“Muita gente nega que haja uma cultura do estupro no Brasil por burrice”

Deputado federal pelo PSOL do Rio de Janeiro, o baiano Jean Wyllys esteve em Goiânia na quinta (16/6) e sexta-feira (17) para participar de discussão com estudantes

Deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) esteve em Goiânia para participar do 10º Encontro Internacional Hannah Arendt | Foto: PSOL

Deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) esteve em Goiânia para participar do 10º Encontro Internacional Hannah Arendt | Foto: Airton Rodrigues

Em meio às denúncias de casos de estupro no Rio de Janeiro, Piauí e na capital goiana, na semana seguinte ao atentato na boate Pulse, em Orlando, que matou 49 pessoas e deixou 53 feridos, o deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ), militante LGBT na Câmara dos Deputados, veio a Goiânia, onde participou na noite de quinta-feira (16/6) do painel “A Democracia no Brasil” ao lado do professor da Unifesp Edson Teles.

Jean Wyllys também respondeu perguntas enviadas pela internet em outro evento na manhã desta sexta-feira (17) em Goiânia. O parlamentar natural de Alagoinhas (BA) se considera um deputado nacional, já que foi eleito pelo Rio ao Congresso e não pelo seu Estado de origem.

Aos 40 anos, o deputado federal é formado em Jornalismo, mestre na área de Estudos Culturais em Letras e Linguística e professor do mestrado em HIV/Aids e hepatites virais da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio). Ele explicou que optou por trancar o doutorado que fazia para conseguir exercer o mandato como parlamentar.

Durante o painel do 10º Encontro Internacional Hannah Arendt e 6º Colóquio Pensamento Político Contemporâneo, coordenado pelo professor Adriano Correia, da Faculdade de Filosofia da Universidade Federal de Goiás (Fafil/UFG), no auditório da Faculdade de Educação da instituição, na Praça Universitária, Jean Wyllys declarou apoio às estudantes que ocuparam a o prédio da reitoria da UFG para cobrar uma posição do reitor Orlando Amaral sobre as denúncias de caso de estupro e a insegurança nas dependêncais do Câmpus Samambaia.

Aos gritos de “Se cuida, se cuida, se cuida, seu machista/A universidade vai ser toda feminista” e “reitoria omissa”, mulheres estudantes da UFG protestaram no início do evento, antes da fala do professor convidado da Unifesp, Edson Teles. Elas foram aplaudidas pelo deputado e pela plateia presente no auditório.

Defensor das pautas apresentadas pelas minorias, entre elas a comunidade LGBT, de mulheres, negros, índios, prostitutas e movimentos sociais, Jean Wyllys disse que só aceitou participar daquele evento porque só havia três pessoas na mesa, os três homens. Que se a quantidade de homens fosse quatro e não houvesse ao menos uma mulher entre os integrantes da mesa ele se negaria a integrar a programação do encontro.

Ainda em um dos corredores da Faculdade de Direito da UFG, sentado no sofá, antes de começar a entrevista coletiva, que foi acompanhada por muitos curiosos e estudantes daquele prédio, Jean Wyllys pediu aos repórteres que fosse feito um acordo: “vocês sabem que eu sou veado, militante da comunidade LGBT, então espero que haja liberdade e verdade nessa entrevista para que não se invente o que foi dito como tem acontecido em alguns jornais”.

Em 41 minutos, o deputado do PSOL falou sobre vários temas, entre eles o atentado em Orlando, os problemas com o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ), inclusive com denúncias no Supremo Tribunal Federal (STF), declarações de Marco Feliciano (PSC-SP) sobre a comunidade LGBT, a cultura do estupro, a situação dos movimentos sociais no Brasil e a posição da mulher em uma sociedade de cultura predominantemente machista.

Ao afirmar ter ficado bastante emocionado com as mortes no atentado em Orlando, Jean Wyllys disse que passou a madrugada do dia 12 de junho entre o choro e a tentativa de apagar uma série de comentários em suas redes sociais que o insultavam pela sua orientação sexual e que comemoravam os crimes na boate de público LGBT ocorrido no último domingo.

E ironizou o fato de alguns ainda negarem que exista ódio a gays, lésbicas, transexuais e travestis: “Homofobia é uma invenção nossa, dos ativistas. As pessoas não morrem porque são travestis nem gays ou lésbicas. Estupros corretivos são uma miragem. Cultura do estupro é uma invenção de feministas. Não existe. Esse é o discurso que a gente está vendo ultimamente”.

