Katia Maria: “PT dialoga com todas siglas partidárias que acenam para o espírito progressista e democrático”

Presidente regional do PT comentou planos para formação de frente de esquerda capaz de eleger Lula de volta à presidência

Presidente do PT em Goiás, Katia Maria é também a primeira mulher e a mais jovem a assumir o comando do diretório regional do partido. Ao longo da carreira política, integrou a Secretaria Estadual de Mulheres do PT e coordenou a campanha online da presidente Dilma Rousseff em Goiás, além de ter disputado o posto de Governo do Estado, em 2018, quando conquistou 271.807 votos (um total de 9,16% dos votos válidos).

Agora, Katia é pré-candidata a deputada estadual e pretende fortalecer a bancada do PT na Assembleia Legislativa de Goiás, na intenção de dobrar a presença do partido na casa. Em entrevista ao Jornal Opção, a presidente comentou o plano nacional para eleger Lula, e como a prisão do ex-presidente ajudou a trazer quase 1.500 novas filiações para o partido, em Goiás.

Primeiro eu queria que você me explicasse essa vantagem do Lula em Goiás, considerando que a gente está num estado conservador que deu ampla vitória para o Bolsonaro. Como você explica essa vantagem do Lula aqui?

Eu acredito que estamos vivendo um momento em que a história está sendo corrigida mais cedo do que muita gente esperava, porque o que estamos vivendo hoje é fruto do lavajatismo que vivemos no Brasil. Ontem o Lula teve mais uma vitória, que foi o Dallagnol tendo que indenizar pelo PowerPoint mentiroso que ele fez. A anulação ou arquivamento de todos os processos da Lava Jato é um outro fator. Na verdade, eles macularam o resultado da eleição de 2018. Todo o processo do lavajatismo modificou o resultado eleitoral, porque tiraram do processo o primeiro colocado na pesquisa. O Lula, em 2018, liderava a pesquisa e foi preso exatamente para não poder ser candidato, tanto que depois que passou a eleição, a gente vai vendo todos os processos serem anulados.

O lavajatismo não apenas tirou o Lula da eleição, mas eles, Sérgio Moro e Dallagnol, levaram ao poder um Presidente da República que não tem o mínimo apreço pela vida. Nem pela vida das pessoas, nem pela vida do meio ambiente. Então o que nós estamos vendo acontecer no Brasil é sem precedentes na nossa história. Nós poderíamos ter atravessado a pandemia, uma crise sanitária grave, num outro contexto onde não precisaríamos ter perdido 650 mil pessoas. Nós poderíamos ter, hoje, um Presidente da República que tivesse o mínimo de sensibilidade para controlar a inflação, controlar o preço do combustível, controlar o preço da cesta básica. As pessoas estão passando muita dificuldade. Eu ando muito pelo estado de Goiás, já visitei mais de 120 cidades de novembro pra cá e não é só quem está desempregado que está em crise. O assalariado, o aposentado, quem ganha quatro, cinco salários mínimos, todos estão passando por uma crise porque a economia está descontrolada. Você vai ao supermercado hoje, você compra um litro de óleo por 12 , 13 reais, né? Como é que pode um negócio desse? Então a alta da inflação, a diminuição do poder de compra da classe trabalhadora, ajuda a somar em todo o processo de desconstrução da Lava Jato.

De um lado a gente tem a justiça sendo feita, mesmo que de forma tardia, mas vindo à luz do dia que o Lula é inocente; e do outro lado a crise pandêmica, econômica e social que o povo está vivendo. Então, as pessoas sentem que, na época do governo do presidente Lula, eles viviam muito melhor, porque podiam comprar carne, podiam comprar casa, comprar carro, viajar, ir pra universidade, e isso tudo acabou. O que nós estamos presenciando é que não foi só o pobre desempregado, a classe média, não deu conta de viajar no final do ano, porque está tudo muito caro, mexeu na vida das pessoas. De um lado a gente tem aí a verdade sendo trazida da Lava Jato, mas do outro lado a crise que se abateu no Brasil também faz as pessoas refletirem qual é o projeto que querem pro país. E isso obviamente chega ao estado de Goiás que, mesmo sendo um estado muito conservador, coloca o Lula como o primeiro colocado nas pesquisas. As pessoas em Goiás também estão sofrendo, as pessoas em Goiás estão comendo menos, as pessoas em Goiás estão passando dificuldade, as pessoas em Goiás estão no desemprego também. Esse motivo faz com que as pessoas percebam que na época do presidente Lula, no governo do Partido dos Trabalhadores e das Trabalhadoras, a vida do povo era muito melhor.

