Menos recalcitrante, mas insolente: o discurso vazio do Brasil na cúpula do clima

Embora a retórica brasileira para o meio ambiente tenha mudado, seu conteúdo permanece o mesmo: um discurso vazio, meras palavras ao vento

Matheus Hoffmann Pfrimer*

Após sua eleição nos Estados Unidos, uma das primeiras e principais medidas do presidente Joe Biden foi anunciar a volta de seu país às negociações do Acordo Climático de Paris a fim de reduzir as emissões de gases de efeito estufa.

A presente cúpula de líderes sobre o clima, que segue até esta sexta-feira, 23, materializa o interesse da gestão Biden em colocar os EUA na liderança da governança do clima – algo que foi deixado em segundo plano na administração do ex-presidente Donald Trump. Na reunião estarão presentes os estadistas de 17 economias que, ao todo, respondem por 80% das emissões globais de gases de efeito estufa e por quase 85% do PIB mundial.

Mais do que convocar os restante dos países a um esforço comum diante das mudanças climáticas globais, Biden projeta os Estados Unidos como principal potência em tecnologias limpas a fim de se contrapor a uma possível liderança chinesa. Sem a menor dúvida, o desenvolvimento de energias e tecnologias limpas vem se tornando um setor em disputa na economia global, pois permite produzir com baixa degradação do  ambiente.

Nesse intuito, logo na abertura da reunião o presidente estadunidense anunciou a meta ambiciosa de seu país em reduzir pela metade a sua emissão de gases de efeito estufa até 2030. O anúncio visa forçar outras potências a adotar reduções mais drásticas nas emissões.

Ciente da disputa pela governança climática, o líder chinês, Xi Jinping, discursou levantando a bandeira segundo a qual “proteger o ambiente é proteger a produtividade”. Acrescentou ainda que a China estimulará o desenvolvimento sustentável nos 40 países participantes do seu projeto “Cinturão Verde e Rota”, que financia a construção de infraestrutura no exterior.

Discurso de Bolsonaro
E o Brasil? Num discurso menos recalcitrante, porém ainda cheio de imprecisões, o presidente Jair Bolsonaro mencionou que o Brasil está na “vanguarda do enfrentamento do aquecimento global” sem levar em conta que neste último mês, o número de queimadas foi maior do que nos últimos meses de abril em uma década.

O presidente continuou o seu discurso justificando o desmatamento ilegal na Amazônia com base nos baixos índices de desenvolvimento humano (IDH) – indicando que sem esta prática a pobreza seria ainda maior na região.

Por fim, anunciou a meta de reduzir pela metade o desmatamento na Amazônia até 2030 – quando já não será mais presidente –, mas colocou como condição a doação mensal antecipada de 1 bilhão de dólares. Contudo, o presidente não mencionou que o US$ 1,4 bilhão recebido do Fundo Amazônia para combate ao desmatamento na Amazônia está parado e sem finalidade.

Nessa governança do clima, enquanto EUA e China buscam se afirmar como líderes, o Brasil permanece insolente. Embora a retórica brasileira para o meio ambiente tenha mudado, seu conteúdo permanece o mesmo: um discurso vazio, meras palavras ao vento.

* Matheus Hoffmann Pfrimer é doutor em Geografia Humana pela Universidade de São Paulo (USP) e professor do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal de Goiás (UFG).

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