Não vai ser fácil sair da crise

Processo para o Brasil se livrar do atoleiro econômico em que foi atirado será lento

Imagem Ilustrativa

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Não há um único índice econômico positivo no Brasil atualmente. Nenhum, nada. Até a balança comercial, que tem apresentado saldo, não representa uma boa notícia. Aliás, ao contrário. Esse saldo favorável só tem sido registrado como consequência direta do aumento vertiginoso do dólar — ou queda do real — e colapso nas importações, inclusive dos insumos básicos. Além disso, esse saldo não se registra porque as exportações aumentaram. Na realidade, elas caíram, embora em menor escala que as importações. O Brasil perdeu mercado lá fora.

Esse é o tamanho da encrenca que o Brasil precisa resolver. Em tese, o primeiro passo seria devolver o governo para o curso natural e salutar da responsabilidade fiscal. Até porque foi exatamente a irresponsabilidade fiscal e administrativa, iniciada por volta de 2009, ainda no segundo mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e incrementada loucamente pelo governo Dilma 1, que detonou o processo de crise. Mas como fazer isso se a arrecadação não se mexe positivamente. Aliás, tem caído sistematicamente por causa da brutal recessão da economia. Seria necessário promover um corte tão dramático nos gastos do governo que se torna impraticável. O país não suportaria. Isso mostra que o estrago foi tão grande que o conserto terá que ser feito aos poucos.

Numa analogia, seria o mesmo que tentar recuperar um paciente terminal. Não adiantaria nada entupir as veias de remédio e adrenalina. O coração pifaria com tamanha carga. Então, a saída seria cuidar da oxigenação e lastrear cada órgão vital aos poucos para evitar possíveis colapsos. Ou seja, um esforço continuado e por bastante tempo.

O Brasil é hoje bem pior do que o tal paciente terminal da analogia. Não há uma só célula da economia funcionando bem. Nem os bancos, essas ilhas maravilhosas de lucro até nas crises, estão a salvo. Para este ano, os principais bancos se preparam para enfrentar inadimplência jamais vista em relação às empresas. É coisa pra consumir inteiramente as reservas normais, além dos lucros do ano passado. Os cidadãos já foram pro beleléu da inadimplência desde o ano passado. Os últimos dados oficiais mostram que 40% da população adulta do país tem contas atrasadas.

Sem mágica
Ou seja, isso significa que não existe solução mágica e tão instantânea quanto mentirosa de ampliar sem base financeira sólida a oferta de crédito fácil. Primeiro será necessário baixar o estoque das dívidas já existentes. Por consequência, o comércio varejista vai continuar vendendo não mais que o essencial, o que significa que as encomendas nas fábricas vão permanecer baixas. Tudo somado, retorna-se à arrecadação cada vez menor, e assim se endurece ainda mais a questão do alívio fiscal tão necessário para a economia apontar novamente em direção aos trilhos.

Um dos aspectos do Brasil que sempre foi cantado em prosas e versos é que se trata de uma economia robusta o suficiente para se livrar de crises. Em parte, isso é verdade. O primeiro ponto positivo quando se olha para esse conjunto é a base de consumo. O Brasil tem consumidores suficientes para alicerçar o fundamental. Tem também espaços suficientes para produção básica, de insumos primários. Apesar da vertiginosa queda nos preços das commodities que ocorreu há dois anos, esse fator garante uma margem razoável pelo menos internamente, e assegura renda suficiente para bancar algum nível de importação daquilo que não é produzido por aqui, seja remédios ou comida.

Mas não existe muito mais do que isso na tal robustez da economia brasileira. A indústria, por exemplo, que apesar dos pesares é a maior da América Latina e provavelmente a mais significativa dentre os países emergentes — China à parte, claro —, depende muito, e sempre, de modernização e atualização de seus equipamentos. E não tem como fazer algo assim com o dólar alto e, pior ainda, com o crédito extorsivo que se pratica aqui. Isso é uma carga de sofrimento para os empresários imensa, agravada ainda mais por uma das piores, mais complicadas e pesadas tributações do planeta.

De onde e por onde se olhar vai se ver um quadro muito ruim, e de solução tão complicada quanto demorada. O FMI e o Banco Mundial, que já erraram inúmeras vezes em suas previsões sobre a economia brasileira, apontam que se a base for corrigida imediatamente, inclusive com a superação da crise política, por volta de 2020 o Brasil voltará a crescer com densidade suficiente. No que se refere às agências internacionais de risco de investimento, é certo que a nota do país vai ficar como está, se não cair ainda mais. Quanto ao crescimento, é difícil responder se é melhor torcer para FMI e Banco Mundial errarem mais uma vez. Com muito otimismo, pode ser que em 2018 o Brasil ao menos sinalize que voltou à sanidade. Não vai ser fácil, mas não há outra saída. l

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