Esse favoritismo do Lula em Goiás tem feito o número de filiações ao partido crescer?

Na verdade, esse advento vem antes desse favoritismo. Com a prisão do presidente Lula, em Curitiba, eu recebi vários pedidos de filiação e nós recebemos muitas pessoas que falavam ‘Olha, Katia, sinto que agora é a hora de eu dar a minha contribuição ao PT’. Vou te dar um exemplo que achei extremamente simbólico, que foi lá em Fazenda Nova. Duas pessoas foram na reunião e pediram para se afiliar, logo depois da prisão do presidente Lula. E eu sempre gosto de perguntar para as pessoas, ‘Por que você está se filiando ao Partido dos Trabalhadores e das Trabalhadoras?’ e dois relatos, um de uma senhora, dona de casa, que dizia: ‘Eu sou da igreja, vejo as injustiças que estão sendo cometidas. Eu sei que levar pão, levar a comida à mesa das pessoas é um ato de cristão, e o Lula fez isso ele está sendo penalizado. Então é minha tarefa, agora que nós estamos na Campanha da Fraternidade, eu ter que dar a minha contribuição nesse momento difícil do PT’.

Um outro relato que me deixou extremamente sensibilizada, pelo golpe da presidenta Dilma, foi de um pequeno agricultor familiar que disse: ‘Eu era pedreiro, não tinha nada antes do governo do Partido dos Trabalhadores. Consegui juntar dinheiro quando veio o boom da construção civil, financiei a minha parcela de terra e hoje eu tenho uma propriedade que é minha. E eu continuei trabalhando como pedreiro e fui só melhorando de vida. Então, eu consegui ter minha terra, consegui ter minha casa, consegui ter meu carro e melhorei muito de vida. Quando veio o golpe da presidenta Dilma, eu senti que aquilo que eu tinha tido acesso a partir das políticas públicas do Partido dos Trabalhadores, não ia conseguir mais. Então corri e parcelei a minha segunda propriedade, porque vi que a Dilma ia cair e tudo aquilo que nós tínhamos conseguido com facilidade por ser um governo popular, eu não ia ter acesso mais. Então hoje eu estou pagando a minha segunda propriedade porque o governo do PT me ajudou a fazer isso. A retribuição que eu posso dar neste momento é filiar ao Partido dos Trabalhadores para fortalecer o partido neste momento de muito ataque que ele vem sofrendo.’ Desde a prisão do presidente Lula, o golpe da presidenta Dilma, muitas pessoas se filiaram ao Partido dos Trabalhadores e das Trabalhadoras. E agora que veio à tona essa questão da Lava Jato, a crise econômica, todo esse cenário que nós estamos vivendo de destruição das políticas públicas, o número aumentou de forma ainda mais significativa. Nós recebemos, só no último ano, quase 1.500 novas filiações. Em Goiânia, foram mais de 300 filiações, e isso pra nós é muito.

Esse número de 1.500 é em Goiás?

Só em Goiás. Foram mil quatrocentos e alguma coisa. A gente fica muito feliz, porque vê que o trabalho que a gente está fazendo tem surtido efeito, né? Essa andança que a gente faz pelo estado de Goiás, toda movimentação também da direção nacional, do presidente Lula com entrevistas, isso vai, de certa forma, conscientizando as pessoas e só vem pro PT aqueles que tem um pouco de consciência de classe, porque percebem a diferença de estar num governo popular.

De partidos de esquerda na ala nacional, além dos que vão se federar com o PT (PCdoB e PV), de forma geral esses partidos provavelmente vão votar no Lula também, né? Mas como fica aqui em Goiás? Vocês também pretendem montar uma frente ampla esquerda aqui?

