Metrópoles mundiais planejam barrar cada vez mais o uso do carro particular

Alternativas como assinatura de carros e aluguel por apenas algumas horas se tornaram populares em capitais europeias

Vinicius Mendes
Especial para o Jornal Opção

No conto Autopista del Sur, de 1964, o escritor argentino Julio Cortázar descreve um engarrafamento tão gigantesco na estrada que liga Paris à região metropolitana que, ao fim de alguns meses parados no mesmo lugar, os motoristas começam a reproduzir, com seus veículos, as mesmas relações comuns do mundo real, com romances, brigas e até mortes.

“Os engarrafamentos são um dos símbolos mais negativos da sociedade que vivemos, porque são uma espécie de contradição à vida humana. São um tipo de busca pela desgraça, pela infelicidade, através da grande maravilhosa tecnologia moderna que representa o carro, justamente o que deveria nos dar liberdade”, disse ele em uma entrevista nos anos 1960.

Em 2013, um grupo teatral paulistano encenou o conto em uma rua isolada da metrópole onde os espectadores podiam escolher entre ficar dentro dos automóveis ou nas calçadas, tendo à vista diversos acontecimentos simultâneos do trânsito imaginário. Na cidade que mais sofre com os engarrafamentos, já houve quem dissesse que ela seria o palco ideal para um “trânsito final”, assim como o descrito por Cortázar.

No entanto, paralelo ao crescimento da indústria de carros no mundo, do fortalecimento das montadoras a nível mundial e dos vários significados sociais que o automóvel possui na sociedade contemporânea, um movimento contrário passou a ganhar força há alguns anos: o que reivindica formas alternativas de circular de carro pelas grandes cidades do planeta.

Nos Estados Unidos, país que criou a cultura do automóvel, das grandes estradas e da produção em massa, essa discussão está em alta. Cidades como Houston e Boston investiram em alternativas como o transporte público e o compartilhamento de veículos. Em Nova York, o prefeito Michael Bloomberg construiu 450 km de ciclovias e fechou o trânsito na Times Square, no coração da metrópole.

“Na década passada, empresas de compartilhamento de veículos, como ZipCar e Car2Go, se popularizaram em grandes cidades americanas. Nesse tipo de serviço, paga-se pelo uso de um veículo por determinado período, ao fim do qual ele é estacionado em um lugar público, para que outro usuário possa tomá-lo. Esses carros compartilhados, que não servem para impressionar o vizinho, são modestos – mais semelhantes ao típico compacto europeu que aos espaçosos utilitários americanos”, escreveu o urbanista Raul Juste Lores em um artigo publicado há alguns anos na Folha de S. Paulo.

Recentemente, a revista estadunidense Forbes publicou um artigo mostrando como os custos de se manter um carro podem até se sobrepor ao uso que o dono faz dele. O jornalista Devin Thorpe, que vive em Salt Like City, nos EUA, escreveu que começou a perceber que não valia a pena manter um automóvel na garagem quando experimentou fazer todos os trajetos normalmente ao volante por outros meios. “No geral, descobri que poderia ir a lugares que queria sem um carro, quase sempre com uma opção mais amigável e sustentável.”

No texto, ele ainda indica 12 possibilidades alternativas ao uso do veículo próprio, como caminhar (“Nós definitivamente nos encontramos enquanto caminhamos”), bicicletas compartilhadas, serviços de carros como Uber e os recentes aplicativos de uso público de um mesmo veículo.

Seja como for, diversas possibilidades já estão disponíveis para quem não quer ter um carro em algumas grandes cidades do mundo, um fenômeno chamado de “nova mobilidade”. “O objetivo é reequilibrar o espaço público e criar uma cidade para as pessoas”, diz Gilles Vesco, francês que ficou famoso na Europa por implantar um esquema de responsabilidade ambiental no transporte em Lyon. Uma de suas ideias – o compartilhamento de bicicleta – hoje é seguida no mundo todo, como as brasileiras São Paulo e Rio de Janeiro.

Em Lyon, aliás, está um dos principais exemplos modernos de alternativas ao carro: o plano de mobilidade urbana escrito em 1997 previa a construção de linhas de bonde, estacionamentos nos limites da cidade, áreas para pedestres e ciclovias e acessibilidade à rede de transportes. Doze anos depois, em continuação a esse plano, a prefeitura iniciou a implantação de outro, chamado Modes Doux, que previa um maior foco na circulação de pedestres e ciclistas. Foi nessa época que começaram a surgir estações de bicicletas de uso comum em diversas regiões da cidade, chamados de Lyon Velo.

Recentemente, outra cidade europeia que mergulhou em um plano de mobilidade urbana foi Birmingham, na Inglaterra: o projeto Birmingham Connected pretende reduzir a dependência de carros por meio de usos compartilhados de meios de transporte – dos ônibus às bicicletas. Assim como Paris, a alemã Munique planeja acabar com o uso de veículos particulares na região urbana em alguns anos, e é na mesma Alemanha que já existem automóveis disponíveis para aluguéis de, no mínimo, uma hora.

Há até alguns radicalismos: Paris, por exemplo, pretende acabar com toda a circulação de automóveis movidos a combustão por motoristas particulares até 2024, quando sediará as Olimpíadas. A ideia é que os espaços “economizados” com a retirada dos carros estacionados nas ruas sejam usados para ciclovias, playgrounds e cafés. Os críticos à ideia questionam como as autoridades conseguirão realizar tal proeza em uma região densamente urbana e que necessita, no mínimo, de abastecimento de alimentos fornecido por caminhões.

“O Brasil ainda mantém a tradição de privilegiar o automóvel em detrimento do transporte coletivo, e alterar esse panorama demanda não só políticas públicas, mas uma mudança na mentalidade do brasileiro”, diz o professor alemão Martin Gegner, que dá aulas na Universidade de São Paulo (USP).

“O Brasil ainda vive a influência do ideal modernista de urbanismo, em que as cidades são planejadas em função do carro, com prédios e garagens grandes, com bairros ligados por grandes vias rodoviárias. O grande exemplo disso é Brasília”, completa.

Recentemente, algumas empresas passaram a oferecer serviços semelhantes no país. Em São Paulo, por exemplo, já existem algumas seguradoras que oferecem o aluguel de carro mensal por meio de um valor fixo e com manutenção e impostos estatais incluídos. A cidade ainda passa por uma outra inovação: um projeto em conjunto de empresas brasileiras e francesas está implantando o serviço de aluguel de veículos elétricos em postos espalhados por pontos da cidade. Segundo a Veja, os primeiros 20 minutos com o carro custará R$ 29,90. Uma alternativa a mais a um mundo que cada vez mais rejeita o carro particular.

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