Médica vetada para ocupar secretaria na Saúde diz à CPI que tratamento precoce é “discussão delirante” e relata ameaças

Luana Araújo esteve à frente da recém-criada Secretaria de Enfrentamento à Covid-19 do Ministério da Saúde durante dez dias. Após deixar a pasta, ela disse ter sofrido ameaças

Em depoimento de cerca de sete horas à CPI da Covid nesta quarta-feira, 02, a médica Luana Araújo chamou de “delirante, esdrúxula, anacrônica e contraproducente” a discussão sobre o tratamento precoce, defendido pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e por ministros do governo.

Luana Araújo esteve à frente da recém-criada Secretaria de Enfrentamento à Covid-19 do Ministério da Saúde durante dez dias. Passado esse período, foi informada pelo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, de que não seria nomeada. Segundo ele, faltou “validação política” para a nomeação. Após deixar a secretaria, ela disse ter sofrido ameaças.

Infectologista e mestra em Saúde Pública pela Universidade Johns Hopkins, dos Estados Unidos, Luana foi convocada a prestar depoimento para explicar as razões pelas quais não permaneceu no ministério. Após a indicação da médica, reportagens passaram a mostrar posições expressadas por ela, contrárias ao uso de remédios ineficazes para a Covid e defendidos por Jair Bolsonaro, como a cloroquina.

Para a médica infectologista, defender o tratamento com cloroquina é algo que gera uma falsa sensação de segurança na população, contribuindo para o aumento de casos. Ela afirmou, por exemplo, que a utilização da cloroquina é responsável pelo aumento de 77% no risco de óbitos em pacientes com a doença. “Eu considero natural que lá no começo da pandemia a gente tenha insistido em algo que não tem realmente valor”, disse, completando que a cloroquina já foi descartada por “estudos científicos sólidos” de instituições renomadas do mundo inteiro.

Questionada se era contra a autonomia dada aos médicos pelo Ministério da Saúde, permitindo que eles receitem medicamentos para o tratamento precoce da doença causada pelo novo coronavírus, Luana afirmou que os profissionais de saúde podem sugerir os remédios, mas também precisam assumir a responsabilidade por eventuais problemas. Para Araújo, “autonomia médica não é licença para experimentação”.

Ela defende que médicos que utilizam remédios sem comprovação científica contra a covid, como a cloroquina, não podem usar a lógica de “se eu prescrevo e a pessoa se salva, eu digo que sou o máximo, mas se ela morre, foi Deus que quis”. A médica disse ainda que, se o “kit covid” fosse eficiente, o país não teria os atuais números.

Ameaças

Conforme relatou à CPI, Luana Araújo e outros infectologistas sofrem diversas ameaças desde o início da pandemia. A médica disse ter recebido recados que diziam: “Não saiam de casa”.

“Eventuais ameaças que eu tenha sofrido foram sempre ligadas à questão desse pseudo-tratamento precoce ou relativas às medidas não-farmacológicas, que é um outro pilar que não tem razão de ser questionado”, disse a médica aos senadores. Luana Araújo disse, porém, não ter identificado grupos específicos dos quais os ataques teriam partido.

“Sobre ameaças, portanto, eu recebi várias: antes dessa história toda, bastante. Durante, eu realmente não prestei atenção em mais nada, não entrei em mídia social, não fiz nada disso. Então, a mim não chegou nada”, disse.

“Depois disso [da saída da secretaria], já tentaram divulgar meu endereço na internet, já tentaram dizer que eu teria ligações com isso e com aquilo. Eu não tenho. Então, fica difícil”, afirmou.

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