A mãe da adolescente Ana Clara Alves Silva, de 13 anos, Maira Alves da Silva, revelou, em entrevista ao Jornal Opção, que a filha não conheceu o suspeito de 19 anos por meio do aplicativo Discord, mas que ele teria sido apresentado à adolescente por intermédio de uma amiga da escola. Ela afirma que pretende levar as informações para serem acrescentadas ao inquérito policial, que ainda está em andamento. A mãe também rebateu as críticas que a família vem recebendo em relação aos cuidados com a adolescente.

“Estão dizendo que foi pelo aplicativo, mas não foi. Foi através dessa amiga. E essa menina não pode ficar impune, porque ela pode fazer isso com outras meninas”, afirmou Maira. Segundo a mãe, após ser localizada, a adolescente revelou que teria conhecido o jovem havia cerca de duas semanas.

“A própria amiga dela que estava no grupo, que falou tudo aquilo, que ela ia fugir para o Canadá, que ela tinha conhecido alguém que ela amava muito, do jeito que estava escrito na carta. […] Quando nós fomos conversar com a nossa filha, ela veio contar que tinha mais ou menos umas duas semanas que conheceu esse rapaz.”

A mãe também destacou que, durante o primeiro encontro com a filha após ela ser localizada, as duas conversaram sobre o motivo da decisão. Segundo Maira, a adolescente disse que não estava bem emocionalmente e que já estava envolvida emocionalmente com o jovem. “Eu falei: ‘Minha filha, por que você fez isso?’. Foi então o momento que ela falou: ‘Mãe, eu não estava bem, eu estava gostando dele e resolvi fugir com ele’.”

A defesa do suspeito, em nota encaminhada à reportagem, disse que o caso ainda está em fase inicial de investigação e que aguarda a realização da audiência de custódia, além de diligências e depoimentos. Segundo os advogados, até o momento, não haveria elementos que indiquem cárcere privado, violência ou que a adolescente tenha sido mantida contra a própria vontade. A defesa sustenta que relatos já colhidos apontam que ela teria deixado a residência voluntariamente por questões familiares e permanecido no local por vontade própria. Sobre as demais imputações, afirmou que não antecipará conclusões antes da análise completa das provas e ressaltou que apresentará suas teses após ter acesso integral aos autos. (Veja a nota completa no final do texto)

Em entrevista exclusiva ao Jornal Opção, Ana Clara confirmou que utilizava o Discord, mas negou que o primeiro contato entre os dois tenha acontecido pela plataforma. “Eu estava, sim, com o aplicativo. Só que eu não conheci ele pelo Discord. Eu conheci ele por causa de uma amiga minha. Ela falou que eu e ele tínhamos o mesmo gosto, tipo musical, estilo, essas coisas, e que a gente ia se dar super bem, seja em relacionamento ou em amizade.”

Ana Clara revelou ainda que já havia encontrado o suspeito no sábado, 5, um dia antes de desaparecer. Segundo ela, o encontro durou poucos minutos. A adolescente disse ainda que estava passando por um momento de confusão emocional e destacou que a decisão não teve relação com a forma como era tratada pelos pais.

“Eu acho que foi mais porque a minha cabeça estava muito confusa e eu só queria sumir mesmo. Não foi nem por causa dos meus pais, porque meus pais me tratam muito bem. Eu sou muito amada nessa família. Então, eles não têm culpa de nada.”

Carta

A adolescente contou ainda como escreveu a carta que deixou antes de desaparecer. Segundo Ana Clara, o texto foi produzido dentro da sala de aula, durante uma aula de matemática. “Eu estava na minha sala, na aula de matemática. […] Ele tinha passado a atividade e eu aproveitei. Ao invés de fazer a atividade, eu fiz a carta.”

Ao refletir sobre o episódio, a adolescente afirmou que deveria ter procurado pessoas próximas antes de tomar a decisão. “Eu acho que, para você fazer alguma coisa sem pensar, você tem que falar primeiro com as pessoas que realmente se importam com você. Não tem que fazer as coisas sem pensar.”

Situação emocional da adolescente

Maira Alves reconheceu que a família não havia percebido a dimensão do que a filha estava enfrentando emocionalmente. “Eu conversava sempre com ela, só que por telefone. […] Eu não tinha essa noção de que ela estava com a cabeça tão mal, que realmente ela não estava bem.”

Agora, a mãe destaca que a família buscará acompanhamento profissional para a adolescente e pretende aumentar a proximidade após o episódio. “Eu me sinto muito mal por não estar perto dela. […] Agora a gente vai cuidar, vai fazer o possível para que mude tudo.”

A mãe também afirma que a família e a adolescente entraram em consenso pela retirada temporária do celular, além da inclusão de atividades físicas na rotina da jovem. “Ela já concordou. A gente concordou que, no momento, ela não pode ter celular. […] Vamos procurar coisas para ela ocupar a mente. A gente vai fazer de tudo por ela.”

