Documentos revelam que “mídia aliada” foi favorecida em verbas do governo federal

Mensagens de WhatsApp colhidas pela PF no inquérito dos atos antidemocráticos revelam que verba da Caixa foi destinada para veículos preferidos pela Secom 

O inquérito dos atos antidemocráticos revelaram que o então secretário Fabio Wajngarten de Comunicação defendeu a liberação de verba publicitária da Caixa Econômica Federal para veículos de comunicação classificados por ele como “mídia aliada”.

A liberação de orçamento se daria por meio da Secretaria de Comunicação Social (Secom) do governo de Jair Bolsonaro (sem partido). A informação foi colhida pela Polícia Federal (PF) em mensagens pelo aplicativo WhatsApp e divulgada pelo jornal O Globo.

A troca de mensagens ocorreu em abril de 2019, quando Wajngarten assumiu o comando da Secom e se aproximou do blogueiro bolsonarista Allan dos Santos, dono do site Terça Livre e amigo dos filhos do presidente.

Segundo o relatório da PF, Wajngarten afirmou ainda que poderia aproximar o blogueiro de veículos como SBT, Band e disse que se encontraria com “bispos da Record”. Em nota ao jornal O Globo, Wajngarten disse que atuação na Secom foi “técnica e profissional”, e emissoras negam privilégio e reafirmam isenção.

No diálogo de WhatsApp colhido pela PF, Wajngarten também se revelou descontente com o atraso no pagamento de verbas de publicidade a quem classifica como “aliados”. Ele diz ter sido informado que a Caixa estaria “devendo dinheiro” à Band e “RTV” (possível citação à Rede TV!).

Wajngarten relatou que tentou aproximar Bolsonaro da cúpula da Band — e chegou até a fazer uma ligação por meio de videoconferência entre o presidente e Johnny Saad, dono do Grupo Bandeirantes, e Paulo Saad, vice-presidente da emissora. Em seguida, Allan dos Santos avalia a Wajngarten que era preciso trazer “esses caras” para perto do governo, com o que o então chefe da Secom concordou.

Allan dos Santos chegou a compartilhar o link de uma notícia sobre a obrigação da Secom de distribuir verbas publicitárias do governo com base em critérios técnicos. Neste momento, contrariado, Wajngarten respondeu: “Eles querem o retorno de 80% para a Globo. Vergonhoso”. Na sequência, o blogueiro bolsonarista sugeriu: “Bora bater sem parar”. O então chefe da Secom agradeceu.

Fábio Wajngarten, ex-Secretário de Comunicação, e Allan dos Santos, do portal de extrema-direita Terça Livre | Foto: Reprodução

A retaliação da Secom aos veículos que não são considerados “mídia aliada” envolvia um canal de contato com bolsonaristas no qual foi discutida até uma proposta de criação de um departamento de contrainformação. O grupo de WhatsApp chamado “Mídia Pensante – SECOM” foi criado por Wajngarten e contava com a participação de Allan dos Santos. 

Em um dos trechos, se lê: “Fabio (Wajngarten), aquela ideia de comunicação estratégica e contrainformação. Na minha opinião, você deve criar um departamento para isso. Você já até concordou com a ideia. Vamos implementá-la?”. Wajngarten, sem titubear, respondeu: “Vamos implementar”.

Em outra mensagem, enviada por Allan dos Santos a um contato chamado por ele de “Eduardo”, em provável referência ao deputado federal Eduardo Bolsonaro, ele diz: “Precisamos da Secom para implementar uma ação que desenhamos aqui”, afirma o blogueiro, que sugeriu a indicação de uma pessoa para assumir a Secretaria de Radiodifusão. “Seu pai disse que sim”, alertou Allan dos Santos.

Nessa mesma mensagem, Eduardo diz que tem o contato de Douglas Tavolaro, ex-executivo das emissoras Record e CNN. “O Douglas diz que a linha será da Record, que o que vem dos EUA é só o nome CNN”, afirma o filho do presidente.

Dados extraídos do sistema de pagamentos da Secom mostram que veículos classificados como “mídia aliada” por Wajngarten foram privilegiados na distribuição da verba.

Globo teve maior corte de verba
Na comparação entre os biênios de 2017 e 2018 (sob o governo do então presidente Michel Temer) e 2019 e 2020, já no governo de Jair Bolsonaro, a verba da Secom caiu, em média, 26%, saindo de um total de R$ 409 milhões para R$ 300,5 milhões. O volume de recursos públicos destinado à Globo Comunicação e Participações, que controla a TV Globo, teve um corte maior — de 69%. A verba destinada à Record caiu 7%, saindo de R$ 36,5 milhões para R$ 33,8 milhões. O SBT teve uma queda de 16%, passando de R$ 34,5 milhões para R$ 28,9 milhões. A Bandeirantes teve uma queda de 22%, ainda abaixo da média, caindo de R$ 12 milhões para R$ 9,6 milhões. A Rede TV!, ao contrário, teve aumento no volume de verbas de 10%, saindo de R$ 1,5 milhão para R$ 4,1 milhões no período.

Os dados compilados de janeiro a junho deste ano apontam que o padrão vem se mantendo. Duas emissoras lideram o ranking de recebimento de verba pública — a Record, com R$ 8,3 milhões, e o SBT, com R$ 8,3 milhões. A Globo está em terceiro lugar, com R$ 6,2 milhões, à frente da Bandeirantes, com R$ 4,4 milhões e Rede TV! com R$ 1,8 milhão.

Uma instrução normativa do governo federal estabelece quais os critérios que a Secom deve considerar para fazer a distribuição da sua verba de publicidade institucional. O primeiro critério estabelecido na norma é a audiência. Em seguida estão: perfil do público-alvo, perfil editorial, cobertura geográfica dados técnicos de mercado, e pesquisas de mídia, sempre que possível. Um trabalho de auditoria do TCU, revelado pelo jornal Folha de S.Paulo, apontou que faltam critérios técnicos para a distribuição de verbas publicitárias a TVs abertas pelo governo Jair Bolsonaro.

Essa não é a primeira vez que a atuação de Wajngarten em benefício de veículos vem à tona. Em 2020, sua gestão foi alvo de processos no Tribunal de Contas da União (TCU) e no Ministério Público Federal (MPF). Os processos começaram depois de revelações feitas pelos jornais O GLOBO e Folha de S. Paulo de que canais do Youtube e sites que veiculam desinformação e propagam discurso antidemocrático recebiam verba publicitária da Secom e de estatais como o Banco do Brasil, Petrobras, Eletrobrás e BNDES. O TCU chegou a suspender toda a publicidade do Banco do Brasil na internet. O MPF, por sua vez, abriu um inquérito para apurar a eventual distribuição de verbas com base em critérios “ideológicos”.

* Com informações do jornal O Globo.

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