Leia abaixo a parte da entrevista em que ele fala sobre a comunidade LGBT, cultura do estupro e o atentado em Orlando:

Entrevista | Jean Wyllys

O deputado do PSC do Rio, Jair Messias Bolsonaro, é tido, principalmente nas redes sociais, como a figura que representa a extrema direita na Câmara e o senhor o extremismo da pauta da esquerda. Como o senhor recebe essas críticas de ser uma espécie de ultrarradical de esquerda?

Essas críticas são mínimas e é uma crítica feita pelo séquito de pessoas que gosta dele. Essa narrativa de que sou o antípoda dele, a oposição dele, serve a ele, não a mim. Busque nas minhas entrevistas e páginas quantas vezes eu fiz citação desse tipo, em nenhuma. Eu não me importo com a vida dele. Ele para mim só afeta a minha vida quando afeta a coletividade da qual eu faço parte. Ele afeta a minha vida quando ele me insulta diretamente. Fora disso, ele não me interessa em nada.

Afetou o senhor quando ele citou o coronel Brilhante Ustra na votação do impeachment?

Ele me afetou por seis anos quando ele me difamou e ele me difama nas redes sociais. E há uma queixa crime contra ele no Supremo Tribunal Federal por causa disso. Como há uma queixa crime da deputada federal Maria do Rosário (PT-RS) contra ele. Isso talvez as pessoas não saibam. Eu respondo a ele com a Justiça. Ele comanda um esquema de difamação contra mim nas redes sociais. Isso é fato. A ele interessa esse contraponto comigo, ele quer me construir como a oposição dele. Eu não desço ao nível dele.

Qual a avaliação que o senhor fez do elogio feito por ele ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra?

Isso está em absoluto acordo com o que esse homem é. Antes de ele fazer esse elogio a Brilhante Ustra, ele disse que Fernando Henrique Cardoso (PSDB) deveria ter sido metralhado, que o erro da ditadura foi não ter matado mais do que matou. Quando a Anistia Internacional e a Comissão de Filhos e Netos dos Desaparecidos na Ditadura Militar conquistaram o direito da busca dos seus corpos, ele pregou na porta do gabinete dele um cartaz que dizia que quem gostava de osso era cachorro.

Ou seja, os restos mortais que as pessoas tanto esperam para aplacar uma angústia de anos para saber se a pessoa está morta ou não foi tratado com deboche. Esse cara subiu na tribuna e disse que não estuprava uma mulher porque ela não era bonita o suficiente, porque ela era feia. Citar o Brilhante Ustra está dentro desse conjunto de coisas que sempre foi aceito.

Por que agora ele está sendo contestado e botou a viola dele no saco, enfiou o rabo entre as pernas e tem falado muito pouco? Ele tem usado só o exército de pré-adolescentes dele para fazer difamação nas páginas alheias. Ele sabe que mexeu em um terreno perigoso, a comunidade internacional ficou chocada com aquilo. A Globo transmitiu a votação do impeachment ao vivo para todo o Brasil e para o mundo.

Então as pessoas viram um parlamentar elogiar um torturador. A tortura é um crime de lesa-humanidade condenado internacionalmente. Isso provocou a comunidade internacional. Ele agora sabe que fez isso, no espaço de uma semana o Ministério Público recebeu 37 provocações contra ele por causa dessa declaração e agora ele deu uma segurada na onda.

Mas antes ele era aceito e as pessoas riam porque ele falava de veado, porque ele pregava violência contra homossexuais. E da mesma maneira que nenhum parlamentar subiu à tribuna para prestar solidariedade às 49 vítimas fatais do atentado em Orlando. Isso não pode passar em branco.

Isso está de acordo com o que acontecia antes. Cada vez que havia ofensa à comunidade LGBT ou me insultava na frente de todo mundo sem que ninguém reagisse, também aceitaram como natural. Ou elas preferem dizer que foi terrorismo, como a nota do ministro José Serra foi.

Não foi terrorismo?

Sim. Mas ser terrorismo exclui ser homofobia? Será que as pessoas são incapazes, será que elas não tem mais de dois neurônios para entender que um ato terrorista pode ser movido também por homofobia, ou por homolesbotransfobia? As coisas são excludentes? Se fossem excludentes, o Estado Islâmico não degolaria homossexuais e botaria na internet como faz?

Como esse atentado pode alertar a Câmara a criar política de proteção à comunidade LGBT em um parlamento que tem pessoas contrárias às minorias como Marco Feliciano (PSC-SP), Eduardo Bolsonaro (PSC-SP), Jair Bolsonaro?

