A Fundação Frei Simão avança com o projeto de criação do Museu da Música, na Cidade de Goiás. A instituição existe na cidade histórica há 50 anos, e tomou a iniciativa de preservar, estudar e difundir a produção musical. O museu, em fase de estruturação, nasce de um amplo esforço de salvaguarda de acervos particulares e institucionais, que cobrem mais de dois séculos de história musical goiana.

Entre os mais recentes trabalhos está a higienização e digitalização do acervo do maestro João Leite da Silva, nascido em 1865, na antiga cidade de Traíras (GO), e falecido em 1965, aos 100 anos, em Jaraguá (GO). O conjunto documental, composto por partituras, livretos musicais, jornais e manuscritos foi confiado à Fundação por Márcia de Freitas Queiroz, filha de João de Freitas Queiroz — conhecido em Jaraguá como “seu Epaminondas” —, que preservou o acervo por quase sete décadas.

Leonardo Lacerda e Márcia de Freitas | Foto: Arquivo Pessoal

O presidente da Fundação Frei Simão, Leonardo Lacerda, explicou ao Jornal Opção que a ideia do museu partiu dele, porém todo o trabalho de busca das partituras e manuscritos tem sido feito de forma coletiva. São grandes nomes da música em Goiás: Ana Guiomar Rego Souza, Consuelo Quireze, Fernando Cupertino, Eulinho Amorim e Marshal Gaioso Pinto, entre outros.

“Eu gosto muito de música e ouvi sobre partituras que se perdiam em Goiás. Daí pensei ‘preciso fazer alguma coisa’. Porque às vezes tem um pesquisador que está trabalhando sobre um acervo e é normal que ninguém tenha acesso, enquanto não saia a tese de doutorado – mas, se não for digitalizado pode-se perder”, contextualiza.

“O Museu da Música vai ser uma ferramenta importantíssima para que nós nos conscientizemos de tanto que é rico o nosso passado musical. Quando a gente vê, por exemplo, o sucesso que a Orquestra Filarmônica de Goiás tem hoje, quando a gente vê toda a riqueza musical no estado”, afirma ao Jornal Opção, o professor do Instituto Federal de Goiás (IFG), Marshal Gaioso.

Concerto sob regência do maestro Marshal Gaioso | Foto: Divulgação

Quanto mais os pesquisadores de música tiverem acesso a acervos conservados, melhor será para a sociedade como um todo, explica Marshal Gaioso. “Porque uma vez que você identifica essas partituras, você trata os manuscritos, você identifica, classifica essas partituras, você começa a fazer esse cruzamento de dados e começa a recuperar a música. Esse processo é fantástico”, completa o professor do IFG.

Sonho não muito distante

O Museu da Música em Goiás já reúne importantes doações, como as de Elder Camargo de Passos, Maria Dulce Loyola Teixeira, Maria Augusta Calado, Fernando Cupertino, Antônio César Caldas Pinheiro, Bento Fleury e da antropóloga Mari de Nasaré Baiocchi, cujo acervo inclui registros de canções quilombolas e indígenas.

A Fundação planeja, ainda, editar nos próximos anos três Cancioneiros de Povos Tradicionais — dedicados aos repertórios Auwẽ Uptabi (Xavante), Panará (Cayapó do Sul) e Iny (Karajá) — reafirmando seu compromisso com a diversidade cultural e a memória viva de Goiás.

Peça “Bola Vermelha” de João Ribeiro da Silva | Foto: Arquivo

O sonho de todos os envolvidos no projeto de estruturação do museu é que em 2027, quando a Cidade de Goiás completar 300 anos a população possa visitá-lo. “Toda a parte mais material, que pode ser exposta para o grande público. Para mostrar essa variedade incrível musical que a gente tem, modinhas, músicas de banca, músicas sacras e mais populares do século 18, 19”, detalha o presidente da Fundação Frei Simão.

Ainda de acordo com Leonardo Lacerda, a ideia é que o museu possa ser visitado por pessoas de todo o mundo. “Onde quer que uma pessoa esteja, poder ter acesso a essas obras, conhecer o acervo, mesmo que seja material. Então, a gente refez o nosso website e agora estamos incluindo todas essas informações”, complementa.  

“Trata-se de um acervo de valor inestimável, com obras que remontam ao início do século XIX e dialogam com outras coleções fundamentais para a compreensão da história da música em Goiás, como a do maestro Balthazar Ribeiro de Freitas, sob a guarda da EMAC-UFG”, explica Yuri Baiocchi, curador da Fundação e responsável pela identificação e intermediação do material.

Acervo do maestro João Leite da Silva

A Fundação Frei Simão firmou contrato com a professora Márcia de Freitas Queiroz em agosto deste ano, estabelecendo os encargos de higienização, restauro, digitalização, acondicionamento e guarda do acervo, que será disponibilizado no novo site da instituição.

Márcia de Freitas Queiroz, filha de João Leite da Silva | Foto: Arquivo Pessoal

O projeto integra uma parceria entre a Fundação Frei Simão e a Sicoob, que contempla a digitalização integral da documentação do século XVIII, a digitalização das partituras do Museu da Música e o desenvolvimento de um piloto de inteligência artificial para leitura paleográfica — tecnologia que permitirá decifrar automaticamente manuscritos coloniais e partituras antigas, ampliando o acesso a pesquisadores, músicos e historiadores.

Histórico  

A Fundação Frei Simão é pioneira em Goiás na digitalização de jornais históricos. No final da década de 1980, sob a liderança de Elder Camargo de Passos, Antolinda Baía Borges e Marlene Gomes Vellasco foram firmados contratos de cooperação com a Fundação Biblioteca Nacional resultando na digitalização integral desse acervo de periódicos goianos. Hoje ele está disponível para consulta pública na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional –servindo como fonte de pesquisa para estudiosos de todo o país.

A Fundação mantém a maior hemeroteca histórica do Estado de Goiás, incluindo a única coleção original completa do jornal Matutina Meiapontense — o primeiro periódico do Brasil Central, publicado entre 1830 e 1834 —, bem como coleções integrais dos jornais O Democrata (de orientação caiadista), A Voz do Povo (de oposição) e Goyaz, de perfil abolicionista.

O acervo abriga ainda as três primeiras prensas tipográficas a entrarem em Goiás, peças fundamentais da história gráfica e cultural do Centro-Oeste.

Confira alguns dos arquivos do Museu da Música :

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