Onde Bolsonaro quer chegar afirmando que não vai se vacinar?

Mais uma vez, o presidente nada contra a corrente para atingir fins que só Freud e seus conceitos psicanalíticos podem explicar

Quando se pensa que Jair Bolsonaro (sem partido, até quando?) não pode mais surpreender negativamente, ele sempre faz questão de nos mostrar que o buraco pode ficar mais fundo, muito mais fundo.

Não foi diferente nesta quarta-feira, 13, quando anunciou, em entrevista a sua principal aliada na imprensa, a Jovem Pan,  sua decisão de não se vacinar.

Dizendo que “minha imunização (sic) tá lá em cima”, o presidente se gabou de estar com o IgG (um dos parâmetros para medir os anticorpos contra o coronavírus) alto e comparou receber a vacina a jogar “10 reais na loteria para ganhar 2”. Sim: ele disse que, em seu caso, pelo menos, se vacinar é tomar prejuízo.

Só isso, acima de tudo o que diz a ciência e acima de todos os raciocínios lógicos, já seria uma conduta não só péssima como também criminosa para qualquer governante. Pela posição que ocupa e pela responsabilidade que o cargo lhe impõe, algo compulsoriamente merecedor de uma apreciação na Corte de Haia.

Mas, levando em conta a tradição já cultural que a população brasileira tem de se vacinar – e, diga-se, tradição fortalecida durante a ditadura militar –, pegamos Bolsonaro mais uma vez nadando contra a corrente para atingir fins que só Freud e seus conceitos psicanalíticos podem explicar.

O que ganha Jair – politicamente, eleitoralmente, moralmente, financeiramente, sei lá – ao declarar que não vai se vacinar?

Espremendo o cérebro para achar alguma lógica na decisão, talvez queira ser celebrado como um herói da luta própria “liberdade”.

Só que qualquer pessoa que deixa de se vacinar não está apenas usando de sua “liberdade”: na verdade, a está colocando acima do bem comum e, no fim, da vida das pessoas. Isso porque uma campanha de vacinação, seja ela qual for, só pode ter êxito com adesão massiva, com a colaboração da população em prol de si mesma, como sociedade.

Em meio a uma pandemia mortal, quanto mais rápido for o sucesso da imunização, mais vidas serão poupadas. E é contra isso que Bolsonaro puxa a fila e estica a corda.

Precisamos alcançar uma meta, que é a imunidade coletiva, a partir da qual a pandemia será coisa do passado. Já perdemos tempos e vidas demais com o atraso na compra da Pfizer e de outros imunizantes, que levou ao retardamento do início da vacinação, que por sua vez, faz com que agora idosos e outras pessoas continuem morrendo por não terem ainda tomado sua dose de reforço.

Ora, quem mais deveria buscar alcançar um resultado positivo contra a Covid-19, depois de mais de 600 mil mortes? É claro que o governo brasileiro, mais especificamente seu chefe, ainda mais em um cenário de crise, em que é necessária a aceleração da retomada da economia, e de eleições em 2022.

Mas Bolsonaro faz questão de marcar território do lado contrário: continua achando, tendo ao seu lado uma parcela cada vez menor de gente radicalizada dentro do bolsonarismo (porque mesmo entre seus apoiadores a maioria já se vacinou), que se vacinar ou não é um ato individual. Não entendeu nada ainda, ou entendeu e faz o que faz para continuar provocando celeumas e reafirmando seu negacionismo.

Será que, para o presidente, já não temos mortos demais para chorar? A pergunta é retórica e a resposta, óbvia.

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