Um levantamento do Sebrae, com base em dados da Receita Federal, revelou que mais de 2 milhões de empresas lideradas por mulheres foram abertas em 2025. No total, o país registrou 4,96 milhões de novos microempreendedores individuais, microempresas e empresas de pequeno porte. As mulheres representaram cerca de 42% desse universo, superando em mais de 320 mil o volume de 2024. Entre os pequenos negócios, destacam-se as microempreendedoras individuais (MEIs), responsáveis por 1,6 milhão de novos CNPJs.

Na distribuição por setores, o protagonismo feminino aparece em diferentes áreas da economia: 45% das novas empresas na indústria, 44% nos serviços e 43% no comércio. Já na construção civil, a participação feminina foi de apenas 11%. No recorte regional, o Rio de Janeiro lidera com 44,3% dos registros, seguido por Rio Grande do Sul (42,9%) e São Paulo (42,8%). A média nacional ficou em 41,7%.

Em entrevista ao Jornal Opção, a advogada especialista em direito empresarial e tributário, Maria Helena Corceli, destacou que o aumento do número de empreendedoras está diretamente ligado à instabilidade econômica, à inflação e às dificuldades de inserção no mercado de trabalho.

Advogada especialista em direito empresarial e tributário, Maria Helena Corceli | Foto: Divulgação

Segundo ela, muitas mulheres recorrem ao chamado “empreendedorismo por sobrevivência”, buscando flexibilidade, autonomia e independência financeira. Segundo ela, o negócio próprio é visto como oportunidade de superar o teto salarial imposto pelo mercado formal e conciliar carreira, filhos e tarefas domésticas.

Maria Helena comenta que apesar dos avanços, os desafios são grandes. A ausência de planejamento estratégico leva muitas empreendedoras à informalidade, sem CNPJ ou contribuição previdenciária. Outras enfrentam problemas por desconhecerem as obrigações do MEI, acumulando dívidas que podem resultar em bloqueio de bens.

Maria Helena aponta também para a falta de preparo em gestão financeira e de pessoas também é recorrente, assim como a dificuldade de lidar com a sazonalidade do faturamento. Do ponto de vista jurídico e tributário, ela ressalta que, embora a abertura de empresas esteja mais ágil, o encerramento continua burocrático.

Ela explica que um dos obstáculos é o estigma de gênero. Em setores dominados por homens, como agronegócio e construção civil, mulheres ainda enfrentam preconceitos e questionamentos sobre sua capacidade de conciliar família e negócios. “Não é porque ela saiu do ambiente CLT que o preconceito desaparece. Ainda existe esse desafio. Mas, por outro lado, a competência feminina é reconhecida e a produtividade é muito maior”, afirma.

Para a especialista, o sucesso depende de planejamento estratégico, apoio jurídico e contábil. Ela também destaca a importância da união entre mulheres empreendedoras, defendendo que elas consumam de outras mulheres para fortalecer o ecossistema. Comunidades femininas e programas de apoio, como os oferecidos pelo Sebrae, são fundamentais para criar uma rede de fortalecimento coletivo.

Maria Helena lembra ainda das cobranças sociais constantes, que variam conforme a idade ou condição familiar da mulher. “Se é mãe, dizem que vai se ausentar. Se não tem filhos, é cobrada por isso. A cobrança nunca para”, observa.

Para ela, o essencial é desenvolver estratégias de reação sem cair na defensiva, mostrando competência por meio de produtividade, proatividade e visão de detalhes.

A advogada ressalta que muitas mulheres se destacam em áreas como consultoria e gestão, onde demonstram vocação para liderança. No entanto, o etarismo soma-se às cobranças de gênero, impondo novos desafios à medida que a mulher amadurece. “Não há como zerar os riscos do empreendedorismo, mas é possível mitigá-los com consciência e estratégia”, aponta.

Impacto social e econômico

O empreendedorismo feminino, segundo Corceli, tem papel decisivo na transformação social e na geração de renda. “As mulheres são maioria. Quanto mais empreendendo, mais famílias são alimentadas por esse trabalho. Muitas famílias brasileiras são governadas por mulheres, sem a figura paterna. Esse protagonismo feminino fortalece a economia e abre oportunidades para outras mulheres”, explica.

Ela lembra que, historicamente, as mulheres foram silenciadas e vistas como acessório do homem. “Hoje vemos mulheres com independência e liderança, uma mudança radical que impacta também as próximas gerações”, afirma.

Influência na cultura empresarial

O crescimento das empresas lideradas por mulheres também influencia a cultura empresarial. “Quando colocamos mulheres à frente de negócios, temos soluções pensadas para dores femininas. Muitos produtos criados por homens para mulheres não atendem 100% das necessidades. Uma mulher empreendedora traz um olhar mais humanizado e personalizado”, afirma.

Ela cita exemplos em áreas como arquitetura e serviços voltados para o lar, em que o consumo é majoritariamente feminino. “A mulher exerce um poder de influência muito grande, e isso se reflete na forma como os negócios se adaptam”, pontua.

Para Maria Helena Corceli, o empreendedorismo feminino é mais do que uma alternativa econômica, é uma mudança cultural profunda. “A mulher foi criada para estar em segundo plano, cuidando e auxiliando. Mas, ao empreender, ela assume protagonismo e transforma o mercado. Esse movimento não só fortalece a economia, mas também redefine o papel da mulher na sociedade”, conclui.

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