Os argentinos e o deboche sobre a “columna” de Neymar

Está dentro das regras não escritas que o politicamente incorreto tem margem grande de tolerância nas arquibancadas. É preferível tomar esta como apenas uma piada a mais

argentina

De repente, surge um vídeo de uma turma de argentinos carregando uma espécie de modelo de coluna vertebral como um troféu e cantando alegremente: “Olê, olá, acá tenemos la columna de Neymar” (“Aqui temos a coluna de Neymar”). Pela paisagem ao redor — e pelo tanto de “hermanos” — a cantoria ocorreu em Brasília, provavelmente em comemoração à passagem dos portenhos às semifinais da Copa do Mundo.

Fico imaginando a capacidade de criação da logística para a piada: a réplica de coluna, provavelmente, é de algum consultório de ortopedia, o que leva a crer que tenha chegado ao estádio pelas mãos de algum médico argentino que trabalhe no Brasil — foram bem menos de 24 horas entre a notícia de que Neymar não mais jogaria neste Mundial, a classificação da Argentina e a filmagem. Como a rivalidade mobiliza a criatividade.

A reação dos brasileiros nas redes sociais, em grande maioria, foi de indignação, revolta e até fúria virtual. Alguns queriam identificação e expulsão dos torcedores brincalhões, outros falavam até em execução sumária.

De fato, a coluna de Neymar foi o assunto do fim de semana. A Rede Globo, então, em seu processo de saturação ao limite de qualquer tema que ache que vá dar ibope — procedimento que infelizmente contagia outras emissoras e até outras mídias —, evocou até físicos para estudar a contusão do craque. Quem quis saber já é um miniespecialista em terceira vértebra lombar, a agora famosa e revisitada L3.

Nas redes sociais, há piadinhas mil sobre o drama de Neymar. Quase todas de brasileiros. Todas igualmente de humor negro — acabo de receber um meme em que os craques da seleção são comparados a super-heróis: Hulk é o próprio, Fred é o Homem Invisível (ironia com sua má atuação em campo na Copa) e Neymar se torna o Professor Xavier, mentor e fundador dos X-Men, preso a uma cadeira de rodas. Mas a única irreverência que realmente causou revolta foi a dos argentinos.

As figuras públicas pagam caro pela exposição nos tempos atuais: o massacre que políticos e celebridades sofrem nos aplicativos de interação (Facebook, WhatsApp etc.) é de dar dó da família. Mas fatos que causam comoção, como o drama de Neymar, têm seus limites de irreverência. O brasileiro em geral pode até fazer alguma gracinha sobre a questão, mas não aceitará isso de seus rivais.

Da mesma forma que os argentinos apelam para nosso atual calcanhar de Aquiles (a contusão de Neymar) para desestabilizar os brasileiros, já é de longa data que aos gritos da (esdrúxula) comparação “Maradona és más grande que Pelé”, nós relembramos a vocação do camisa 10 deles para a toxicomania. “Mil gols, só Pelé, Maradona ‘cheirador’!” foi cantado em coro em Brasília pela torcida verde-amarela.

No fim de tudo, é do mundo do futebol esse tipo de provocação. Vai sempre existir onde existir rivalidade. De argentino para brasileiro, de brasileiro para argentino, de corintiano para palmeirense, de flamenguista para vascaíno, e por aí vai.  Está dentro das regras não escritas que o politicamente incorreto tem margem grande de tolerância nas arquibancadas. Obviamente, vão existir provocações mais brandas e mais fortes. É preferível tomar esta como uma piada a mais e rir dela — já que Neymar vai voltar a campo em breve, não está inutilizado para o esporte — a apelar e partir para o rancor ou até a disseminação do ódio.

Futebol é emoção, para o lado bom e para o lado ruim. Na hora em que os ânimos estão cada vez mais exaltados (e a perspectiva de uma final Brasil x Argentina), é bom que os mais sensatos desatem os nós em vez de arrochá-los. Mais leveza e menos picuinhas, é disso que precisa, e muito, o mundo de hoje, real e virtual.

Veja o vídeo abaixo:

https://www.youtube.com/watch?v=QgTlfjld0rk

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