Influência

Maira Alves relatou ainda dúvidas sobre as circunstâncias dos três dias em que a filha permaneceu com o jovem. Segundo ela, a adolescente teria contado que o rapaz a orientou sobre como evitar câmeras durante a saída. “Ela falou que ele influenciou ela a olhar todas as câmeras, como é que saía, tudinho, para que ninguém visse. Ele esperou ela lá em cima.”

A mãe também afirmou que a filha teria permanecido inicialmente em uma residência e, posteriormente, sido levada para outro imóvel, onde acabou localizada pela polícia. “Ela estava em uma casa aqui no bairro, no Recanto do Sol. Depois ele pegou e levou ela para esse barracão, que foi onde, graças a Deus, a polícia achou.”

Maira levantou ainda a suspeita de que a filha possa ter ingerido outras substâncias durante o período em que esteve desaparecida. A afirmação, porém, corresponde à percepção da mãe e depende de eventual confirmação pelas autoridades ou por exames.

“Ela disse que bebeu vodka. Só que eu acho que não foi só vodka, porque quando ela chegou […] estava muito com a boca seca, mordendo a boca, a boca dela estava toda machucada.”

Família rebate críticas recebidas

Questionada sobre o aprendizado após o episódio, Ana Clara Alves destacou a importância da atenção, do afeto e do diálogo entre pais e filhos. “Eu quero que essas pessoas que vão ler a matéria cuidem das filhas e dos filhos, deem mais atenção. Não só brinquedos, dinheiro, essas coisas, porque nem sempre o dinheiro traz felicidade. […] O que mais traz felicidade é amor, carinho e cuidado.”

Maira também fez um alerta semelhante. Para ela, o episódio mostrou que os pais precisam observar não apenas o uso do celular, mas também as amizades e eventuais mudanças no estado emocional dos filhos.

“Eu só falo para cuidar dos filhos, olhar o celular, ver se eles estão com a saúde mental boa, porque, às vezes, as coisas acontecem do nosso lado e a gente não vê.”

A mãe se emocionou ao comentar as críticas direcionadas à família desde o desaparecimento. Ela afirmou que o principal objetivo agora é cuidar da filha e compreender o que ocorreu. “Me doeu muito ficar vendo esses comentários. […] O importante é que minha filha está aqui. O comentário deles não vai mudar nada.”

Maira reforçou o pedido para que outros responsáveis acompanhem de perto a rotina digital, as amizades e o comportamento dos filhos. “Eu só falo para os pais: tomem cuidado com seus filhos. Aqui, a Ana Clara não saía para lugar nenhum e aconteceu. Vigiar o celular, ver as amizades. […] Ter cuidado até com as amizades.”

A mãe também pediu que as pessoas evitem julgamentos precipitados contra famílias que passam por situações semelhantes. “O que a gente tem que fazer é tratar, não julgar as pessoas. Ninguém sabe o que passa na nossa família, o que passa dentro da nossa casa, para julgar.”

Para ela, o episódio também mudou a forma como a própria família pretende acompanhar Ana Clara daqui para frente. “Eu achava que nunca na vida isso ia acontecer comigo. […] Agora é tentar resolver e consertar as coisas.”

NOTA DA DEFESA DO SUSPEITO

NOTA À IMPRENSA

Na qualidade de defesa técnica do investigado, esclareço que o caso ainda se encontra em fase inicial, inclusive aguardando a realização da audiência de custódia, havendo diligências, depoimentos e diversos elementos que ainda deverão ser devidamente apurados no curso da investigação.

Por essa razão, a defesa adotará, neste momento, uma postura de cautela e respeito ao devido processo legal, reservando-se o direito de apresentar suas manifestações e teses defensivas no momento processual adequado, após ter acesso integral aos elementos constantes dos autos.

Contudo, diante das informações que vêm sendo divulgadas, é necessário esclarecer um ponto: até o presente momento, não há elementos que indiquem a existência de cárcere privado, violência ou que a adolescente tenha sido mantida contra a sua vontade.

Ao contrário, os próprios relatos já colhidos indicam que a adolescente teria saído de sua residência voluntariamente, em razão de questões de natureza familiar, permanecendo no local por sua própria vontade, circunstâncias que serão devidamente demonstradas e esclarecidas no decorrer da investigação.

Quanto às demais imputações, especialmente por envolverem menores de idade e fatos que ainda estão sob apuração, a defesa considera irresponsável antecipar conclusões ou promover julgamento público antes da análise completa das provas.

A defesa confia no trabalho das autoridades e no Poder Judiciário e reitera que investigação não é condenação. Todos os fatos serão esclarecidos no processo, no momento e no foro adequados.

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