Obras do Aeroporto de Goiânia colocam em risco Córrego Jaó, denuncia Amma

Órgão fala em crime ambiental por prejuízo de lagoa natural da nascente do córrego. Infraero nega que trabalhos tenham causado impacto ambiental

Nascente proxima a obra do aeroporto

Lago abaixo da nascente do Córrego Jaó, na região do aeroporto, ao lado da Rua da Divisa| Foto: Renan Accioly

As obras do novo Aeroporto de Goiânia podem estar comprometendo o Córrego Jaó, é o que informa a Agência Municipal de Meio Ambiente (Amma). O órgão constatou que o córrego, que segue o curso até o clube que leva o mesmo nome, está sendo poluído por sedimentos — tanto das obras quanto do próprio solo.

O problema foi verificado pelo diretor de Área Verdes do órgão, Wilmar Pires, enquanto monitorava a área. O gestor público, pós-graduado na área de degradação e erosão, percebeu o assoreamento da lagoa natural próxima à nascente Jaó, ao lado da Rua da Divisa.

Corrego Jao Google Maps

Imagem da região da nascente do Córrego Jaó (clique na imagem para ampliá-la) | Foto: Google Maps

Depois de ir ao local com técnico da Amma, foi constatado que a nascente ainda está limpa, mas o lago está comprometido. Conforme o diretor, a situação está causando danos ao meio ambiente. “Existe prejuízo ambiental; existe crime ambiental. Aqueles sedimentos não podem ficar na lagoa”, sustentou.

Wilmar assegurou que o relatório técnico já foi feito e enviado para a Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária (Infraero) na última quinta-feira (19/11), pedindo explicações e a licença ambiental da obra. A Amma pede que seja feito o replantio das árvores em volta da lagoa, próxima à nascente, além da limpeza da água.

Conforme o diretor, o aeroporto construiu uma bacia de contenção com o objetivo de evitar que a água da chuva carregue sedimentos para o Córrego Jaó. Entretanto, a capacidade não foi suficiente e a chuva recente carregou alguns resíduos para o lago e, consequentemente, para o córrego.

Na região do lago, ao lado da Rua da Divisa, é possível ver alguns operários trabalhando. A Infraero enviou uma nota para o Jornal Opção alegando que no local está sendo realizada obra de construção de uma nova bacia de contenção de águas pluviais. “A ação representa melhoria na drenagem de águas de chuva, protegendo assim a nascente de água localizada na área do aeroporto”, explica em nota.

Infraero informa que está sendo construída uma nova bacia de contenção no local, e que obras não causam impacto ambiental algum na lagoa| Foto: Renan Accioly

Infraero informa que está sendo construída uma nova bacia de contenção no local, e que obras não causam impacto ambiental algum na lagoa| Foto: Renan Accioly

A empresa declarou que possui as licenças ambientais da Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Semarh), atual Secretaria de Cidades e Meio Ambiente (Secima). “Os trabalhos no local não causaram qualquer impacto ambiental. Todas as ações estão sendo diretamente acompanhadas pelas equipes de obra e pela Infraero”, garante sem explicar, entretanto, a quantidade de sedimentos no lago.

O diretor Wilmar Pires alegou que preferiu aguardar um posicionamento oficial da Infraero antes de tomar providências mais incisivas. “Se não apresentarem a licença, vamos autuar.”

O Código Florestal estabelece que devem ser mantidas áreas de preservação permanente em um raio de 50 metros ao redor das nascentes. O advogado agroambiental Marcelo Feitosa esclarece que caso seja constatado crime ambiental, a lei 9.605/1998 prevê pena de 1 a 4 anos de reclusão e multa. Em caso de crime culposo, a pena é de 6 meses a 1 ano, além de multa.

Proteção da nascente foi feita pelo Clube Jaó
Nascente proxima a obra do aeroporto

Imagem da lagoa | Foto: Renan Accioly

Preocupado com o córrego, a gestão do Clube Jaó construiu, nos idos de 1970, uma cerca natural em volta da nascente e da vegetação do entorno para proteger a mina.

O proprietário do Clube Jaó, Ubirajara Berocan Leite Filho, contou ao Jornal Opção que ao ver a situação do lago, entrou em contato com a Infraero para questionar sobre o assoreamento.

De acordo com o empresário, que diz ser o maior interessado pela preservação da nascente, o trabalho da Infraero está sendo feito com muito cuidado. “O lago já está mesmo bem assoreado em função da obra do aeroporto. Mas agora eles estão fazendo a bacia de contenção, vai melhorar muito”, garante, ressaltando que ao chegar na empresa foi bem recebido e teve todas as dúvidas sanadas.

Berocan pontua que devido às obras do local, grande parte da área ficou impermeável. Desta forma, a nova bacia de contenção ajudará a impedir que a água da chuva, que não terá para onde escoar, chegue com muita força ao córrego. “Eu não sou técnico, mas pelo pouco que sei é o que percebo. A Infraero está fazendo uma obra boa para nascente e para o córrego”.

Para o empresário, existe exagero por parte da Amma. “Não tem como fazer omelete sem quebrar ovo. Eles são meio radicais nesse ponto”, assegurou, exaltando a importância das obras do aeroporto.

Sobre o assoreamento, o doutor em Geociências e Meio Ambiente, o professor Júlio Rubin, da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO), explicou que o grande problema da retirada da vegetação é que a terra fica desprotegida. Com isso, a água da chuva leva sedimentos naturais da terra para lagos e para a própria nascente, gerando o processo.

A situação, segundo o professor, poderia ter sido evitada se já tivesse sido construída uma bacia de contenção maior.

“Eles poderiam ter pensado com mais cuidado e feito uma gestão da bacia de contenção cuja capacidade não se superasse com chuvas mais intensas”, pontuou, ressaltando ser necessário um estudo aprofundado da área para um posicionamento categórico dos riscos gerados para a nascente e consequentemente para o córrego.

 

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