A demora na realização do parto pode ter contribuído para a morte de uma gestante e de seus dois filhos gêmeos após atendimentos iniciados em Porangatu, segundo o delegado Luciano Santos, responsável pela investigação do caso, em entrevista ao Jornal Opção. De acordo com o delegado, a Polícia Civil apura uma possível negligência médica e busca esclarecer por que o procedimento não teria sido realizado antes.

Adriana Inácio Silva estava grávida de gêmeos e tinha histórico de hipertensão. Ela foi atendida no Hospital Municipal de Porangatu e, posteriormente, transferida para o Hospital Estadual do Centro-Norte Goiano (HCN), em Uruaçu. Um dos bebês foi retirado sem vida durante uma cesariana de emergência. O segundo nasceu vivo, mas morreu após permanecer internado na UTI Neonatal. Adriana também não resistiu.

Ao Jornal Opção, Luciano Santos afirmou que a investigação ainda está em fase inicial, mas que os elementos reunidos até agora colocam o momento da realização do parto no centro da apuração.

“O que causou a morte, a princípio, foi a demora na realização do parto. Então, o motivo desse retardamento é basicamente o ponto central da investigação”, afirmou.

A polícia quer saber, principalmente, se havia uma razão clínica para que o parto não fosse realizado antes. Segundo o delegado, somente a análise técnica dos atendimentos permitirá determinar se a conduta adotada foi adequada diante do quadro apresentado pela paciente.

“Precisamos saber se tem uma causa médica justificada. Não havendo uma justificativa médica razoável, aí o médico pode responder por homicídio culposo, ou até doloso com dolo eventual, a depender da circunstância”, explicou.

O delegado ressaltou que nenhuma responsabilidade foi definida até o momento e que as hipóteses dependem do resultado das perícias e dos demais elementos reunidos no inquérito.

Prontuários serão submetidos a perícia

Uma das principais etapas da investigação será a análise dos prontuários médicos. A Polícia Civil pretende reconstruir a sequência dos atendimentos, identificar as condições clínicas apresentadas por Adriana em cada momento e verificar se uma intervenção anterior poderia ter mudado o desfecho.

“A gente vai ter que ter a perícia médica, primeiro, para constatar a causa da morte. Segundo, nós vamos ter que pedir uma perícia em todo o prontuário médico das vítimas para verificar se essa morte era evitável”, disse Luciano Santos.

Os primeiros depoimentos deverão ser dos familiares. Posteriormente, a polícia pretende ouvir médicos e outros profissionais envolvidos nos atendimentos prestados à gestante.

O histórico de hipertensão também será considerado na apuração. De acordo com o delegado, a condição aumentava os riscos durante a gestação, assim como a gravidez gemelar. A investigação deverá esclarecer ainda se Adriana apresentou eclâmpsia e síndrome de HELLP.

“A gente precisa ver se ela chegou a entrar também nesse estado de eclâmpsia, além da síndrome de HELLP”, afirmou.

A síndrome de HELLP é uma complicação obstétrica grave, geralmente relacionada a quadros hipertensivos da gestação e que exige avaliação e intervenção médica de acordo com as condições da mãe e do bebê.

Família relata alta antes do agravamento

Familiares de Adriana questionam o atendimento prestado antes da transferência para Uruaçu. Segundo relato de uma das filhas, Jéssica Karolayne, a mãe procurou o Hospital Municipal apresentando dores, enjoo e outros sintomas e chegou a permanecer internada durante três dias.

A família afirma que, naquele momento, teria sido levantada a suspeita de infecção urinária e que Adriana recebeu alta mesmo sem apresentar melhora.

“Ela ficou três dias internada, falando que ela estava com infecção de urina. Deu alta para ela sem ela estar bem, mandou para casa. No mesmo dia, às 1h50 da manhã, ela não sentia os bebês”, relatou Jéssica.

Adriana retornou ao serviço de saúde depois de perceber que não sentia mais os movimentos dos filhos. Com o agravamento do quadro, foi transferida para o HCN, em Uruaçu.

Segundo as informações divulgadas pela unidade estadual, a paciente chegou em estado grave e com forte suspeita de morte de um dos fetos. A equipe realizou uma cesariana de emergência.

Um dos gêmeos foi retirado sem vida. O outro nasceu vivo e foi encaminhado à UTI Neonatal. Adriana permaneceu hospitalizada após o procedimento, mas morreu na quinta-feira, 10. Posteriormente, o segundo bebê também morreu.

A causa da morte da criança não foi detalhada.