Nós estamos trabalhando. Você colocou bem. Por exemplo, o PSB pode não ficar na federação, hoje é muito provável que ele não fique, mas já declarou apoio ao Lula, então vai estar na aliança presidencial. O PSOL junto com a Rede estão fazendo uma federação. Então vai ter a federação PT, PCdoB e PV, mas vai ter a federação PSOL e Rede, que também a tendência é apoiar o Lula. Vai ter o eco de partidos com federação ou sem federação que estarão nessa aliança, apoiando o nosso projeto à presidência da república liderado pelo Lula. Agora, em Goiás, nossa prioridade é eleger o Lula, porque é a partir da presidência da república que nós vamos garantir as mudanças que Goiás e o Brasil precisam.

E como está esse diálogo? Está dando frutos?

Ainda é cedo. Eu tenho dito que o dia 1º de abril vai dizer muito do tabuleiro político do estado de Goiás. Até lá, muita gente vai mudar de partido, tem gente que tem que renunciar o cargo, então acho que depois do dia 2 de abril é que nós vamos poder sentar e dizer quais peças se estabeleceram no jogo mesmo. A partir desse movimento, nós vamos começar a fazer uma nova etapa de rodada de negociação, mas hoje tenho conversado com todos partidos, PSOL, Patriotas. Tenho dialogado com todas as siglas partidárias que acenam para o espírito progressista e democrático na defesa de um projeto mais popular para o Brasil.

Na última vez que a gente conversou por telefone, falamos um pouco do Mendanha. Você tinha contado que tinham conversado um pouco sobre uma possível composição. Por que que não teve avanço?

Eu acho que ele é um desses casos que nós temos que esperar o dia 1º. Ele vai renunciar ao cargo de prefeito? Para qual partido ele vai? Ele vai estar em qual campo jogando? Não tem jeito da gente avançar sem saber disso, entendeu? Por isso é que no jogo você tem que ter a paciência de esperar as pedras se movimentarem, para que a gente possa tomar a decisão acertada. Mas o PT tem o nome do Professor Wolmir que nós apresentaremos durante os encontros regionais para que a gente possa, com o nome dele apresentado ao governo de Goiás, continuar essa rodada de conversas para que a gente busque ampliar esse palanque do Lula no nosso estado.

O Mendanha estava conversando muito com os partidos de esquerda, mais com essa frente progressista, tanto que conversou com você, conversou muito com o Patriota e conversa bastante com o PSB também. Como você vê esse flerte dele com o bolsonarismo de um tempo pra cá? Você acha que é uma mudança ideológica muito brusca?

Eu acho que a vida é feita de opção e ele tá tendo a oportunidade de tomar as opções dele, e eu disse isso a ele. Nós queremos montar um palanque forte aqui. O presidente Lula lidera a pesquisa em Goiás e em várias pesquisas lidera um segmento que, para ele, é importante, que é o segmento evangélico. Cada um vai estabelecer nesse tabuleiro político onde quer jogar e nós, com toda certeza, estaremos bem posicionados para fazer a defesa do presidente Lula.

Você sabe dizer se teve algum ruído no PT em Aparecida, depois dessa aproximação do Mendanha com o Bolsonaro?

Não sei te falar. Eu não tive contato com o pessoal depois disso.

O PT tem candidato para o Senado?

Não. Nós vamos discutir ainda dentro da federação, porque essa vai ser uma decisão tomada coletivamente. Nós apresentamos o nome do professor Wolmir, mas é o nome que vai ser levado à federação, ao conjunto dos partidos de oposição, para que a gente possa ampliar esse palanque. Dentro dessa estratégia, cabe aos partidos também apresentarem. Obviamente o PT tem muito bons nomes, nós tivemos a Professora Geli, tivemos o deputado Luís César Bueno, que foi candidato a Senador na eleição passada, mas nós queremos dialogar para que os outros partidos possam participar dessa chapa.

E como fica o Pedro Wilson? Porque ele é um dos nomes do partido, né? Ele vai voltar a ser candidato esse ano ou não?

Olha, para nós seria uma honra ter o professor Pedro Wilson em qualquer um desses cargos. Tanto com a chapa majoritária, quanto numa disputa proporcional. O convite está lançado, ele tem algumas questões pessoais, mas com toda certeza é um nome que agrega muito, seja como candidato ou seja como apoiador da chapa do estado de Goiás.

Ele já deu algum tipo de devolutiva se pretende?

Tem uma sinalização dele e da família de que não.

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