“O que Caiado queria era anistia irrestrita para quem desmatou”, diz deputado do RS

Senador disse, em entrevista, que “ninguém mais do que ele tem credenciais para falar de sustentabilidade” e acabou se contradizendo quanto à aprovação do Código Florestal

Montagem

Em entrevista ao Jornal Opção, o deputado federal Bohn Gass (PT-RS) fez duras críticas ao senador e candidato ao governo de Goiás Ronaldo Caiado (DEM) e rebateu recentes declarações do democrata quanto ao tema meio ambiente. “O que Caiado queria era anistia irrestrita para quem desmatou”, disparou o petista.

Isso por quê, durante uma entrevista à rádio Sagres nesta semana, o governadoriável foi questionado sobre as suas propostas para a área de sustentabilidade e acabou escorregando nas palavras ao falar do seu “protagonismo” durante a aprovação do novo Código Florestal Brasileiro, ocorrido em 2012, quando o democrata era deputado federal.

“Eu sou a pessoa que escrevi sustentabilidade, como senador da república, como deputado federal, que aprovei o Código Florestal. Então, ninguém tem mais credenciais para dizer sobre sustentabilidade do que eu”, foram as palavras do governadoriável, que completou dizendo, ainda, que o texto é a lei “mais avançada e mais moderna no mundo” em relação ao tema.

Além disso, durante a mesma entrevista, Caiado, que fez parte da bancada ruralista na Câmara, deu a entender que foi autor da mudança. “Eu fui autor, eu estive lá, eu realmente lutei e implantei um modelo que, agora sim, chegando ao governo, vou colocá-lo em prática, pois tenho credibilidade moral”, arrematou.

Para entender melhor sobre o assunto Bohn Gass, presidente da comissão mista que analisou a medida provisória do novo Código Florestal à época, foi encontrado e entrevistado pelo Jornal Opção. À reportagem, ele refutou de imediato a ênfase dada por Caiado a si próprio nas declarações.

“O que ele [Caiado] queria era a anistia geral irrestrita para quem havia desmatado de forma incorreta, ou seja, que estas ações fossem esquecidas ou perdoadas. Eles [bancada ruralista] queriam apenas o lado do produtivismo, sem lembrar da preservação”, alegou Bohn.

Ainda de acordo com o parlamentar, foi difícil convencer os ruralistas da importância de preservar a maior quantidade de áreas possíveis e que, apenas depois de muita polêmica e discussão, foi possível aprovar o projeto “mais equilibrado possível”.

Código na prática

Ainda dentro das declarações do democrata, diversos pontos foram criticados e contestados também por José Aluízio Ferreira Lima, porta-voz da Rede Goiás — partido que tem a sustentabilidade como uma de suas principais bandeiras. À reportagem, ele afirma que o próprio Código Florestal possui falhas e que não pode ser considerado em si como uma vitória.

“Não adianta dizer que ele [Caiado] vai implantar o código ,sendo que a própria matéria possui erros e beneficia o setor agropecuário mais do que o próprio meio ambiente. Em Goiás, por exemplo, 62% do território já foi desmatado, 20% representa reservas legais e apenas 6% são áreas de preservação permanente (APP), o que nos resta então?”, explicou e argumentou José Aluízio, questionando o que, de fato, será posto em prática: “Recuperação, reflorestamento? Precisamos saber”.

“Não adianta dizer que vai implantar o Código Florestal, sendo que o próprio candidato é ruralista”, expôs o porta-voz da Rede.

Agrícola e não florestal

Antônio Pasqualetto, especialista em recursos hídricos e doutor em Engenharia Agrônoma, também rebate as falas de Caiado. “Tenho sérias críticas ao Código Florestal. Ele veio para substituir a lei da década de 60 e chegou a ser aprovado com alguns pontos positivos e interessantes, porém acabou deixando de lado quem havia cometidos crimes ambientais, diminuiu as áreas de preservação permanente, regularizou e legalizou a situação de áreas rurais que continham leitos de água sem mata ciliar, ou seja, foram pontos que beneficiaram ruralistas”, ratificou.

O especialista chegou a dizer que o código possui mais características agrícola do que florestal ou ambiental. “Ele teve uma forte presença do meio rural que transferiu, de certa forma, consequências que comprometem recursos hídricos e de produção em quantidade e qualidade para a população”, concluiu.

Neste contexto, apesar de não ser autor ou ter tido protagonismo no processo de mudança do Código Florestal em 2012, conforme alegou, Caiado sustenta como única proposta para o meio ambiente a implantação de um código que, na visão de ambientalistas, não contribui de fato à sustentabilidade.

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