Negociação de ações da Celg teria causado divisão na diretoria da Eletrobras

Para a tomada da decisão houve uma abstenção, um voto contrário e seis a favor. Pelo menos três desses seis, no entanto, teriam sido proferidos de forma “contrariada”

A compra de 51% das ações da Celg não foi tomada em consenso pelos conselheiros da Eletrobras. Segundo o jornal Valor Econômico, a negociação deixou a direção da empresa dividida, com uma abstenção, um voto contrário e seis a favor. Pelo menos três desses seis, no entanto, teriam sido proferidos de forma “contrariada”.

O único que não participou do encontro foi o membro independente João Antonio Lian, que estava em viagem. Segundo a publicação, Jailson José Medeiros Alves, que representa empregados da companhia, foi o único a votar contra a aquisição da distribuidora.

Apesar disso, uma fonte do Valor informou que os conselheiros Wagner Bittencourt (vice-presidente do BNDES), Lindemberg de Lima Bezerra (representante do Tesouro Nacional) e Maurício Carvalho (secretário do Programa de Aceleração do Crescimento) ficaram desconfortáveis com a posição tomada.

A fonte avalia que a decisão foi estritamente política, já que, em reunião anterior, o conselho de administração decidiu não acompanhar o aumento de capital da distribuidora matogrossense Cemat, cuja taxa de retorno é maior do que a da Celg. Na ocasião, o conselho entendeu que a Eletrobras não tinha dinheiro em caixa suficiente para realizar o negócio. “[A compra da Celg] é mais do mesmo. Ninguém se interessava pela empresa. Então a Eletrobras foi utilizada para engolir o abacaxi.”

A empresa da União já teria passado por um processo semelhante durante o governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), quando as distribuidoras do Norte e de Nordeste, no fim dos anos 1990, foram federalizadas.

A negociação com a Celg prevê a aquisição de 51% das ações da distribuidora pelo valor de R$ 59,5 milhões. A conclusão do negócio está condicionado à aprovação em assembleia de acionistas da Eletrobras, no fim de setembro, ao aval das autoridades competentes e a uma capitalização da Celg, pela holding CelgPar, controlada pelo governo goiano, de R$ 1,6 bilhão.

O valor de R$ 59,5 milhões foi extraído de um valor presente líquido da Celg de R$ 116,7 milhões. Esse último valor é a média dos dois laudos de avaliação feitos pela Deloitte (R$ 115,8 milhões) e a Fundação de Apoio à Pesquisa (Funape, R$ 117,7 milhões). A Deloitte foi contratada pela Eletrobras e a Funape prestou serviço à Celgpar.

A proposta da Eletrobras ressalta ainda que as avaliações feitas consideraram a premissa de que o período de concessão da distribuidora termina em julho de 2015. “Até a presenta data, não foi regulamentada a renovação da concessão prevista na lei 12.783/2013”, alerta a Eletrobras, no texto. Embora pouco provável, há o risco de a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) não renovar a concessão da Celg, devido à qualidade do serviço inadequada da companhia goiana.

O diretor de Regulação da CelgD e vice-presidente da CelgPar, Elie Chidiac, destaca que essa cisão demonstra que o processo não foi fácil. “Tudo isso comprova as dificuldades que tivemos para achar um parceiro, tanto dentro como fora do país.”

Antes que o acordo fosse fechado com a empresa da União, outras companhias, nacionais e internacionais, foram procuradas, mas nenhuma manifestou interesse pela Celg. Assim, Chidiac pontua que o fato de até a Eletrobras ter “rachado” quanto a essa decisão revela que a situação era ainda mais delicada com as privadas.

“Goiás foi vitorioso com a negociação. Isso não quer dizer que não tenha sido justo para ambas as partes, mas nós conseguimos resguardar 7 mil funcionários”, disse, destacando a possibilidade que, agora, a empresa tem de valorização no futuro.

“A população tem que entender que a CelgD está meio a meio agora”, pontua. De acordo com ele, a empresa terá três diretores indicados pelo governo goiano e três indicados pela Eletrobras, além do presidente, que poderá ser alternado entre os dois acionistas. Isso, no entanto, depende de uma negociação gerencial, que deve ocorrer posteriormente.

O diretor da CelgD frisa que a negociação não incluiu a Celg G&T, que permanecerá 100% em mãos goianas. “Inclusive, está previsto o investimento de R$ 5 bilhões em geração de energia e expansão”, destaca. “É importante que as pessoas saibam dessas questões.”

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