Uma médica que atua no Hospital Municipal da Mulher e Maternidade Célia Câmara, em Goiânia, virou alvo de uma representação no Ministério Público Federal (MPF) após pedir em um grupo composto por outros profissionais e por estagiários da unidade que quem estivesse a trabalho neste fim de semana, quando acontecem as eleições, não desse “alta para ninguém”, por ser a “maioria petista”.

Procurada pela reportagem, a obstetra se referiu à fala como “uma brincadeira feita em um grupo privado”.

Em nota, o hospital afirmou que as falas são de caráter pessoal e não representam a instituição. Informou ainda que irá apurar o caso e poderá adotar medidas cabíveis. Leia a nota na íntegra ao final da matéria.

O Jornal Opção teve acesso à conversa ocorrida na última sexta-feira, 2, no grupo que, conforme admitido pela própria médica, tem alunos de medicina que cumprem estágio na maternidade.

Após enviar várias “figurinhas” com conteúdo crítico ao PT e ao presidente Lula da Silva, candidato à reeleição, a médica obstetra afirma que quem votasse 22, número do candidato a presidente Flávio Bolsonaro, no domingo “tiraria 10 no rodízio”, se referindo ao período obrigatório de atendimentos que o médico em formação cumpre na unidade.

A mensagem vem acompanhada de risadas de outro médicos. Um outro profissional ainda emenda dizendo que “petistas seriam exorcizados”. Logo depois, a médica escreve: “Boa sexta a todos. Quem estiver na enfermaria sábado e domingo, não dar alta pra ninguém, a maioria é petista”.

Questionada, a médica afirmou que as falas foram feitas em tom de brincadeira e que “jamais daria nota a alguém com base em seu voto, até porque o voto é secreto”.

Após receber o conteúdo da conversa, o advogado Alan Henrique Marques enviou ao MPF uma representação por crime eleitoral contra a médica. Na manifestação, o jurista afirma que a fala em questão “configura abuso de poder e crime eleitoral, pois utiliza a estrutura de um hospital público” para coagir e intimidar, além de “impedir a locomoção de eleitores”.

“No momento que nós estamos vivendo, numa eleição polarizada ao ponto que está, uma fala assim, e depois vir a público dizer que é ‘brincadeira, é inadmissível. É subordinar as pessoas que precisam de um serviço público a um espectro político”, afirmou o advogado.

O Jornal Opção também entrou em contato com a Maternidade Célia Câmara, que declarou o que segue:

“NOTA OFICIAL

O Hospital Municipal da Mulher e Maternidade Célia Câmara informa que não adota posicionamento político-partidário e pauta sua atuação exclusivamente pelos princípios que regem a assistência pública à saúde, pela ética profissional e pelos critérios técnicos e assistenciais aplicáveis a cada paciente.

As manifestações mencionadas na solicitação encaminhada pela imprensa ocorreram em grupo interno e privado de profissionais médicos e constituem manifestações de caráter pessoal de seus participantes, não representando, em nenhuma hipótese, posicionamento da Administração do Hospital ou da instituição responsável pela gestão da unidade.

O Hospital ressalta, ainda, que manifestações ou preferências políticas de caráter pessoal não se confundem com as condutas médicas e assistenciais adotadas na unidade. Decisões relativas à internação, permanência hospitalar e alta devem observar exclusivamente critérios clínicos, técnicos, éticos e de segurança do paciente, independentemente de qualquer convicção política, ideológica, religiosa ou de outra natureza.

Diante das informações recebidas, a Administração adotará os procedimentos internos apropriados para apuração dos fatos e de seu contexto, assegurados o contraditório, a adequada instrução e a observância das normas institucionais e profissionais aplicáveis. Caso sejam constatadas condutas incompatíveis com essas normas, serão adotadas as medidas cabíveis.

O Hospital reafirma seu compromisso com uma assistência impessoal, humanizada, ética e tecnicamente orientada, garantindo tratamento isonômico a todos os usuários do Sistema Único de Saúde.

Hospital Municipal da Mulher e Maternidade Célia Câmara”

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