Mau cheiro e infestação de pragas: Casa da Acolhida Cidadã segue sendo cenário de horrores

Moradores e funcionários relatam em detalhes situação de abandono da Casa  gerida pela Prefeitura de Goiânia, local que recebe pessoas em situação de rua

Foto: Fábio Costa/ Jornal Opção

Paredes descascadas, mau cheiro, infestação de pragas e banheiros em condições insalubres: esse é o cenário descrito por moradores da Casa da Acolhida Cidadã, no setor Campinas. O local, gerido pela Secretária Municipal de Assistência Social (Semas), é definido por um recém-chegado como “pior que o sistema prisional”. A instituição faz parte das políticas de assistência social desenvolvidas pelo município, amparadas na Política Nacional para a População em Situação de Rua.

Há um mês, o relator da Comissão Especial de Inquérito (CEI) que investiga irregularidades na Semas, Anselmo Pereira (PSDB), afirmou que iria pedir o fechamento da Casa, amparado pela perplexidade da então situação vivida por usuários. Entretanto, um mês após a declaração, usuários e funcionários confirmaram ao Jornal Opção não ter havido movimentações da gestão pública em sanar os graves problemas vividos por eles diariamente.

Com incertezas sobre o futuro do local, a gestão da pasta indica que o atual local passará por reforma e pode posteriormente mudar de endereço. Entretanto não existe data para ambas as ações e a perspectiva dos usuários é de que a situação deve se manter a mesma.

À mercê do assistencialismo

Vindo do interior do Rio de Janeiro há dois meses, o morador que identificaremos aqui como Antônio Oliveira (nome fictício), afirma que quando chegou à capital goiana na busca por trabalho, acabou frustrado quando não encontrou um local que o empregasse. Sem familiares na cidade e sem condições de retorno, Antônio conta que se viu em situação de rua e precisou procurar ajuda no poder público.

A opção oferecida ao carioca foi ser alojado na Casa da Acolhida Cidadã. Sem perder o tom de gratidão pela vaga, Antônio conta que encontrou um local insalubre e afirma que já na sua primeira noite dividiu a cama com incontáveis percevejos. Ainda entre os apontamentos do morador, só é possível utilizar o vaso sanitário em pé, dada a situação precária de higiene dos banheiros.

Foto: Fábio Costa/ Jornal Opção

Outro morador ouvido pela reportagem, que identificaremos aqui como Pedro Souza (nome fictício), veio do interior do Estado, Minaçu, também em busca de emprego. Garçom há cinco anos, como gosta de destacar, Pedro afirma que espera retornar para sua cidade o mais rápido possível, para isso espera finalizar sua documentação, perdida por ele durante um assalto.

Sobre a situação da Casa, Pedro descreve as refeições servidas diariamente. Segundo ele, o café da manhã oferecido na última semana se restringiu a café preto. No almoço, além do fraco cardápio composto por arroz, feijão e carne moída, Pedro diz que é comum a quantidade total cozinhada não conseguir atender os atuais 200 moradores. “Na última foram nove pessoas que ficaram sem comer, fiquei na dúvida se foi por falta de comida ou por calculo errado”, afirma Pedro.

Foto: reprodução

Casa 2

Inaugurada em janeiro deste ano, a Casa da Acolhida II, no setor Leste Universitário, é de espantável contraste com a filial de Campinas. O local, que diferente da primeira, aloja apenas famílias, ganhou estrutura ampla que por hora, se mantém.

Por lá, funcionários que pediram para não se identificar, relatam que os primeiros seis meses de funcionamento foi de um pesado jogo de cintura da gestão, que busca em doações e parcerias para sustentar a manutenção da Casa.

O que diz a Semas

Em resposta à reportagem, o secretário da pasta, Mizair Lemes, afirma que a maior parte do problemas de estruturas que são apontados é fruto de ação dos próprios usuários. Segundo ele, a Casa 1 recebe um público diverso e chega a abrigar muitos dependentes químicos, que segundo ele, depredam e furtam o local.

Sobre a infestação de pragas que incluem baratas e percevejos o gestor diz que a instituição busca a solução para o problema e que parte dele é resultado da higiene pessoal de alguns moradores.

Já sobre as reclamações quanto a qualidade da comida e dificuldades financeiras, Mizair afirma que a situação se dá pela dinâmica de público flutuante que gere a Casa. “Como a gestão depende de processos licitatórios, você pensa em 100 e chega orçamento para 100 e o público da Casa chega a 180 um mês depois”, explica o gestor.

O secretário da Semas destaca que a pasta passa por reestruturação. “Nesta semana chega dez novos carros, 120 computadores para as unidades da secretarias, além de materiais de construção. Acreditamos que até o final do ano a Semas estará em pleno atendimento. O social tem uma demanda grande, mas estamos trabalhando com planejamento”.

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