Quero completar a pergunta com a declaração do deputado Marcos Feliciano de que a comunidade LGBT tem tentado se promover em cima do atentado em Orlando.

Eu me pergunto porque acontece um atentado, um assassinato em massa, em que as vítimas são gays e o jornal resolve ouvir Marco Feliciano. Sinceramente eu me pergunto. Marcos Feliciano seria a última pessoa do mundo a opinar sobre essa questão. Mas no entanto os jornais ouviram para ele dar essa declaração e ela virou manchete, capa do site do Estadão. Há um alinhamento do pensamento do jornal com Marco Feliciano.

Achar que a comunidade LGBT, ao reagir a um assassinato em massa que matou 49 pessoas e deixou 50 feridas, é promoção é de uma estupidez atroz. Ou é negar a nós os nossos direitos políticos, o direito de associação, de tocar a nossa agenda ou sequer o direito de prestar solidariedade internacional. Porque no dia que aconteceu esse atentado eu passei a madrugada chorando e ao mesmo tempo que eu chorava, a gente estava limpando as nossas redes sociais do ataque que aconteceu na mesma noite.

Ataques promovidos por esses fascistas da internet, que não queria sequer que a gente chorasse os nossos mortos. Mas esse talvez seja um pensamento muito mais comum do que a gente imagine. Talvez por isso os jornais deem tanta importância para ele, porque deve ter um jornalista que concorda com ele, que acha que nós homossexuais devemos morrer, a gente deve ver as mortes acontecer e devemos nos calar. Silenciar e não falar no assunto porque homofobia não existe.

Imagina! Homofobia é uma invenção nossa, dos ativistas. As pessoas não morrem porque são travestis nem gays ou lésbicas. Estupros corretivos são uma miragem. Cultura do estupro é uma invenção de feministas. Não existe. Esse é o discurso que a gente está vendo ultimamente. Esse é o discurso que a gente tem visto nas redes sociais, inclusive sendo refletidos nos jornais. Marco Feliciano não sabe nada de direitos humanos, não tem nenhuma identificação com direitos humanos, Marco Feliciano sabe ganhar dinheiro explorando a fé das pessoas. Isso ele faz muito bem. Faz isso na igreja e faz isso na Câmara dos Deputados.

Por que você considera que até hoje a nossa sociedade ainda trata a cultura do estupro como uma falácia e acha que a vítima do estupro tem que ser culpada pelo crime que ela sofreu?

Preconceitos não dão em árvore, não são carambola, que ela arranca. Preconceitos não são um dado da natureza, são um dado da cultura. Preconceitos são falsas certezas que a gente introjeta desde muito cedo nas nossas vidas. Os preconceitos na língua, essa entidade que nos antecede, e na qual a gente é educado e se transforma em sujeito.

O preconceito está em todas as pessoas. Algumas pessoas, no processo de educação formal e por meio de outros instrumentos de educação, conseguem se libertar de muitos preconceitos, se tornarem pessoas mais empáticas, solidárias. Mas outras não. Não conseguem.

Os preconceitos em relação às mulheres são preconceitos atávicos, porque têm a ver com um dado da percepção: o mundo tem mulheres e homens. Isso é um dado da percepção. Essa sociedade fez corresponder ao sexo feminino um conjunto de comportamentos e uma composição que é de subalterna e que foi internalizada.

Então é natural que a mulher case e tenha filhos e fique em casa e seja sustentada pelo marido. Estou falando na concepção do preconceito. É natural que o homem ocupe o trabalho, o mundo da política e o mundo da guerra. É natural na concepção dessas pessoas.

A cultura do estupro faz parte dessa concepção sexista de definir o que é do homem e da mulher. E a cultura do estupro não só coloca a mulher em um lugar subalterno ou são naturalmente subalternas, mas diz que os corpos das mulheres devem estar à disposição dos homens. Essa é a cultura do estupro.

Muita gente negou que haja uma cultura do estupro por burrice. A palavra cultura tem um sentido que vai além do senso comum de achar que cultura é composta de artes e espetáculos. Muita gente dizia assim “não existe cultura do estupro porque cultura é uma coisa boa”. E a vontade que eu tinha de dizer era “olha, imbecil, existe uma coisa que chama antropologia, que redefiniu a noção de cultura”. Cultura é modo de vida.

Quando há um discurso e aparatos que fazem da mulher subalterna e que socializa os homens para que eles disponham dos corpos das mulheres, aí sim há uma cultura do estupro. Porque uma mulher não sai sozinha na madrugada como os homens saem. E porque elas sabe que só por ser mulher ela é uma potencial vítima da violência.

