Mudanças na aposentadoria: o valor atual garante uma vida digna?
07 janeiro 2026 às 12h52

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Alaiz Martins se aposentou no ano de 2015. Na época, ainda não tinha os 55 anos exigidos para receber a aposentadoria de forma integral. Por isso, efetivamente contribuiu por mais de 30 anos. Dez anos se passaram e, mesmo ganhando um pouco mais que o salário mínimo, ainda precisa fazer malabarismos para fechar a conta no fim de cada mês.
Em entrevista para o Jornal Opção, a aposentada disse que o dinheiro que recebe é abençoado, pois faz “milagres” para dar conta de tudo. Mesmo assim, às vezes precisa de ajuda da família para conseguir pagar as contas, que nunca param de subir. “No meu ponto de vista, os profissionais da educação e saúde são muito prejudicados quando aposentam”, complementa.
Ainda de acordo com a aposentada, existem pessoas que trabalham duro uma vida inteira, que poderiam ter uma vida mais tranquila quando se aposentam. “Por outro lado tem pessoas com funções políticas, que trabalham pouco, têm um salário altíssimo e se aposentam com pouco tempo de trabalho sem reduzir o salário”.
Na concepção dela essa é a maior de todas as injustiças.
Os políticos deveriam trabalhar 30 anos ou mais na mesma função e aposentar com um salário base, sem regalias

A realidade para o trabalhador prestes a se aposentar é que desde o dia 1º de janeiro, as regras são outras. Diferentemente de dona Alaiz Martins, que se aposentou com 55 anos, agora é somente com 59 anos e 6 meses. Os homens com 64 anos e 6 meses. Sendo que a pontuação exigida pelo sistema de “idade + tempo de contribuição” passou para (93 pontos para mulheres e 103 para homens). Tudo isso, impacta no sonho de se aposentar para milhares de brasileiros.
O advogado previdenciarista, Marcus Vinícios Cardoso, entrevistado pelo Jornal Opção, explica o aumento gradual da idade mínima e da pontuação no sistema de “idade + tempo de contribuição” acaba sim, na prática, postergando o momento da aposentadoria para muitos trabalhadores. “Isso naturalmente gera a sensação de que a linha de chegada está sempre um pouco mais distante”.
“É importante destacar, contudo, que esse movimento já estava expressamente previsto na Reforma da Previdência (EC nº 103/2019), que instituiu regras de transição com elevação gradual justamente para evitar mudanças abruptas no sistema”, explica.
De toda forma, na concepção do advogado previdenciarista o impacto é real. Especialmente para quem já contribui há muitos anos e precisa reavaliar expectativas e estratégias previdenciárias. “Essas alterações podem ser vistas como parte de um processo contínuo de adaptação, que reforça a importância do planejamento previdenciário para uma aposentadoria mais segura e consciente”.
Principais reclamações
A primeira delas é a sensação de insegurança e falta de clareza nas regras. A segunda é a dificuldade no reconhecimento do tempo de contribuição. E, por a terceira diz respeito a demora na análise dos pedidos. Essas são as principais reclamações, que o advogado Marcus Vinícios Cardoso recebe no escritório.
“Muitos segurados acreditavam que já tinham direito adquirido ou que estavam muito próximos de se aposentar e, ao procurar orientação, descobrem que as regras mudaram ou que precisam cumprir novos requisitos” – contextualiza.

Ainda segundo o advogado há grande frequência de reclamações sobre a análise dos pedidos. “Exigências excessivas de documentos e indeferimentos que, muitas vezes, poderiam ser evitados com uma análise mais técnica desde o início”, poderia ser uma solução na grande demora nas análises é o que explica Marcus Vinícios.
Problemáticas
Com a nova exigência de maior tempo de contribuição e idade para a aposentadoria é perceptível que os que mais sofrem são os que mais precisam. É o que analisa o advogado previdenciarista. “Muitos desses segurados já chegam a uma certa idade com desgaste físico acumulado, problemas de saúde e menor capacidade laboral, o que torna cada ano adicional de trabalho um desafio”, argumenta.
Ainda segundo Marcus Vinícios Cardoso, o mercado nem sempre absorve com facilidade o trabalhador mais velho. Isso pode gerar dificuldades para manter a renda, justamente, no período em que a pessoa mais precisa de estabilidade.
“Por isso, embora o adiamento da aposentadoria possa fazer sentido sob uma perspectiva atuarial e fiscal, é importante reconhecer que o impacto social não é uniforme”, afirma o advogado.
Portanto, políticas de complementação de renda ou incentivos para contribuições em períodos de vulnerabilidade poderiam ajudar a reduzir os impactos do adiamento da aposentadoria é o que explica o especialista. “A ampliação e simplificação do acesso aos benefícios por incapacidade, garantindo que quem não consegue continuar trabalhando por questões de saúde não fique desassistido, enquanto, aguarda análise ou perícia” complementa.
Voltando para dona Alaiz Martins, o conselho dela é para todos trabalharem dignamente. Mas, que não se “matem” por causa do trabalho: “quando adoecerem ou aposentarem o salário não será suficiente para o tratamento da saúde. Se puderem pagar uma Previdência Privada, façam isso urgente”.
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