“Não anula a Covid-19 e não controla a doença em todos os pacientes”, diz infectologista sobre dexametasona

Após divulgação de estudo da Universidade de Oxford, sobre benefícios do medicamento corticoide no combate ao SARS-COV-2, especialista Marina Pedrosa ressalta que remédio não seria capaz de evitar colapso na saúde

Após divulgação do estudo Recovery, realizado pela Universidade de Oxford, especialistas têm discutido a relevância dos apontamentos sobre a eficácia do uso de dexametasona na redução dos riscos de morte em pacientes com Covid-19. O Jornal Opção tem repercutido o tema com diversos profissionais infectologistas para informar corretamente a população sobre os benefícios e riscos desse tratamento que poderia ser promissor no combate à pandemia.

De acordo com a médica infectologista Marina Pedrosa, a dexametasona não é uma novidade para os profissionais que têm atuado no enfrentamento da doença no Brasil. “Já estávamos usando ele nos casos de Covid-19 e agora a gente só tem a confirmação de que ele é benéfico”, contou.

“Além dele, outros corticoides já são usados por nós. Ainda não tivemos acesso ao estudo na íntegra para saber o porquê de definirem a dexametasona e não outros corticoides”, indagou a profissional. “O que a gente sabe é que temos um equivalente, usamos outros corticoides tendo o mesmo resultado”, apontou Marina.

 

Contraindicações

Ela ressaltou que o medicamento, embora tenha obtido resultados positivos, não deve ser usado amplamente pela população aflita em se contaminar com o novo coronavírus ou qualquer paciente infectado ele. “Esse estudo mostra que ele é benéfico apenas quando usado nas indicações corretas, para pacientes internados e pacientes que necessitam de suporte de oxigênio. Para pacientes com poucos sintomas, ambulatoriais, não demonstrou benefícios”, destacou a infectologista.

Ela lembra que, caso utilizado em pessoas sem as devidas recomendações, pode causar enfraquecimento do sistema imunológico, além de distúrbios hormonais. “Então não deve ser utilizado sem acompanhamento médico”, pontuou.

Não é a salvação

Para a especialista, a dexametasona não é nenhuma receita milagrosa que irá evitar colapso na saúde, caso as pessoas não realizem o isolamento social. “O remédio reduz o tempo de internação, pelo que o estudo apontou até o momento. Dependendo da quantidade de casos que tivermos, nem mesmo ele daria conta de controlar a demanda. Não conseguiria fazer com que conseguíssemos tirar todo mundo da UTI a tempo”, explica.

Em todo Brasil, o Pará tem sido um dos estados que mais utilizam corticoides no tratamento de pacientes acometidos pelo SARS-COV-2, inclusive na fase 2, a pulmonar, como profilaxia. Para a médica, esse método não é o que a pesquisa de Oxford indica. “O estudo mostra claramente que o remédio não deve ser usado com profilaxia e nem como tratamento ambulatorial”, salienta.

“Além dos resultados do Pará não terem sido publicados, tem várias controvérsias, vários vieses que levam aos resultados”, analisou. Além do Pará, muitos argumentos usam a Índia como modelo no uso da hidroxicloroquina para o tratamento da doença. “Tudo que lemos até o momento [sobre hidroxicloroquina] e todas as experiências bem documentadas e estudos bem conduzidos apontam que não [reduz riscos de morte]”, destacou.

“Esses dados são publicados, mas a gente não tem acesso a eles na íntegra. Não é possível avaliar somente com o que é publicado por eles. É necessário publicações científicas completas, com todo respaldo para termos uma ideia. Até o momento, os estudos sérios que foram feitos, não mostraram que a hidroxicloroquina tem esse efeito”, informou Marina.

A infectologista ainda pontuou que o sucesso da dexametasona não se aplica a todos os pacientes testados com o medicamento. “O corticoide causa diminuição no risco de morte e período de internação, mas ele não anula a doença e não controla a doença em todos os pacientes”, ponderou.

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