Marina presidente é uma ameaça ao agronegócio goiano?

 Jornal Opção foi atrás de produtores e representantes do agronegócio em Goiás para saber como o setor está reagindo à possibilidade de uma ambientalista chefiar o país

Foto: Fernando Leito/Jornal Opção

Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

A entrada definitiva da ex-senadora Marina Silva (PSB-Rede) na corrida presidencial provocou mudanças inesperadas no cenário eleitoral para este ano. Enquanto os presidenciáveis Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB) correm para não ficar para trás (o tucano já está), Marina enfrenta dificuldades em explicar possíveis incongruências quanto ao seu discurso por uma “nova política”. A maior delas, com certeza, envolve o setor do agronegócio.

Ambientalista de carteirinha, a candidata divide a chapa pessebista com o vice Beto Albuquerque, tido como elo entre a ex-senadora e os representantes do setor. Mais do que isso, Beto também representará a coligação nos estados em que PSB e Rede não possuem interesses em comum, papel assumido anteriormente pelo então cabeça de chapa, Eduardo Campos. “O PSB mantém as suas alianças, o Beto representará o PSB com essas alianças e eu estarei com os candidatos do PSB a deputado estadual e federal. Essa é a construção que nós fizemos e é o que está mantido”, defendeu a ex-ministra em entrevista recente.

Acontece que as diferenças ideológicas com o vice tendem a prejudicar Marina e sua candidatura. A questão foi levantada durante entrevista da presidenciável ao Jornal Nacional, na última quarta-feira (27). Na ocasião, Willian Bonner destacou as divergências entre os dois em questões caras para ela, como a produção da soja transgênica e a utilização de células-tronco em pesquisas. A ex-senadora, no entanto, parece não se amedrontar. Ao afirmar que a “nova política” sabe convergir as diferenças, a ambientalista tratou logo de destacar aquilo que a aproximaria de seu aliado. “Trabalhamos juntos no Congresso Nacional em diversas questões, como na aprovação da Lei da Mata Atlântica”, disse, pouco antes de encerrar a entrevista.

É com esse mesmo discurso, o da “convergência de diferenças”, que Marina pretende levar adiante sua relação com os representantes do agronegócio. Ao assegurar que o setor não é “homogêneo”, ela garante não acreditar que os produtores rurais brasileiros “reivindiquem produzir sem as preocupações com a agenda ambiental e social”.  A candidata enfatiza a intenção de promover o desenvolvimento tecnológico na área rural, de modo a assegurar aumento de produtividade com menos exploração de recursos naturais.

Até então, o discurso da presidenciável tem sido mantido. Em entrevista à Agência Efe, o presidente da Associação Brasileira do Agrenegócio (Abag), Luiz Carlos Correia Carvalho, disse acreditar que os compromissos firmados entre Eduardo Campos e o setor agropecuário serão mantidos por Marina. O dirigente fazia referência às realizações de vários eventos do setor que foram feitos com a presença de Campos a fim de firmar uma agenda em comum. “Entendemos que formalmente esses compromissos do candidato e da sua vice estão mantidos com ela como cabeça de chapa. Portanto, os aspectos macros principais estão mantidos”, destacou Luiz Carlos.

Divergências

Com esse cenário de incertezas, o Jornal Opção Online foi atrás de produtores rurais e representantes do agronegócio em Goiás para saber como o setor está reagindo à possibilidade de uma ambientalista chefiar o país. Antes de entrar nesse mérito, no entanto, é necessário apontar a relevância indiscutível que o agronegócio apresenta para a economia nacional e, especificamente, para o Estado goiano.

No último ano, entre os meses de janeiro e setembro, tendo o agronegócio como carro-chefe, Goiás obteve o melhor crescimento registrado entre todas as unidades federativas, com um incremento de 7,68% em seu Produto Interno Bruto (PIB). Para se ter uma ideia, no período compreendido, o setor respondeu por mais de 75% das exportações goianas e gerou mais de 60 mil empregos.

