Mulheres cooperativistas superam obstáculos e ocupam cargos estratégicos
14 agosto 2026 às 20h00

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A participação feminina nos espaços de decisão do cooperativismo goiano avançou nos últimos anos. Atualmente, 768 mulheres ocupam cargos de gestão em cooperativas de Goiás, número mais de três vezes superior ao registrado há uma década. Em 2016, eram 205. O crescimento no período chega a 274%.
A presença também aumentou no comando das organizações. Hoje, 60 cooperativas goianas são presididas por mulheres, enquanto outras 145 têm mulheres na vice-presidência. Entre 2022 e 2026, o número de presidentes mulheres passou de 25 para 60, uma alta de 140%.
O avanço ocorre em meio a iniciativas para ampliar a representatividade feminina no setor. Neste ano, Goiás passou a celebrar, em 15 de agosto, o Dia da Mulher Cooperativista. A data foi instituída pela Lei nº 24.451, de autoria do deputado estadual Eduardo Prado.
Apesar dos números crescentes, o presidente do Sistema OCB/GO, Luís Alberto Pereira, avalia que a participação feminina nos cargos de gestão ainda está distante do cenário considerado ideal.
“Reconhecemos que a participação feminina nos cargos de gestão está longe do ideal. A criação do nosso Comitê de Mulheres e a recente aprovação da Lei da Mulher Cooperativista, além da presença majoritária de mulheres no Conselho de Administração do SESCOOP/GO, são iniciativas positivas. Mas precisamos avançar mais, estimulando também nossas cooperativas a seguirem este caminho”, afirma.
Do Direito para a produção rural
Entre as mulheres que encontraram no cooperativismo uma oportunidade de transformação profissional está Marcilene Mariano, atual diretora social da Cooperativa Mista de Agricultura Familiar de Novo Gama (Coopgam).
Criada na zona rural, ela cresceu em contato com o campo e aprendeu com a avó uma de suas primeiras receitas: a cocada. Mais tarde, mudou-se para a cidade, formou-se em Direito e exerceu a profissão durante 16 anos.
A trajetória começou a mudar depois de duas gestações de risco. Marcilene decidiu abandonar a carreira jurídica e retornar às origens.
“Eu reuni minha família, meus pais, e comuniquei minha decisão. Troquei o terno pela terra e fui em busca das minhas raízes. Fui viver e trabalhar em uma terra nua, sem água, sem luz, sem nenhuma infraestrutura, levando comigo somente um sonho: prosperar no campo”, conta.
A produtora começou com um pomar e investiu na fabricação de doces cristalizados, geleias e compotas por meio da empresa Pé di Gostosura. Mas era o cultivo da mandioca que despertava seu maior interesse.
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A entrada na Coopgam ajudou a profissionalizar a atividade.
“Minha vida se transformou. Eu me apaixonei pelo cooperativismo ao mesmo tempo em que tive apoio e assistência técnica para implementar minha primeira lavoura de mandioca”, relata.
Depois de cursos e especializações em mandiocultura, Marcilene passou a desenvolver produtos derivados da raiz, entre eles sorvete, palha italiana e a “mandiococada”, doce que combina mandioca e coco. O trabalho lhe rendeu premiações e abriu espaço para que também assumisse funções de liderança dentro da cooperativa.
“Para mim, ocupar esses espaços não significa apenas aumentar o número de mulheres, mas garantir que elas tenham voz, participação efetiva e igualdade de oportunidades. Quanto mais diversas forem as pessoas envolvidas nas decisões, mais representativo e forte será o cooperativismo”, defende.
Desafio de recuperar uma cooperativa
Para Ana Cristina Alves, presidente da Cooperativa de Ensino de Quirinópolis (CEQ), a chegada ao cooperativismo ocorreu acompanhada de outro desafio: ajudar a recuperar uma instituição que enfrentava dificuldades financeiras e tinha poucos alunos.
Com uma década de experiência em gestão pública, ela assumiu a missão mesmo ainda conhecendo pouco sobre o modelo cooperativista. Atualmente, a CEQ atende estudantes da Educação Infantil ao Ensino Médio.
