Mais uma viagem à Lua. Lá vai a Artemis II.
08 abril 2026 às 19h52

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Ycarim Melgaço
Professor e escritor, autor de “História das Viagens e do Turismo” (entre outros). Instagram: @ycarim
No Olimpo, os deuses dividiam o mesmo teto, mas nunca os mesmos propósitos. Ártemis, deusa da Lua, da caça e do território selvagem, era irmã gêmea de Apolo, deus do Sol, da razão e da cidade. Dois lados de uma mesma moeda: ele representava o que já fora conquistado; ela, o que ainda restava explorar. Mas havia outro irmão naquele panteão, Ares, o deus da guerra bruta, do sangue derramado sem estratégia. Os três, filhos de Zeus, conviviam sob o mesmo céu. Exatamente como convivem, hoje, no mesmo orçamento dos Estados Unidos, a NASA e o Pentágono.
É nessa dualidade que se inscreve a missão Artemis II. A cápsula que transporta os quatro astronautas se chama Orion, o único caçador que Ártemis admitiu ao seu lado e que, morto por um ardil do próprio irmão enciumado, ela transformou em constelação. A NASA costura mitologia com engenharia: a irmã retoma o que o irmão começou nos anos 60, e o companheiro que virou estrela agora é o veículo que nos devolve ao céu.
O dia era 6 de abril, o ano, 2026, a Orion contornou o lado oculto da Lua. Por quarenta minutos, os astronautas Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e o canadense Jeremy Hansen ficaram sem contato com a Terra, sozinhos com o silêncio do cosmos. Antes de desaparecer atrás da Lua, Christina Koch transmitiu: “Terra, nós amamos vocês. Nos vemos do outro lado.” Quando reapareceram, haviam alcançado 406.789 km de distância,6.616 Km além do recorde da Apollo 13, estabelecido em 1970.
Nenhum ser humano jamais esteve tão longe de casa. Viram um nascer da Terra, um eclipse solar com a coroa do Sol brilhando ao redor da borda lunar, e observaram 35 alvos científicos na superfície, incluindo os locais de pouso das Apollo 12 e 14.
Mas enquanto a Orion alcançava o ponto mais distante já percorrido pela espécie humana, aqui na Terra, mísseis cruzavam os céus do Golfo Pérsico. Desde 28 de fevereiro, os Estados Unidos e Israel bombardeiam o Irã. O custo, segundo o próprio Pentágono, já ultrapassava 12 bilhões de dólares em meados de março algo próximo a 1 bilhão de dólares por dia. A administração Trump prepara um pedido de mais 200 bilhões ao contribuinte americano para sustentar a ofensiva. Ares, o deus da guerra, continua devorando recursos como Cronos devorava os próprios filhos.
E é aqui que a Titanomaquia, a guerra primordial entre os Titãs e os deuses olímpicos, se torna mais do que metáfora. Na mitologia, cada geração destruía a anterior para tomar o poder: Cronos castrou Urano; Zeus derrubou Cronos. A potência que hoje alcança as estrelas é a mesma que devora suas próprias finanças numa guerra cujo objetivo ninguém consegue definir com clareza. O mesmo Tesouro que financia o foguete SLS financia os B-2 e os F-35. A mesma nação que celebra a primeira mulher e o primeiro homem negro a sobrevoar a Lua gasta fortunas para fechar o Estreito de Ormuz e desestabilizar uma região inteira.
A missão Artemis II não é apenas um feito de engenharia; é também uma correção histórica. Ao levar Christina Koch e Victor Glover à órbita lunar, os Estados Unidos tentam dizer ao mundo que o espaço, finalmente, deixou de ser território exclusivo de homens brancos em trajes de piloto militar. Ártemis, a deusa virgem, independente e protetora de mulheres, empresta mais do que o nome: empresta o símbolo.
Mas há um paradoxo que a mitologia também ilumina. As duas guerras, a do Golfo e a da Lua, se encontram num ponto preciso: energia. No subsolo do Oriente Médio, o petróleo que move a economia global e alimenta conflitos há mais de um século. Na superfície lunar, o hélio-3, um isótopo raro na Terra, mas abundante na Lua, estimado em cerca de um milhão de toneladas, capaz de alimentar reatores de fusão nuclear e, teoricamente, substituir os combustíveis fósseis. Dois combustíveis, duas guerras, uma mesma obsessão.
E enquanto os americanos dividem seu orçamento entre Ártemis e Ares, a China segue um caminho diferente. Prepara a nave Mengzhou, o foguete Longa Marcha 10, a sonda Chang’e 7 e uma base lunar conjunta com a Rússia prevista para 2030, e um detalhe, tudo sem disparar um único míssil. Pequim faz a corrida espacial pelo soft power, enquanto Washington ainda insiste no hard power, usando bombas e mísseis. Dois modelos, duas estratégias e o resultado ainda está por se definir.
Não se pode esquecer, aliás, o vexame recente da Boeing: os astronautas Butch Wilmore e Sunita Williams, que deveriam ter passado oito dias na Estação Espacial Internacional, ficaram quase 300 dias presos em órbita por falhas na cápsula Starliner e só voltaram resgatados pela SpaceX, a concorrente, sim, a Elon. A maior fabricante aeroespacial do planeta, fornecedora histórica do Pentágono, não conseguiu trazer dois astronautas de volta. De volta a Grécia dos mitos, Prometeu, que roubou o fogo dos deuses, também foi punido por sua arrogância.
No fim das contas, a Artemis II revela o que os gregos sempre souberam: os deuses convivem com seus demônios. Avançamos muito em quem deixamos entrar na nave, mas mudamos pouco nos motivos que nos fazem lançá-la. A viagem mais distante da história humana acontece enquanto a humanidade, aqui embaixo, continua travando suas velhas batalhas por território, petróleo e poder.
A Lua segue sendo o nosso espelho: bela, distante e disputada. Reflete tanto a nossa capacidade de explorar quanto a nossa persistente obsessão em conquistar. E nós, cronistas de viagens, registramos esta que talvez seja a mais extraordinária e contraditória de todas as viagens, uma viagem que nos leva ao ponto mais distante do planeta, mas não nos afasta um centímetro das nossas próprias contradições e ambições aqui na Terra.

