“Os números que temos hoje são reflexo do final de abril”, diz pesquisador da UFG sobre casos de Covid

De acordo com o biólogo, professor e pesquisador do novo coronavírus no grupo técnico da UFG, José Alexandre Felizola Diniz Filho, taxa de distanciamento social precisa subir para pelo menos 50% para que Estado não tenha problemas no sistema de saúde

Foto: Reprodução

Com a queda no isolamento social, o Estado de Goiás tem batido recordes nos últimos dias de contaminação e mortes. Há, até o momento, 1.640 infectados e 64 óbitos registrados.

De acordo com o biólogo José Alexandre Felizola Diniz Filho, professor no Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Goiás (UFG) e que integra o grupo de estudos técnicos sobre o novo coronavírus na academia, a redução do distanciamento social pode ter relação com o aumento dos casos.

“Nós éramos o melhor estado do Brasil em termos de isolamento. A gente consegue medir que estava havendo menos transmissão. As atividades começaram a aumentar e o isolamento a diminuir. Desde a semana passada a gente sabe que o governo está preocupado”, comentou.

No entanto, ele afirma que ainda não é possível medir as consequências desse afrouxamento ainda. “Quando a gente fez o isolamento em março, a gente caiu para valores muito baixos na faixa de 1.1 e 1.2, uma situação muito confortável para a gente em termos de sistema de saúde, uma boa situação. Como o isolamento está diminuindo, a gente acha que essa taxa de aceleração está começando a subir de novo”, avaliou.

“Como piorou o isolamento, a tendência é que comece a voltar. Se continuar como está, vamos ficar em uma situação bem complicada”, pontuou. Segundo José Alexandre, os números que temos hoje são reflexo do quadro do final de abril, uma taxa de contaminação de 1.2, considerada boa entre os especialistas. Entretanto, não representa o panorama atual.

“Esses 1.200 e poucos casos que temos não são de agora. Eles aconteceram a quinze ou vinte dias atrás. Tem a transmissão, o vírus encuba, depois a pessoa começa a apresentar os sintomas, vai piorando, aí que ela vai pro sistema de saúde, eles vão coletar o material, fazer o exame… tudo isso demora pelo menos 15 dias”, explicou.

“O que a gente consegue medir é que quando se está em uma situação normal e de repente você tem as medidas de isolamento, as pessoas ficam assustadas e ficam em casa. A transmissão vai lá para baixo. Quando começa a voltar, a gente não sabe bem qual a relação na volta. A mobilidade aumenta, as pessoas começam a sair, mas ao mesmo tempo elas estão usando máscaras, álcool em gel…” argumentou o professor. “No mundo ninguém sabe qual o efeito real dessas coisas”.

“A gente ainda não consegue calcular. Talvez mais alguns dias e a gente talvez consiga ver a diferença entre o que o nosso modelo está projetando pelo isolamento da telefonia e o que estamos observando no mundo real”, disse.

Decreto

Nessa quinta-feira, 14, em entrevista à imprensa goiana, o governador Ronaldo Caiado (DEM) se mostrou estressado em relação a falta de engajamento das prefeituras e da própria população em aderir a um decreto mais rigoroso, como ele havia anunciado. Em um tom de recuo, o chefe do executivo no Estado afirmou não ter mais data para a publicação do novo decreto.

“O governo pensa em como contornar isso e fazer com que as pessoas fiquem em casa. O decreto do último dia 19 não está sendo cumprido. Tinha um estudo da UFG embasando aquilo, em termos de setor econômico essencial etc. Outras coisas não foram indicação da UFG, mas o governador decidiu, como a questão das igrejas. Tinha coisas além do que o grupo da economia achava que era adequado, algumas coisas a mais. Mas, de qualquer maneira, não está sendo cumprido”, afirmou José Alexandre.

O professor da UFG e pesquisador do novo coronavírus compreende a frustração do governador em não conseguir com que as pessoas cumpram com o decreto. “As pessoas entenderam aquela flexibilização como uma mensagem de que está tudo bem. Não é isso, a coisa está começando a crescer. Se as pessoas não ficarem atentas, vamos ter problemas”, afirmou.