É justamente essa produtividade — que torna o Estado de Goiás competitivo em relação a outros mercados — que pode estar em risco caso Marina ganhe as eleições presidenciais. Ao menos é o que afirma o candidato à Câmara Federal e ex-presidente da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg), José Mário Schreiner (PSD). Em entrevista, ele avaliou que a ex-senadora ainda mantém preconceitos contra o setor. “Desde a época em que ela foi ministra do Meio Ambiente, ela sempre demonstrou não reconhecer o agronegócio como o único negócio que dá certo no Brasil”, disse.

Schreiner também vê com desconfiança o fato de Marina se “apropriar” das relações que seu vice, Beto Albuquerque, possui com o setor a fim de uma suposta “aproximação”. “Ter um vice-presidente na chapa  que compartilhe pautas com o agronegócio é importante, mas sabemos que vice nem sempre tem a influência necessária”, criticou.

Em contrapartida, Marina tem argumentado que sua imagem diante do agronegócio tem sido distorcida propositalmente, a fim de parecer contraditória quanto ao assunto. Para o senatoriável Ronaldo Caiado (Dem), no entanto, a ex-senadora permanece indisposta para com o setor rural e garante que, caso eleita, a pessebista fará com que a agricultura brasileira deixe de ser competitiva e moderna.

Antigo opositor dos ideais políticos defendidos por Marina, o democrata também comentou sobre os resultados positivos que a ex-senadora tem angariado em pesquisas eleitorais recentemente divulgadas. “Eu acredito que essas pesquisas dela são de momento. Não vai durar”, avaliou.

Deputado federal e agropecuarista, Roberto Balestra (PP) também questiona as intenções da presidenciável em relação ao setor. Para ele, o anseio do produtor rural brasileiro é que o agronegócio continue sendo “o carro-chefe da economia brasileira”. “O que eu digo é que o produtor está muito atento às atitudes dos presidenciáveis, e, como no passado as manifestações da Marina foram muito contundentes, ela assustou o agronegócio.”

Para o ex-deputado e produtor rural Wagner Guimarães (PMDB), no entanto, Marina não só não representa ameaças ao setor do agronegócio como também figura como a melhor opção para o cargo de presidente. O agropecuarista acredita  que a ex-senadora irá manter a postura até então adotada por Eduardo Campos, e o Brasil não será prejudicado com isso. “Talvez não seja a opção ideal, mas a melhor que temos. Chegou o momento de ruptura. Sabemos que com os outros não vamos ter nada. Acredito em sua seriedade e estou de saco cheio de discurso político. Temos que reconhecer que ela é uma vencedora”, finalizou.

Divergências à parte, não se pode negar que Marina Silva, ao defender a “convergência de diferenças”, compartilha, ao menos na teoria, da opinião dos produtores rurais. Durante entrevistas ao Jornal Opção Online, todos consideraram ser possível manter a produção rural competitiva e moderna e, ao mesmo tempo, aliada às questões sociais e ambientais. “Eu acredito que a pauta ambiental é extremamente importante e sempre pregamos isso. Estamos preocupados é com os preconceitos que Marina ainda aparenta possuir, mas, uma coisa é fato, esta convergência é muito importante e ninguém vai ignorá-la”, apregoou o ex-presidente da Faeg.

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Rita Guedes

Marina sendo atacada por todos os lados, Marina 40 essa sim merece meu voto. Pelo menos tem opinião própria sendo julgada ou não.

Felippe Lenci

Até candidato do PMDB afirmando que Marina é guerreira e merece ser presidente. rumo a vitória #Marina40

Fernando

“Marina Pelo menos tem opinião própria sendo julgada ou não.”

Opinião própria não, “opiniões próprias”. Opiniões dos outros, ops, já mudou de opinião, opa! “esqueçam a minha opinião anterior, agora já tenho outra”, pra falar a verdade, “acho que essa outra opinião é melhor que a outra”…