Parentes de vítimas da doença altamente contagiosa não aceitam procedimentos sanitários obrigatórios após a morte, como não ver o familiar falecido e a não preparação do corpo para o enterro

Com a pandemia de Covid-19, profissionais da saúde enfrentam uma variedade de novos desafios. Entre eles, o de comunicar a família dos procedimentos sanitários obrigatórios para a vítima ou suspeita da doença provocada pelo novo coronavírus.

A médica Franscine Leão, presidente do Sindicato dos Médicos de Goiás (Simego), conta como tem sido a rotina dos profissionais de saúde que têm defrontado essa situação fora do comum. “A maior dificuldade não é em relação à suspeita. O problema é em velar o paciente sem o preparo do corpo. Para muitos, isso é desrespeitoso”, falou ao Jornal Opção.

“Caixão fechado, limitação do tempo do velório e limitação de pessoas que podem aproximar do caixão. Quando os familiares tomam consciência de que irá ocorrer este passo a passo, eles se revoltam. O próprio ato popular de velar os corpos, eles não têm compreensão que estamos em um momento epidemiológico diferente. Que a gente não pode se dar ao luxo, se isso for um luxo, um benefício para a família, de correr o risco de expor profissionais de saúde, agentes da funerária e a própria família ao risco de contaminação”, explicou.

Ela diz que normalmente, o paciente que vai à óbito só tem o diagnóstico positivo para a Covid-19 detectado posteriori à morte. Caso seja, de fato, este paciente carrega uma carga viral muito alta. Por esse motivo, as recomendações das autoridades sanitárias são diferenciadas para o funeral dessas pessoas.

“Tem diferença entre coronavírus e a população, apesar da população já estar limitada. Para o coronavírus, o paciente vai à óbito. Caso seja confirmado por meio do swab, o médico coloca isso no atestado de óbito. O que temos percebido é que às vezes não dá tempo de positivar o exame. Aí a gente coloca como suspeito”, diz a médica.

“O paciente não é preparado. A gente remove as roupas, dentadura, alianças, tenta a ressuscitação. Caso ele venha à óbito, se coloca o paciente em um saco fechado e acondiciona na capela, que chamamos de morgue. Quando a funerária chega, ela não vai manipular aquele cadáver. Vai vestir outro saco plástico e isolar o corpo. Essa é a recomendação. Não ter contato com o cadáver. O caixão é fechado”, detalhou Franscine.

Já no caso de pacientes que morrem por outras causas, ainda é possível velar em caixão aberto. “Determinações judiciais são de que os velórios, mesmo de outros pacientes, sejam menores e que apenas dez pessoas podem estar presentes. São duas horas de velório para toda população, independente da causa da morte”, informou.

Rotina alterada


Culturalmente, as pessoas precisam se aproximar do familiar falecido, chorar a perda e visualizar que a morte ocorreu, ela explica. “[No caso da Covid-19] não vai poder fazer isso. Entra vivo, teoricamente, já que em geral o paciente já vem muito grave e não vê o corpo saindo”, relata Franscine. “Somos táteis. Queremos pegar, abraçar, chorar, é ato cultural e muitas pessoas que precisam disso não vão poder ter isso. Esse é o principal motivo da revolta.”

Ela conta que, em geral os médicos possuem técnicas de comunicação para falar do óbito. Habilidades adquiridas com a profissão e técnicas de comunicação em saúde auxiliam no comunicado do óbito, conforme ela explica.

“O que é comum do ser humano, após a morte, é culpabilizar alguém. Sempre que há um óbito a culpa é de alguém. A suspeita clínica é uma obrigação do médico, caso contrário é um crime de exposição à sociedade. Se suspeitamos e não colocamos no atestado de óbito e permitimos que aquela comunidade se exponha ao vírus é muito sério. Aumenta a incidência dos casos graves, como eu disse, aquele paciente provavelmente tem uma carga viral maior”, ressalta.


“Estamos com dificuldades, enquanto profissionais de saúde, não apenas os médicos, porque somos maiores vítimas neste processo”, desabafou a médica. “Somos aqueles que estão no front, em guerra contra o inimigo invisível e estamos adoecendo e morrendo primeiro. Precisa de mais empatia da população por essa categoria”, pediu a presidente do Simego.

“Estamos aqui habituados a salvar vidas, não a assinar atestados de óbitos, o que infelizmente tem se tornado uma rotina nas nossas vidas. Não é satisfatório para o médico perder uma vida. Por mais que não sejamos deuses, a gente está aqui para tentar salvar. Quando há uma perda, também temos um luto individual”, disse Franscine.

“É um processo cansativo, emocionalmente e fisicamente uma ressuscitação. Ainda mais paramentado da cabeça aos pés, o que não é habitual. Paramentação é muito difícil, muito sofrido. Estar paramentado para ressuscitar pacientes é muito cansativo. E ainda assim, depois de 40 minutos fazendo esforço físico lutando para salvar a vida ser agredido porque você não conseguiu, o sofrimento emocional para esse profissional é muito maior. Acho que precisa de sensibilização para que a população tenha empatia por esse profissional”, alertou a profissional.