Há livros que se oferecem como guias eruditos e severos, zelosos em manter intacta a tradição que evocam. Outros, porém, preferem brincar com o tempo, a história e a imaginação. E é nessa segunda vertente, mais ousada e lúdica, que se inscreve “O Cajado Viajante”, de Everaldo Jr., obra que acaba de chegar às livrarias como um convite a uma viagem sem fronteiras.

Everaldo Jr. é um escritor de dupla matrícula. Herdeiro de uma sólida tradição literária, foi menino criado entre livros e grandes autores, pois é filho da escritora goiana Maria de Fátima Gonçalves, titular de cadeira na Academia Goiana de Letras. A mente de Everaldo Jr. parece também lapidada pela lógica das exatas e da engenharia, o que confere à sua prosa uma estrutura precisa, um andaime forte sobre o qual o fantástico pode crescer sem desmoronar. Ele é, assim, um verdadeiro escritor do nosso tempo: absorve com igual fome as sagradas páginas de Cervantes e a narrativa veloz de Percy Jackson, a profundidade dos clássicos e a linguagem fragmentada da internet.

Sua trajetória já era anunciada em obras anteriores – “A Ampulheta”, “O Olhar de Hórus” e “O Cálice Flamejante” a cujos lançamentos fomos e todos os exemplares foram recebidos com entusiasmo pela crítica. Destaque para o prefácio do saudoso Gilberto Mendonça Teles, que, ao analisar “O Cálice Flamejante”, cunhou o conceito de “verossimilhança ilógica”. Não se trata de uma falha, mas de uma conquista criativa, um combustível que alimenta o imaginário contemporâneo.

Em “O Cajado Viajante”, Everaldo leva essa liberdade ao seu ápice. O livro é, antes de tudo, uma aventura deliciosa e autossuficiente. Para o leitor que busca apenas diversão, a história basta. Mas para quem carrega um repertório cultural, a experiência expande-se em camadas de significado. É aqui que a obra revela seu brilho mais intenso: Dom Quixote e Sancho Pança, resgatados das páginas de Cervantes, são lançados em um universo onde conversam com Loki, negociam com Drácula e se espantam com Anúbis.

Neste caleidoscópio narrativo, onde Zeus se encontra com Rá e Hermes cruza com Osíris, Everaldo Jr. tece um sincretismo que é, ao mesmo tempo, paródia e homenagem. Sancho mantém seu humor pé-no-chão, desconstruindo a grandiloquência dos deuses, enquanto Quixote persiste em seu idealismo, mesmo quando sua Dulcineia é projetada em constelações. A força do livro não está em repetir mitos, mas em reinventá-los, fundindo tempos, espaços e olhares sobre a experiência humana.

Leveza

Há, na empreitada de Jr., um eco das “Seis Propostas para o Próximo Milênio”, de Ítalo Calvino. Ele encarna, sem esforço, a leveza no trato com os mitos, a rapidez nas transições, a exatidão no encaixe das referências, a visibilidade quase cinematográfica das cenas e a multiplicidade de vozes que convoca. E, sobretudo, encontra a Consistência – a proposta que Calvino não pôde escrever – justamente no retorno aos clássicos, usados não como muleta, mas como trampolim para a criação do novo.

Esta não é apenas uma percepção do leitor atento, mas uma constatação crítica. O Prof. Dr. Divino José Pinto situa a emergência deste novo clássico com a precisão de quem decifra um fenômeno literário. Para ele, Everaldo Jr. é “moço prodígio ao estilo de Rimbaud e Álvares de Azevedo”, cuja obra instaura “fronteiras imaginárias que se principiam como nascente dos planaltos sertões goianos, aptos a aportar, sorrateiramente, nas águas transpostas do Nilo, Tâmisa, Ebro ou Araguaia”.

O professor avança ainda mais na essência do projeto cervantino de Everaldo Jr., afirmando ser “um dever” debruçar-se sobre sua escrita “revolucionária”. Ele identifica no autor a marca do clássico: “a capacidade de verticalizar em modelos tão consagrados, atualizando e dotando-os de um frescor e originalidade”. Esta é a chave para compreender a profundidade por trás da aparente leveza de O Cajado Viajante. A obra não é um simples pastiche, mas um diálogo profundo e consciente, “uma pérola forjada no labor inventivo de quem cria novos mundos, sem se afastar do passado”.

Mas a literatura, para Everaldo para ele não é apenas um jogo de espelhos. É também um modo de lidar com a vida e a morte. E é no seu comovente discurso de lançamento que o autor revela o coração por trás do teclado de escrever. Ele compartilha as perdas que marcaram a criação da saga – sua avó, o crítico Gilberto Mendonça Teles, o editor Antônio Almeida, o professor Pedro de Abreu Júnior e o barbeiro Francer Pires –, transformando a dor em arte.

“Como uma singela homenagem à passagem da vida para a morte”, revela, “foi composta no final do romance… um Requiem cantado pelo pássaro brasileiro Bem-te-vi com o Corvo de Poe”. É essa fusão do local com o universal, do pessoal com o mítico, que confere à sua obra uma rara autenticidade humana.

