Na histórica Cidade de Goiás existe uma preciosidade musical executada há séculos durante a Semana Santa. O livro foi carinhosamente intitulado “Livrão da Dona Darcília”, mas também é conhecido como “Livrão da Boa Morte”. Ele é composto por ritos cerimoniais, atos litúrgicos e orientações para o celebrante e o coro.

O livrão foi repassado a Dona Darcília de Amorim (1902-1995) após a morte de Dona Adelaide Sócrates, sua tia e dirigente do coro. A sucessão da guarda desse livrão, juntamente com todo o acervo remanescente do Coro da Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte — que já estava parcialmente comprometido pela ação de traças e cupins — ficou com o médico e músico Fernando Cupertino.

“Com idade muito avançada e não conseguindo, por questões de saúde, estar muito presente, ela passou para mim todo o arquivo do antigo Coro da Boa Morte. Inclusive esse famoso livrão com toda a liturgia da Semana Santa, elaborado pelo Monsenhor Pedro Ribeiro da Silva na virada do século XIX para o século XX”, explicou Cupertino ao Jornal Opção.

O médico e músico, Fernando Cupertino | Foto: Arquivo Pessoal

Fernando Cupertino é natural de Goiânia, mas retornou com os pais para a Cidade de Goiás aos sete dias de vida. Passou toda a infância e adolescência na cidade. Conviveu com Dona Darcília Amorim, que era regente do antigo Coro da Boa Morte — posteriormente transferido para a Catedral de Sant’Ana no ano de sua reabertura.

O médico explica que deu os primeiros passos na música com Dona Darcília Amorim.

Aprendi música com ela, as primeiras noções de acompanhamento, no harmônio e em composição. Essa mulher notável exerceu várias atividades, inclusive participou da reconstrução da Catedral de Sant’Ana da Cidade de Goiás. Essa reconstrução só aconteceu graças a ela

O “guardião do livro” explica que a obra reúne um repertório muito característico daquela época: a música dos chamados cecilianistas — movimento de reforma da música sacra iniciado na Europa no século XIX. Um dos grandes expoentes foi o maestro Lorenzo Perosi, da Capela Sistina. O livrão, portanto, contém peças que eram cantadas na Cidade de Goiás, muitas delas executadas até hoje. São obras coletadas de grandes músicos europeus e também de compositores locais.

O professor titular do Instituto Federal de Goiás (IFG) e PhD em Musicologia pela University of Kentucky, Marshal Gaioso, explicou ao Jornal Opção que o livrão foi integralmente digitalizado, gerando imagens em alta resolução de cada página do manuscrito. “A partir dessas imagens, tornou-se possível pesquisar o conteúdo da obra sem a necessidade de manipular o papel original, evitando, assim, o desgaste do suporte físico”, esclarece.

Professor Marshal Gaioso | Foto: Arquivo Pessoal

De acordo com Marshal Gaioso, a partir das cópias digitais foi produzida a edição crítica da partitura. “O primeiro passo consistiu na transcrição paleográfica da obra, isto é, na criação de uma nova versão em software de editoração musical, respeitando rigorosamente a grafia original.”

Nessa etapa, busca-se manter o texto musical o mais fiel possível ao manuscrito. O passo seguinte consiste na correção de eventuais erros ou imprecisões presentes no documento — uma vez que copistas e até mesmo compositores podem cometer lapsos durante o processo de escrita — e, quando necessário, na atualização de determinados aspectos da notação musical.

Com base nessa edição moderna, pude ensaiar e apresentar a obra em concerto realizado na Igreja do Rosário, na Cidade de Goiás. O público pôde, assim, ouvir novamente o som que permanecia guardado naqueles antigos manuscritos musicais

Música para Domingo de Ramos

No ano passado, foi realizada a primeira apresentação com trechos da “Música para Domingo de Ramos”, pelo Chorus Instituti Columbani — projeto financiado pelo Sicoob UniCentro.

“Para este ano e o próximo, estamos planejando uma série de concertos do Chorus Instituti Columbani, com o propósito de tornar acessível à população o conteúdo do ‘Livrão da Dona Darcília’ e de outros manuscritos do repertório goiano dos séculos XVIII e XIX”, antecipa o regente Marshal.

Concertos do Chorus Instituti Columbani | Foto: Arquivo Pessoal

“Com os esforços que temos empreendido, especialmente sob a coordenação do maestro Marshal Gaioso, estamos recuperando essas partituras e nos preparando, se Deus quiser, para tornar essa música mais viva e completa, apresentada em sua totalidade, nos 300 anos da cidade”, afirma Fernando Cupertino.

Todo esse projeto de recuperação dos acervos também conta com a ajuda do Museu da Música. O museu é uma idealização da Fundação Frei Simão, da Cidade de Goiás, e é dirigido por Leonardo Lacerda. “Unindo esforços para resgatar uma obra tão importante para a música litúrgica e para a música sacra no Brasil, especialmente no Brasil Central”, finaliza Cupertino.

Conheça a Dona Darcília de Amorim (1902-1995):

Coro da Boa Morte

A Igreja da Boa Morte, como é comumente chamada, foi palco de importantes manifestações musicais protagonizadas por um coro de qualidade, conforme atestam diferentes notas em jornais do final do século XIX e do primeiro quartel do século XX.

Desde 1999, a música litúrgica da Semana Santa é assegurada pelo Coral Solo, sob a direção de Sebastião da Silva Curado, tendo como correpetidores Fernando Cupertino e Consuelo Quireze Rosa, ambos da UFG.

O Coro da Boa Morte utilizou o conteúdo do livrão desde 1919 até os dias atuais. Historicamente, é possível situá-lo no início do século XX, correlacionando seu conteúdo com as exigências ditadas pelos bispos que chegaram a Goiás na segunda metade do século XIX.

Imagem histórica do Coro da Boa Morte | Foto: Arquivo Pessoal

Monsenhor Pedro Ribeiro da Silva

Os registros mais precisos, com comprovação documental, atribuem ao monsenhor Pedro Ribeiro da Silva (1867-1920) papel de destaque na música litúrgica em Goiás. Foi ele quem sistematizou um roteiro litúrgico-musical para as celebrações da Semana Santa, em 1919, na forma de um livro cerimonial oferecido em dedicatória a Dona Adelaide Sócrates (1888-1935), então diretora do Coro da Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte, na Cidade de Goiás. Assim se deu a sucessão da guarda do livrão, como narrado nesta reportagem.

Monsenhor Pedro Ribeiro da Silva | Foto: Arquivo

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