Há divergência sobre a idade de Adriana nas informações disponíveis. O delegado mencionou 41 anos durante a entrevista, enquanto informações anteriores fornecidas pela família apontam que ela tinha 43 anos. O dado deverá ser confirmado documentalmente durante a investigação.

Outro caso de possível negligência também é investigado

Durante entrevista ao Jornal Opção, Luciano Santos confirmou que existe outro inquérito recente relacionado a uma suspeita de negligência no atendimento no Hospital Municipal de Porangatu.

De acordo com o delegado, nesse outro episódio, uma mulher teria procurado atendimento, recebido medicação e sido liberada. Posteriormente, ela retornou à unidade apresentando sintomas, mas uma possível infecção não teria sido identificada naquele momento. A paciente acabou morrendo após desenvolver sepse generalizada.

“Existe um inquérito recente, também de suposta negligência no atendimento”, confirmou.

O delegado afirmou ainda que há informações indicando a participação de um médico em outros episódios semelhantes, mas ressaltou que a eventual relação entre os casos ainda será objeto de investigação.

“Esse médico, pelo que já consta, tem participação dele em outros eventos similares. Mas isso ainda vai ser apurado”, afirmou.

A Polícia Civil deverá confrontar depoimentos, documentos médicos e resultados periciais antes de estabelecer se houve responsabilidade criminal em qualquer dos episódios.

Prefeitura abre sindicância e cobra explicações

Além da investigação policial, a Secretaria Municipal de Saúde de Porangatu abriu uma sindicância administrativa para apurar as circunstâncias do atendimento prestado a Adriana.

Em nota oficial, a Secretaria lamentou a morte da gestante, manifestou solidariedade à família e afirmou que está prestando o apoio necessário dentro de suas atribuições.

A pasta informou ainda que passou a cobrar do Instituto Alcance Gestão em Saúde (IAGS), organização responsável pela administração do Hospital Municipal de Porangatu, os documentos e esclarecimentos relacionados ao caso.

“Diante da gravidade dos fatos, a Secretaria de Saúde está cobrando rigorosamente do Instituto Alcance, responsável pela gestão do Hospital Municipal, todos os esclarecimentos, registros e documentos necessários para a apuração”, informou.

Segundo o município, a sindicância continua em andamento e é acompanhada tecnicamente pela Secretaria de Saúde, paralelamente ao trabalho das autoridades responsáveis pelas demais investigações.

“Ao final das apurações, serão adotadas as medidas cabíveis, de acordo com os resultados e com as responsabilidades eventualmente identificadas”, acrescentou a pasta.

Instituto Alcance diz que óbito ocorreu em outra unidade

O Instituto Alcance Gestão em Saúde também se manifestou sobre o caso. Em nota de esclarecimento, a organização expressou solidariedade aos familiares e amigos da paciente, mas ressaltou que Adriana não morreu nas dependências do Hospital Municipal de Porangatu.

“É indispensável esclarecer que o óbito em questão não ocorreu nas dependências do Hospital Municipal de Porangatu – HMP, mas em outra unidade de saúde”, declarou.

O instituto acrescentou que, por esse motivo, considera que afirmações que atribuam diretamente ao HMP a ocorrência do óbito “não correspondem à realidade dos fatos”.

A manifestação, no entanto, não detalha as circunstâncias dos atendimentos anteriores à transferência nem responde especificamente aos questionamentos da família sobre a alta concedida à gestante e sobre o momento escolhido para encaminhá-la a outra unidade. Esses pontos estão entre os elementos que deverão ser examinados pelas investigações.

Na nota, o IAGS destacou que o Hospital Municipal recebe diariamente uma demanda expressiva de urgência e emergência, tanto de moradores de Porangatu quanto de pacientes encaminhados por outros municípios da região.

A organização também defendeu o trabalho dos profissionais da unidade e afirmou que médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem e demais colaboradores atuam de forma contínua no atendimento aos pacientes.

“O IAGS reafirma sua plena confiança na equipe do Hospital Municipal de Porangatu e em sua capacidade técnica, reconhecendo o relevante serviço prestado à população”, diz trecho da nota.

O instituto afirmou ainda manter compromisso com a verdade, a transparência, o atendimento humanizado e o respeito aos pacientes e familiares.

Com as três apurações em curso — o inquérito policial, a perícia médica e a sindicância administrativa —, um dos principais pontos a ser esclarecido é se houve atraso injustificado na realização do parto ou em outra intervenção necessária e, principalmente, se uma conduta diferente poderia ter evitado as mortes de Adriana e dos dois bebês.

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