Morre Zé Garção, o grande mestre da folia em Porangatu. Teve um AVC

É como se estivéssemos, ao longe, ouvindo o som da caixa de uma folia, sem som de viola e pandeiro, somente o som da caixa, o seu som, Jose Garção

Euclides de Souza Goianinho

(José de Barros Garcão — 07-9-1947 a 22-4-2021)

Hoje (quinta-feira, 22), Porangatu perde um de seus mais queridos filhos. É sempre triste perder um amigo, especialmente quando o amigo foi alguém que nos inspirou muito, que nos motivou, que mostrou devoção ímpar e incondicional amor ao nosso lugar, uma paixão por nossa terra, pelos usos e costumes, pelo nosso folclore e nossa religiosidade popular.

Esse foi José de Barros Garção, ou simplesmente “Zé Garção”, o eterno Imperador da Folia do Divino Espírito Santo, folião por excelência, caixeiro, catireiro e dançador da tradicional dança do chorado. Nosso mestre das danças folclóricas que tanto nos alegrou. Como era bonito ver a animação de José Garção na famosa dança da catira, minuana e curraleira. Vemos você com imensa alegria, grandioso defensor das tradições e do folclore porangatuense.

Goianinho (com o violão) e José de Barros Garção | Foto: Arquivo pessoal

Nosso famoso capitão e guia de folia, José de Barros Garção nasceu em Porangatu (Norte de Goiás) a 7 de setembro de 1947. Seus pais, Manoel de Barros Garção e dona Mercês Alves de Carvalho, eram extraordinários defensores das tradições. Manoel de Barros foi “alferes bandeira”, aquele que conduz a bandeira do divino espírito santo durante todo o giro de uma folia. Foi ali, acompanhando seu pai de “pouso em pouso”, que o menino José Garção aprendera os primeiros passos em sua extensa biografia de folião.

Seus ancestrais foram precursores dessa tradição em Porangatu. Afinal, José de Barros Garção e dona Maria Riberio Marques foram os imperadores da folia do divino no Descoberto da Piedade em 1923. Dava-se o título de imperador para o homem e de rainha para a mulher. Segundo o ex-prefeito e pesquisador João Gonçalves dos Reis, em seu espetacular livro “Descoberto da Piedade”, na página 23, “entre 1924 e 1926, José foi inspetor escolar e, em 1927, juiz distrital”.

Portanto, nosso José Garção herdou de seus antecessores a verdadeira e mais rica tradição porangatuense. Por outro lado, José Garção foi também um defensor no meio desportivo. Ele foi quarto-zagueiro do Porangatu Atlético Clube e do Vila Nova Futebol Clube. Atuou como respeitado árbitro de futebol, durante muitos anos, pela liga municipal. Foi casado com Eva Fagundes Costa e pai de três filhos.

José de Barros Garção (com o violão): o mestre da folia de Porangatu | Foto: Arquivo pessoal

José Garção estudou com os mestres José de Carvalho Borba Jr. e Messias Borges, a grande professora. Honrou a pátria no Batalhão da Guarda Presidencial (BGP) em 1966. Ao retornar de Brasília foi trabalhar de vaqueiro nas fazendas pelos arredores de Porangatu.

José Garção reportou-me nos idos de 1997, ocasião que o entrevistei para uma publicação ao “Jornal da Cidade” — do saudoso jornalista Mauro Antônio Silva —, o seguinte relato: “Eu tenho orgulho de ter sido amansador de burro bravo e peão das montarias que eram organizadas por Pedro Teixeira Filho”. Acrescentou: “Sou filho de carreiro, meu pai finado Manoel de Barros Garção foi carreiro e carreou em seu carro de boi os postes de madeira da Fazenda Matão para o Descoberto quando Vitor Rodrigues de Moura instalou a energia a motor”.

Estamos tristes pela saudade que nos assola neste momento de dor. Afinal, trata-se de uma despedida de alguém que amamos. É como se estivéssemos, ao longe, ouvindo o som da caixa de uma folia, sem som de viola e pandeiro, somente o som da caixa, o seu som, Jose Garção. Adeus Folião, adeus José de Barros Garção.

José Garção teve um AVC.

Euclides de Souza Goianinho é escritor e membro da Academia Porangatuense de Artes e Letras

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