No aniversário de Goiânia, pacientes de hospitais municipais não têm muito o que comemorar

Em reportagens feitas desde o início da gestão Íris, as denúncias de descaso se multiplicam e a administração segue dizendo que está tudo bem

Foto: Jornal Opção

Nesta quarta-feira (24/10) faz um ano, nove meses e 23 dias que Iris Rezende (MDB) tomou posse como prefeito de Goiânia, eleito em outubro de 2016. A saúde na capital de lá para cá, em uma gestão que sucede a do médico falecido Paulo Garcia (PT), é alvo de denúncias na Câmara Municipal e no Ministério Público sobre falta de remédios e insumos, filas, atrasos em cirurgias, problema de estrutura em unidades, entre outros.

Neste mês, o Jornal Opção foi conferir a situação dos Centros de Atenção Integrada à Saúde (Cais) de Goiânia. Lá, a reportagem encontrou pacientes desgastados com o descaso no atendimento, filas e, inclusive, falhas no sistema, que impediram que algumas consultas e exames fossem realizados.

Uma das pessoas que conversaram com a equipe do jornal, Kelly de Freitas, contou que já era a terceira vez que ia ao Cais Amendoeiras, no Parque das Amendoeiras, tentar ser atendida, já que nas duas primeiras o médico não apareceu. Em uma delas, ela ficou das 7h às 17h esperando atendimento, até que lhe mandaram voltar para casa.

Em resposta, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) disse, à época, que não havia registro de falta frequente de médicos, como denunciado pela paciente, e que a secretaria só teria tomado nota de uma ausência devido ao luto na família de um dos médicos.

O mesmo Cais também havia sido alvo de inspeção pelo Ministério Público de Goiás. Na vistoria feita pelo promotor Vinicius Jacarandá ainda neste mês, foram encontrados cômodos com pintura velha, instalação elétrica precária, banheiros danificados, móveis antigos e danificados e poucos aparelhos de ar condicionado funcionando. Ele também apurou uma constante falta de medicamentos, assim como de alguns insumos.

O único ponto elogiável pelo promotor à unidade era a estrutura do prédio, considerando que se trata de um edifício antigo. Em nota, a SMS disse que uma representante da secretaria acompanhava as inspeções para ver no que as unidades de saúde tinham melhorado e o que precisava ser mudado.

Esse, no entanto, não foi o único cais inspecionado. O promotor também visitou, no fim de setembro deste ano, o Centro de Saúde Vila Boa, onde também encontrou uma boa estrutura física no geral, mas, em contrapartida, constatou falta de adequação de acessibilidade dos banheiros, necessidade da aquisição de alguns equipamentos e, também, de providências relativas à implementação de uma farmácia, para a dispensação de medicamentos. Ele também pediu que a gestão melhorasse a segurança da unidade.

CEI da Saúde

Porém essa não é a primeira vez que unidades de saúde na capital são alvo de denúncias. Na Câmara Municipal, desde o início da gestão vereadores trazem para a mesa discussões sobre a situação da saúde em Goiânia. Em maio deste ano, a Comissão Especial de Inquérito (CEI) da Saúde, criada em outubro de 2017, pediu o indiciamento de mais de 30 pessoas. Entre elas, a secretária municipal da Saúde, Fátima Mrué.

O relatório apurou, entre outras coisas, denúncias de irregularidades na situação dos leitos de UTI e falta de atendimento odontológico. O pedido de indiciamento da secretária de saúde foi devido à acusação de lesão corporal por ter suspendido o atendimento odontológico na capital.

Cinco meses se passaram desde a apresentação do relatório e área da administração municipal permanece sendo alvo de denúncias. O relator da CEI da Saúde, vereador Elias Vaz (PSB), avalia que o setor é o ponto mais crítico da gestão Íris. “A insistência dele de manter a secretária é um desastre, os problemas continuam os mesmos e a prefeitura não consegue resolver”, pontua.

Ele conta que a administração municipal sempre reclama que a saúde tem dificuldades pelo fato de a capital atender, também, pacientes de cidades do interior. “Sempre a mesma ladainha, mas isso acontece há muito tempo, não é justificativa, problemas mínimos não são resolvidos”, disse Elias ao Jornal Opção.

Na época em que o relatório foi apresentado, o jornal procurou a SMS e a prefeitura, que não se manifestaram. A secretária Fátima Mrué, no entanto, até aquele momento, já havia sido ouvida pela CEI sete vezes.