E por fim, ela será culpada por estar na rua. A mulher tem os seus direitos afetados por isso, porque ela não pode estar na rua sozinha. Quando uma mulher vai sair sozinha, a primeira pergunta que você faz quando ela está se arrumando é “você vai onde?” e ela diz “eu vou a um bar”, “sozinha?”. Ninguém pergunta para um homem se ele vai ao bar sozinho.

A mulher é completa em um espaço público se ela estiver com um homem ao lado. O estupro em si é a consecução dessa cultura mais ampla, desse conjunto de representações, discursos, aparatos institucionais e instituições que vão colocando a mulher numa posição subalterna.

E o futuro da esquerda brasileira? É possível uma aliança estratégica entre os partidos da esquerda?

Eu acho que está acontecendo um diálogo entre os nossos partidos. Menos por vontade dos partidos e muito mais por vontade dos movimentos sociais. Os movimentos sociais se tornaram porosos. O movimento feminista atravessa o movimento LGBT, nós temos as transfeministas dentro do movimento LGBT. O movimento negro atravessa o movimento feminista, porque nós temos as feministas negras. O movimento indígena acaba tocando no movimento negro, no movimento sem terra.

Os movimentos estão se comunicando e isso tem forçado um diálogo entre as esquerdas. E se as esquerdas não fizerem isso elas estão fadadas a morrerem mesmo. Ou a gente dialoga diante dessa ofensiva ou a gente vai desaparecer.

Na sua agenda hoje tinha a previsão de uma visita à Casa de Prisão Provisória, em Aparecida de Goiânia, à um líder da direção nacional do MST que está preso? Por que essa visita não aconteceu e qual pode ser a realidade dos movimentos sociais no Brasil?

Eu acho esse caso escandaloso. Eu agendei essa visita porque eu sou membro da Comissão de Direitos Humanos e Minorias, e para mim há uma clara violação de direitos humanos nessa prisão. Essa prisão é claramente ilegal e é uma prisão política. A minha função era justamente ver as condições em que ela se encontra. Estava tudo certo para essa visita e hoje (quinta) no caminho para cá (Goiânia) eu recebi uma ligação de alguém chamado Leandro, que é ligado à administração do presídio dizendo que eu não poderia fazer a visita hoje porque hoje era dia de visita, por mais contraditório que isso pareça no dia de visita eu não poder fazer uma visita.

Eu disse para ele “olha, eu não posso contrariar a sua decisão, mas é óbvio que você sabe que eu sou uma autoridade da República e que isso vai ter uma implicação”. Porque tem duas hipóteses. Ou é um protocolo de segurança e ele vai ter que explicar isso, se é um protocolo que ele quer ter, a minha segurança de deputado em um dia de visita. Que tipo de perigo eu correria? É uma segurança para o preso? Ou é um protocolo de segurança ou é um veto deliberado com medo de que eu denuncie na Comissão de Direitos Humanos, na Anistia Internacional e na Câmara Interamericana de Direitos Humanos aquilo que eu pretendo denunciar caso essa prisão permaneça ou caso outras prisões dessa natureza aconteçam.

Esse caso preocupa a atuação dos movimentos sociais?

Preocupa a todos nós. Há uma criminalização dos movimentos sociais, a Lei Antiterrorismo tem sido usada para isso, para criminalizar os movimentos sociais. Nos áudios vazados ficou claro que eles pediram um monitoramento de perto do MST, o que eu acho um escândalo. Por que você já pensou se eles pedem o monitoramento do MBL por exemplo como uma rede criminosa?

Aliás, o MBL tem muito mais elementos para ser considerada uma rede criminosa, porque difama pessoas nas redes sociais, e calúnia e difamação são crimes, do que um MST. Muito mais. Isso preocupa porque começa no MST, em que setores da classe média têm uma antipatia ao MST, porque a tática política de invasão a propriedades improdutivas.

Aproveitando essa antipatia de setores da classe média ao MST eles têm investido no MST. Mas não vai ficar no MST. A maneira como o governo tratou as ocupações estudantis é uma prova de que vai se estender aos estudantes, vai se estender ao movimento negro, ao movimento de mulheres, ao movimento LGBT. Todos os movimentos vão ser criminalizados e a gente não vai poder contestar as políticas desse governo ilegítimo. Quer dizer, eles acham que a gente não vai poder, porque a gente vai poder sim.

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