Ao final, “O Cajado Viajante” se revela mais que um livro; é um convite a uma travessia. Uma jornada que conduz o leitor por um território onde a literatura ressoa com todas as suas potências: diverte, ensina, transforma e consola. Everaldo Jr., com a “vara de condão do Criador” a que se refere o Prof. Divino, forja da argila das palavras um instante mágico. Ele nos entrega um cajado para essa jornada. Cabe ao leitor aceitar o convite.

Everaldo Júnior | Foto: reprodução

Discurso de Lançamento do Livro “O Cajado Viajante”
Por Everaldo Jr.
Goiânia, 29 de setembro de 2025.
Hoje celebro o lançamento de mais um romance, a obra O Cajado Viajante (2025), o penúltimo da saga O Diálogo do Camaleão. Encontro a felicidade plena, dentro da Eudaimonia de Aristóteles, mas sei que minha felicidade ficará próxima à potência de Espinosa, ofegante ao final deste discurso.
Nos livros predecessores – A Ampulheta (2019), O Olho de Hórus (2020), O Cálice Flamejante (2021) – tive imensa alegria na escrita. Sempre na tentativa de encantar o leitor, brincando com as temáticas do Tempo, Espaço e Vida, que tanto me inquietam.
Mas afinal, o que é a vida?
A vida, como objeto de profunda reflexão, pode ser tratada como viver bem, como apontado por Sócrates: “conhece-te a ti mesmo”. Para os estoicos, a Ataraxia, a aceitação do que não podemos controlar, nos leva à boa vida. Nietzsche propõe que a vida seja afirmada em sua intensidade. Heidegger nos lembra da finitude. Ele, como um apreciador do Carpe Diem, gosto da vertente de Epicuro: aproveitar os pequenos prazeres. Como disse Bergson, apenas o “impulso vital” vivido permite compreendê-la. Assim, percebemos que quem é vivo tem propriedade para falar sobre a vida.
No entanto, ao se tratar da morte, é uma questão delicada, que este articulista cuida no campo da espiritualidade filosófica.
Na obra O Cajado Viajante, ocorre a transcriação de Quixote, que junto do desocupado leitor, viaja sob o brilho das estrelas e os signos do zodíaco, a caminho de El Toboso. Até encontrar com o seguinte questionamento: O que é a morte?
Diferente da vida, nós, como humanos, não temos a propriedade para falar sobre ela. Por essa limitação, pensar sobre essa questão causa dor. E eu, como escritor, além de refletir, precisei sentir. Como explicou Pound, “only emotion endures” – somente a emoção verdadeira perdura. E Goethe: “Cinza, caro amigo, é toda teoria, / e verde é a árvore de ouro da vida”.
A morte é uma certeza. Durante a escrita desta saga, sofri com a perda de pessoas muito próximas: minha avó Manoelina Gonçalves Leitão; meu amigo, o renomado crítico Gilberto Mendonça Teles; o fundador da Editora Kelps, Antônio Almeida; meu amigo professor Pedro de Abreu Júnior; e meu barbeiro Francer Pires, que sempre acreditou no meu trabalho.
Como uma singela homenagem à passagem da vida para a morte, compus no final do romance um Requiem, cantado pelo pássaro brasileiro Bem-te-vi com o Corvo de Poe.
Não obstante, retorno com a pergunta: O que é a morte? Quem voltou dos mortos e nos disse exatamente como é lá?
Nos mitos, encontramos algumas respostas. No Egípcio, Osíris volta transformado. No Grego, a morte de Perséfone é uma passagem de vivência. No Asteca, Quetzalcóatl retorna transformado. No Japonês, Izanagi encontra sua esposa mudada. No Espiritismo e no Hinduísmo, é um processo de reencarnação. Na Suméria, Inanna é ressuscitada. Na Nórdica, a morte de Balder é uma preparação.
O que temos é que a morte é certa, mas é nossa a escolha de deleitar e aproveitar a energia vital sagrada que nos foi emprestada.
Diante disso, gostaria de homenagear o escritor goiano Hugo de Carvalho Ramos, cuja obra Tropas e Boiadas tanto explica os costumes vivos de Goiás. Brabo!
Para terminar, agradeço do fundo do meu coração o apoio de meus pais, minha mãe escritora Maria de Fátima Gonçalves Lima, e meu pai engenheiro Everaldo Correia de Lima. Agradeço à Academia Goiana de Letras, ao meu amigo e professor Divino José Pinto, à professora Ana Kelly Souto, ao professor Wander Lourenço. Parabenizo os alunos e professores da PPGL da PUC-GO pelo empenho neste evento. E aos aniversariantes, professora Maria Aparecida Rodrigues e professor José Ariosvaldo.
Agradeço a todos que estão presentes. Espero que disfrutem a leitura de O Cajado Viajante e tenham uma boa viagem! (Everaldo Jr.)