Sobre o sistema de chequinho, que teve software trocado por meio da contratação milionária da Vivver Sistemas, o prefeito havia dito anteriormente que o fez para diminuir as filas e, ainda, colocado na gestão anterior a culpa da demora nas filas nas unidades municipais de saúde. Entretanto, à época, o técnico da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico, Trabalho, Ciência e Tecnologia (Setec) disse à CEI da Saúde que a troca do sistema foi desnecessária uma vez que havia equipe qualificada para aprimorar o programa que já existia.

Além disso, o então diretor do Cais de Campinas, Max Nascimento, relatou que o novo software era mais difícil de mexer e que muitos médicos estariam optando por não usá-lo, fazendo todo o procedimento de forma manual.

O problema com o chequinho continua. No Cais do Jardim Guanabara, visitado pelo Jornal Opção recentemente, pacientes estavam irritados com a dificuldade em conseguir o chequinho, que é uma autorização para realizar exames. No fim da fila, Márcia Alves disse que a equipe da unidade disse aos pacientes que a demora era motivada por uma falha no sistema, que teria parado.

Questionada, a SMS disse que o problema era pontual, pois, no dia da denúncia dos pacientes, o Cais do Jardim Guanabara realizava o Dia D de Mamografia e, por isso, teria ocorrido um congestionamento no setor de chequinho.

Início da Gestão

Esta é a quarta vez que Íris é prefeito de Goiânia. Em junho de 2017, cinco meses após a posse, o Jornal Opção apurava que faltavam médicos pediatras no Cais da Vila Nova. Na reportagem, encontrou-se mães que voltavam com crianças para casa porque não podiam ser atendidas devido à falta de especialistas.

Na época a reportagem conversou com alguns funcionários, que não se identificaram, e apontaram que o problema ocorria desde a gestão anterior e ainda não havia sido resolvido. Um deles ainda disse que a diferença é que na gestão anterior, os médicos emergencistas podiam atender as crianças. Mas devido a credenciamento criado na gestão Íris, elas só poderiam ser atendidas pelos médicos especialistas. O problema é que o déficit ainda não havia sido resolvido.

Em resposta a SMS disse que haviam 170 pediatras na rede municipal de saúde e que as referências eram o Cais do Jardim Novo Mundo e o Cais de Campinas. O atendimento especializado para crianças na unidade do Jardim Novo Mundo havia sido instalado há um mês.

O Cais de Campinas, considerado referência no atendimento pediátrico pela secretaria na época da reportagem, era protagonista, no entanto, de um transtorno naquele mesmo mês: junho de 2017. A unidade deixava de atender emergências devido à falta de médicos.

A falta de quadro nesse Cais voltou a ser alvo de denúncia em setembro deste ano, quando houve pedido de interdição da unidade pelo Conselho Regional de Medicina no Estado de Goiás (Cremego). Uma dos principais pontos levantados pelo conselho quando houve a interdição foi a falta de condições adequadas para a prática da medicina no local.

Logo depois a unidade voltou a funcionar e a administração da unidade disse ao Jornal Opção que o atendimento havia sido retomado e os problemas apontados pelo Cremego haviam sido solucionados.

Hoje

A poucos meses de se chegar à metade da gestão, a saúde é pauta desgastada na Câmara e vereadores da oposição criticam a manutenção de Fátima Mrué na secretaria de saúde, que já foi alvo de ação por improbidade administrativa no MP-GO. A 4ª Vara da Fazenda Pública Municipal da comarca de Goiânia, no entanto, teria negado o pedido de afastamento da secretária.

Íris Rezende se nega a trocar a chefe da secretaria. Em junho deste ano, o prefeito disse ao Jornal Opção que acreditava ter cumprido a promessa na saúde: “Você já não vê mais queixas. É raro você ver uma queixa em Cais e temos mais de uma centena”, afirmou.

Em maio, mesmo mês em que sua gestão foi alvo de pedidos de indiciamento pela CEI da Saúde, o prefeito, ainda assim, acreditava na eficiência de sua ação na saúde. Chegou a afirmar que Mrué era injustiçada e que não via motivos para afastá-la.  Para Elias Vaz, relator da CEI, hoje, o maior problema da gestão do emedebista em relação à saúde é a insistência em negar as falhas da atual secretária e aponta que quem sofre com tudo isso é a população.

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