O nome diz tudo: Homero. O aedo grego narrou, em dois livros magistrais, histórias da Grécia antiga e as tornou parte do imaginário coletivo. A “Ilíada” relata a Guerra de Troia, na qual morreram Heitor e, entre tantos outros, Aquiles. A “Odisseia” relata a volta do guerreiro Ulisses para Ítaca e sua Penélope.

Homero, que nasceu e morreu antes de Jesus Cristo, legou-nos livros que, a rigor, são bíblias a respeito da Grécia. As obras resistiram à corrosão do tempo e permanecem vivas, como partes da história dos homens e mulheres, e não apenas dos ocidentais.

O Cerrado teve o seu Homero, que também era Sabino (o que, de algum modo, o vincula ao mundo greco-romano).

Homero Sabino de Freitas foi juiz e desembargador. Na presidência do Tribunal de Justiça de Goiás e da Associação do Magistrados do Estado de Goiás (Asmego), operou uma das gestões mais polêmicas, às vezes enfrentando o chefe do Executivo — na época, Maguito Vilela —, com extrema coragem. Para o magistrado, o Judiciário, se era (é) um poder, devia (deve) se comportar como tal, não subordinando-se ao Executivo. Quando assumiu a Asmego, durante anos, manteve uma conduta intimorata, não raro participando de debates ferrenhos com agentes do Executivo.

As entrevistas de Homero Sabino eram duras, porque não apreciava meias-palavras e termos suaves. Em nome da lei, do que avaliava como correto, partia para a briga, de maneira desafiadora. Falava aos jornais e às emissoras de rádio e televisão. Não se negava a conversar com repórteres, mas fazia questão de exigir fidelidade àquilo que dizia.

Certa feita, depois de uma entrevista polêmica, que havia sido manchete do jornal impresso — na era pré-internet —, Homero Sabino ligou e perguntou: “Herbert [de Moraes Ribeiro], o jornal vendeu bem nas bancas?”. O editor do jornal confirmou que havia esgotado em quase todas as bancas e Homero Sabino disse, depois de uma risada: “Eu sabia. Homero Sabino vende jornais”.

Era um homem bravo — ou “brabo”, como gostava de dizer o repórter Sebastião de Abreu — e não tinha medo dos poderosos. Falava o que pensava e o que queria. Mas não era injusto. O que dizia podia ser comprovado.

Numa das entrevistas, Homero Sabino contou ao Jornal Opção que havia sido um craque jogando futebol pelo Goiânia e pelo Goiás. Era tão bom que quase foi para um time de expressão nacional. Acabou optando pela advocacia e, sobretudo, pelo Judiciário. Ele se tornou juiz em 1957, durante o governo de Juscelino Kubitschek.

Como se sabe, Homero Sabino não pertencia aos círculos da esquerda. Porém, por não aceitar os excessos da ditadura, foi pressionado e chegou a ser ameaçado. A história está contada numa das muitas entrevistas concedidas ao Jornal Opção. Ele era assim: um homem que não recuava. A expressão perdeu atualidade (corroída pelo uso, em tempos idos), mas talvez seja possível apresentá-lo como um “varão de Plutarco”.

Ciente da liturgia do poder, Homero Sabino cobrava respeito. Um repórter ligou e perguntou: “É Homero quem está falando?” Ele respondeu, seco e irritado: “Não, meu filho. É o dr. Homero Sabino”.

Certa feita, terminada a entrevista — concedida na sede do jornal, no edifício Center Shopping Tamandaré, nas proximidades da Praça Tamandaré, em Goiânia —, Homero Sabino disse: “Herbert [não me membro se disse “Betinho”], meu amigo, não deixe esses meninos [olhando para mim e para José Maria e Silva, editores do jornal] colocarem a minha idade. Porque a Daura não vai gostar”. Mulher de fino trato, amiga de 99% dos homens e mulheres do alto PIB goiano, a colunista social Daura Sabino, irmã do magistrado, não apreciava que as pessoas soubessem a sua idade. Ela foi colunista social do Jornal Opção durante vários anos. Sabia tudo o que estava ocorrendo nos bastidores da sociedade. Às vezes, não publicava mas contava para a redação o que estava acontecendo. Tanto Homero Sabino quanto Daura Sabino foram amigos de Herbert e Nanci, viúva do jornalista, por toda a vida. Eles eram irmãos de Lenine, professor de inglês e exímio tradutor da língua de Shakespeare, e do crítico literário Oscar Sabino (um dos primeiros a escrever sobre o romance “Ulysses”, de James Joyce, em Goiás, e com percuciência).

Ao se aposentar do Tribunal de Justiça — que considerava como sua segunda casa, ou até sua primeira casa —, Homero Sabino decidiu advogar e se tornar político. Disputou mandato, mas não foi eleito. Sua sinceridade extrema beirava o sincericídio. Honesto, não aceitava conchavos e acordos feitos em surdina. Não fazia parte, portanto, de nenhum grupo. Era um outsider até entre os outsiders.

Homero Sabino morreu na quinta-feira, 27, aos 92 anos. Homem de fibra, dos raros, fará falta. Mas fica como referencial.