do chamado “Fim do Mundo”. Assim como Maipo, as vinícolas da região são tradicionais produtoras de vinhos chilenos, com registros de pelo menos um século de cultivo. Mais do que isso, a bebida é o que movimenta a economia de toda a província às margens do rio Bio Bio.

Ao contrário de Maipo, no entanto, é o clima: se em Santiago há dias de sol e climas secos, no extremo do país o que predomina é o frio úmido e os ventos mais fortes com chuvas. Por isso, as uvas cultivadas ali passam por um processo de amadurecimento mais longo, resultando em boas frutas para vinhos chamados “nobres”, como o pinot noir e o riesling. Uma das vinícolas de Bio Bio, a Cañata, é considerada a “mais austral do mundo”.

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