O cachorro que comoveu Goiânia ao permanecer cerca de duas semanas na porta da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Jardim América esperando pelo tutor, que morreu após dar entrada na unidade, começa a deixar para trás não apenas a antiga rotina. O próprio nome pelo qual ficou conhecido ganhou uma versão mais íntima: Dipirona agora também atende por Dipi.

O apelido surgiu dentro da nova casa. Após ser adotado por Tânia Vieira de Mello, de 38 anos, o cachorro passou a ser chamado pela família de “Dipi”, uma abreviação carinhosa de Dipirona. A mudança, porém, não significa que o nome responsável por tornar sua história conhecida será abandonado.

“Continuamos chamando de Dipirona ou Dipi. Agora ele já atende”, contou Tânia ao Jornal Opção.

A escolha preserva uma espécie de elo entre as duas fases da vida do animal. Dipirona não era o nome dado pelo antigo tutor. O apelido surgiu justamente durante os dias em que o cachorro permaneceu na UPA Jardim América, cercado por pacientes e funcionários enquanto esperava por alguém que não retornaria.

Família tentou descobrir o verdadeiro nome

Antes de decidir manter Dipirona e adotar Dipi como apelido, a nova tutora tentou descobrir se o cachorro poderia revelar, de alguma maneira, como era chamado anteriormente.

Sem informações sobre o antigo tutor e sem saber o nome original do animal, Tânia começou a testar nomes comuns de cachorros para observar se algum provocaria uma reação.

A tentativa não funcionou.

“Chamei por vários nomes comuns de cachorro, mas ele não respondeu a nenhum”, relata.

Diante da falta de resposta, a família decidiu não substituir o nome que já havia acompanhado o animal desde a UPA.

Com a convivência, o cachorro começou a reconhecer tanto Dipirona quanto Dipi.

Mas por que Dipirona?

A origem do nome está diretamente ligada ao local onde a história começou.

Dipirona chegou à UPA Jardim América acompanhando o antigo tutor, um idoso em situação de rua que foi levado de ambulância à unidade após passar mal. O homem morreu depois de dar entrada no serviço de saúde.

O cachorro, no entanto, permaneceu nas proximidades da UPA.

Sem compreender a ausência do companheiro, ele passou cerca de duas semanas na porta da unidade. Durante esse período, recebeu água, comida e cuidados de funcionários, pacientes e acompanhantes.

Como ninguém conhecia seu nome verdadeiro, os frequentadores decidiram improvisar um apelido. Por estar em uma unidade de saúde, surgiu “Dipirona”, referência a um dos medicamentos mais conhecidos entre os brasileiros.

“Todo mundo gosta dele. Ele é super carinhoso”, contou Sandra Barbosa, paciente da UPA, ao Jornal Opção, quando a história foi revelada.

O nome pegou.

Dipirona virou parte da história

A reportagem sobre o cachorro esperando pelo tutor despertou o interesse de diferentes pessoas em adotá-lo. Entre elas estava Tânia, que conheceu o caso por meio do Jornal Opção e pediu ao marido que fosse até a unidade para buscá-lo.

Mesmo depois da adoção, abandonar completamente o nome Dipirona significaria deixar para trás uma identificação que nasceu justamente no período em que o animal passou a ser cuidado coletivamente.

Por isso, a família optou por uma adaptação, e não por uma substituição.

Dipirona continua sendo Dipirona. Dentro de casa, porém, ganhou a intimidade de um apelido: Dipi.

Do nome improvisado ao chamado da nova casa

A diferença pode parecer pequena, mas marca uma mudança significativa na história do cachorro.

Na UPA, “Dipirona” nasceu da necessidade de dar um nome ao animal cujo passado era praticamente desconhecido. Agora, “Dipi” surgiu da convivência diária.

O cachorro já responde quando é chamado e demonstra estar adaptado à nova rotina. Segundo Tânia, a timidez apresentada nos primeiros momentos desapareceu rapidamente.

“Ele chegou meio tímido porque era tudo desconhecido para ele. Mas logo começou a farejar a casa inteira, conhecer os cômodos e entender onde estava. A adaptação foi muito rápida. Hoje parece que sempre morou aqui.”

A nova fase também revelou um cachorro jovem e brincalhão. A família estima que ele tenha entre dois e três anos. Dipirona — ou simplesmente Dipi — já derrubou cesto de roupas, rasgou almofadas e espalhou brinquedos pela casa.

Para Tânia, o comportamento mostra que ele se sente seguro no ambiente.

“É bagunceiro, mas isso mostra que está feliz e seguro.”

Um nome que preserva a memória do antigo tutor

Outro detalhe descoberto pela família ajudou a reconstruir um pouco da relação de Dipirona com o antigo companheiro.

Tânia imaginava inicialmente que encontraria um cachorro debilitado pelas condições enfrentadas nas ruas. Ao levá-lo para casa e dar o primeiro banho, percebeu o contrário.

“Ele estava gordinho, bonito e muito bem cuidado. Isso mostra que o antigo tutor realmente cuidava dele com muito carinho.”

Sem saber o nome original dado pelo homem, a família encontrou em “Dipirona” uma forma de preservar a identidade que o cachorro ganhou depois da perda.

Agora, quando alguém chama por Dipi e ele responde, o apelido representa uma nova etapa de uma história que começou na porta de uma UPA — mas sem apagar o nome pelo qual Goiânia conheceu o cachorro que continuou esperando por seu tutor.

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