“Não se justificaria outro decreto, com exceção de algumas coisas de protocolo que poderia melhorar e fiscalização”, analisou o professor. Ele avalia que se a população baixar a guarda, o sistema de saúde goiano, que está em situação confortável, pode entrar em colapso. “Devemos soltar outra nota técnica do grupo entre hoje e amanhã com novas projeções”, afirmou.

“A gente consegue avaliar que o nosso número de transmissão está entre 2 e 2,5 antes do decreto em março. Estamos em uma situação confortável porque temos relativamente poucos casos, não são tantas mortes assim. Em relação a outros estados a gente está bem. Agora, o isolamento está caindo. Ele está caindo, mas não é por causa do decreto. É porque as pessoas estão saindo para a rua. O comércio está abusando. Muitas coisas que não deveriam estar abertas e estão, toda a parte empresarial, o setor de construção civil, que a gente não concordou que é serviço essencial, eles prometeram transporte para os trabalhadores e não estão dando (pelo que tenho ouvido na mídia). São uma série de problemas que eu vejo”, opinou.

“O que podemos dizer, tecnicamente, é que a gente deveria voltar para os 50% de isolamento, que conseguiremos segurar essa taxa de contaminação em 1.1 ou 1.2. O sistema de saúde vai dar conta de um problema nessa dimensão. No entanto, se passar muito disso, vai ser problema”, alertou José Alexandre.

A taxa de 50% é considerada pela Organização Mundial da Saúde como a mínima necessária para segurar a propagação rápida do vírus. “O grande problema é que uma boa parte da população entendeu o decreto da flexibilização como uma ideia de que estava tudo bem, que agora já passou. Não é verdade. O decreto só tinha objetivo de retornar algumas atividades essenciais para não derrubar muito a economia”, explicou.

O pesquisador reforçou a importância de se manter o isolamento social. “Quem puder, deve ficar em casa. A gente sabe que é difícil e que há muitos problemas econômicos. Não é uma situação fácil. O perigo não passou, muito pelo contrário. A gente está começando a entrar na fase de aceleração da pandemia”, alertou.

Pico

Para o professor, a discussão em relação ao pico da doença não é tão grave quanto parece. “As pessoas dão muita atenção ao pico. Quando ele vai ocorrer não é tão importante assim. O problema é que você tem que manter baixo. As pessoas se preocupam com o pico, porque elas estão preocupadas com o retorno”, falou.

“Quando você consegue adotar boas medidas de distanciamento e isolamento, as pessoas cumprem, você diminui a taxa de aceleração da contaminação e joga o pico lá para a frente. Jogar o pico lá para frente não é ruim, necessariamente. A menos que você diga, só vou voltar tudo quando o pico passar. Quando você consegue baixar as contaminações, você passa pelo pico e dá conta daquilo. Se você deixa a taxa de contaminação solta e as pessoas despreocupam, ela sobe, o pico vem muito mais para frente, mas ele estoura”, apontou.

Endemia

Nessa semana, o diretor executivo da OMS, Michael Ryan, afirmou que a Covid-19 pode se tornar uma endemia e jamais ser erradicada. Na avaliação de José Alexandre, esse discurso é totalmente plausível. “Como biólogo, esse vírus tem propriedades muito difíceis de lidar. Ele não é tão agressivo, como ebola, com uma mortalidade tão alta. Mas ele é um vírus com alta transmissão e fica encubado muito tempo e é transmissível ainda na fase de encubação, sem que a pessoa saiba. Então é difícil detectar”, explica.

“O que acontece? Mesmo que você consiga jogar ele lá para baixo, como é o caso da China e da Europa, ele volta. Vamos ter que ficar o tempo todo atentos, como ficamos atentos à dengue, H1N1, tudo isso vai ter que ter um monitoramento”, falou.

“Uma vacina ajuda bastante, você resolve em tese. A gripe você tem uma vacina todo ano porque o vírus é muito mutável. Esse é menos mutável, mas é mais difícil de se produzir a vacina exatamente pela maneira como ele se comporta, em termos de sistema genético. Vamos ter que aprender a lidar com ele durante muito tempo”, apontou o pesquisador.

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