Morre o notável historiador Manolo Florentino

O pesquisador teve uma parada cardiorrespiratória e faleceu aos 62 anos. Era professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro

A historiografia sobre a escravidão no Brasil é de excelente qualidade. As pesquisas são bem fundamentadas e inovadoras. E entre os grandes historiadores do tema está Manolo Florentino, que morreu, aos 62 anos (nasceu no Espírito Santo, em 1958), de parada cardiorrespiratória na sexta-feira, 12. Ele era professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Manolo Florentino: historiador | Foto: Reprodução

Além da pesquisa rigorosa, Manolo Florentino escrevia muito bem. Era, como historiador, um escritor consumado. Mas, acima de tudo, era um grande intérprete da escravidão. Sob seu olhar e crivo, os documentos (novos ou já examinados), depoimentos e histórias já contadas ganhavam nova coloração e dizem mais do que pareciam sugerir (o que não significa que “forçava” os dados). Era um intérprete brilhante.

Numa entrevista, Manolo Florentino disse: “A escravidão era a alma do sistema político imperial e sem ela a monarquia não poderia perdurar”. Doutor em História, é autor de um clássico: “Em Costas Negras — Uma História do Tráfico de Escravos entre a África e o Rio de Janeiro (Companhia das Letras, 1997). Trata-se de um livro que tem de ser apontado como “imperdível”.

Numa rede social, o historiador João Fragoso (tão notável quanto Manolo Florentino) escreveu: “Nestes tempos tão difíceis, hoje tivemos mais uma perda: Manolo Florentino faleceu de parada cardiorrespiratória. Por razões que todos sabemos a Historiografia está de Luto. Manolo, como docente, consegui algumas proezas em sua geração: mudou a historiografia brasileira, a do tráfico atlântico de escravos e foi um dos mais importantes e formadores de africanistas do país. Com ele deixamos de ser um simples canavial exportador na colônia e conhecemos mais a razão de sermos o segundo maior país com população de origem africana (o primeiro é a Nigéria, se não estou errado). Como gestor universitário, na condição representante de História junto à Capes, incentivou a obrigatoriedade da existência dos bancos de repositórios digitais de teses e dissertações nas Pós-Graduação. Fato esse que todo, mestrando, doutorando, pesquisador profissional e, portanto, a sociedade em geral sempre lhe será grato. A nossa ainda tão jovem historiografia profissional brasileira perdeu um dos seus”.

Currículo de Manolo Florentino

“Graduado em História pela Universidade Federal Fluminense (1981), mestre em Estudios Africanos – El Colégio de México (1985) e doutor pelo Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Fluminense (1991). Professor concursado em 1988 do Instituto de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro, vinculado à área de História da América. Desenvolve [desenvolvia] pesquisas sobre escravidão nas Américas, África e Brasil. Recebeu a Comenda da Ordem Nacional do Mérito Científico (2009) e foi presidente da Fundação Casa de Rui Barbosa de fevereiro de 2013 a fevereiro de 2015. Aposentou-se voluntariamente no Instituto de História da UFRJ a partir de 21 de agosto de 2019”.

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