“Acredito que a educação e o cooperativismo são uma construção coletiva. Foi uma trajetória de muito aprendizado. Aprendi que uma liderança cooperativista precisa ter visão, responsabilidade, coragem para tomar decisões difíceis e, principalmente, capacidade de ouvir e trabalhar junto com as pessoas”, afirma.
Segundo Ana Cristina, características desenvolvidas pelas mulheres ao longo de suas trajetórias também podem contribuir para a gestão das organizações.
“As mulheres trazem experiências, percepções e formas diferentes de analisar problemas e buscar soluções. Muitas vezes, desenvolvemos uma capacidade muito grande de conciliar diferentes demandas, ouvir as pessoas e perceber necessidades que poderiam passar despercebidas.”
Retorno às origens
A presidente da Coopgam, Elvira Maciel, também deixou uma trajetória profissional consolidada para retornar ao campo. Depois de trabalhar por mais de 20 anos em uma multinacional, decidiu voltar ao ambiente onde cresceu.
“Cheguei na Coopgam vendo a oportunidade de crescer com meus próprios recursos e ampliar meu retorno. Depois que entrei, aprendi que cooperar é crescer junto. Aqui eu evoluí como profissional e como pessoa”, afirma.
Para Elvira, ampliar a participação feminina nas estruturas de decisão pode trazer diferentes perspectivas para a administração das cooperativas.
“Mulheres gestoras trazem cuidado, escuta, organização e visão de longo prazo. A gente une gestão com sensibilidade. Isso fortalece o coletivo e aproxima a cooperativa das famílias e da comunidade”, diz.

Liderança conciliada com a maternidade
O desafio não está apenas em chegar aos cargos de liderança, mas também em permanecer neles. Silvânia Laureano, fundadora e presidente da Cooperativa de Reciclagem Cooperxixá, de Itapuranga, precisou conciliar a administração da organização com a maternidade e a vida pessoal.
“Nem sempre foi fácil. Houve momentos de cansaço, dúvidas e dificuldades, mas também muitos momentos de orgulho. Aprendi que ser mulher e mãe não diminui nossa capacidade de liderar. Pelo contrário, nos ensina diariamente a ter coragem, resiliência e responsabilidade”, relata.
Segundo Silvânia, a experiência também provocou mudanças em sua própria trajetória.
“Hoje, olhando para essa trajetória, percebo que a cooperativa também me transformou. Eu ajudei a construir a Cooperxixá, mas a cooperativa também ajudou a construir a mulher e a líder que sou hoje”, afirma.
Participação chega a 73% em um dos ramos
Os dados mostram que a participação feminina varia entre os diferentes segmentos do cooperativismo. O ramo de trabalho, produção de bens e serviços é aquele com maior presença de mulheres na liderança em Goiás: elas representam 73% dos dirigentes.
Mesmo com o avanço registrado nos últimos anos, as cooperativistas avaliam que ainda existem espaços a serem conquistados.
“Precisamos de mais mulheres em cargos de liderança, nas decisões e como exemplos. Quanto mais mulheres à frente, mais forte fica o cooperativismo”, afirma Elvira.
Silvânia também defende que a ampliação dessa presença não deve ser entendida como uma disputa entre homens e mulheres, mas como forma de aproveitar diferentes capacidades dentro das organizações.
“Eu acredito que o futuro do cooperativismo precisa ser cada vez mais feminino, não porque as mulheres devam ocupar o lugar dos homens, mas porque nenhuma sociedade consegue evoluir deixando metade da sua capacidade de liderança de fora.”
Para Ana Cristina, a presença de mulheres em posições estratégicas também exerce um efeito sobre as novas gerações, ao mostrar que esses espaços podem ser ocupados por elas.
“Quando uma mulher ocupa uma posição de liderança, ela demonstra para outras mulheres e para as novas gerações que aquele espaço também pertence a elas. Eu acredito muito na força do exemplo”, conclui.


