Senador não quis participar de jantar com presidente por acreditar num projeto político de independência

O senador Jorge Kajuru (Podemos) recusou convite para participação de um jantar promovido pelo pré-candidato e ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Entre os motivos, o senador apontou um distanciamento ético que sempre buscou aplicar na vida pública, bem como na carreira jornalística que o colocou em evidência. “Aprendi com o até hoje insubstituível Paulo Francis, no livro Diário da Corte, que jornalista e político devem ter uma regra: manter distância cética de todos os poderes”, explica.

Diante disso, Kajuru garante que esse distanciamento ocorre para que os dois lados sejam éticos, respeitando a sinceridade mesmo que não haja intimidade. Nesse sentido, defende que não precisa “puxar saco” de nenhum político e só precisa se manifestar em defesa de pessoas e situações onde há espontaneidade, nunca a troco de nada. “Se o outro lado for sério e ético, vai até preferir um parlamentar como eu, ao invés de um que vai bajular e depois aparecer envolvido em escândalos, como o do MEC”, diz. Apesar da recusa, o senador garante que não tem problema pessoal com Lula, mas, assim como nunca esteve em almoços e jantares com o presidente Jair Bolsonaro (PL), não precisa ter com um candidato e ex-presidente. Ele garante que a recusa foi apenas por uma postura profissional e ideológica, feita de forma pacífica e visando preservar sua posição de independência.

“Não existe almoço de graça, jantar de graça. No mundo de hoje, nem Jesus Cristo é de graça, precisa pagar pra intermediários. Se vou num jantar hoje, amanhã vou num almoço, depois num café da manhã, aí cria uma relação que não me deixa ser independente”, justifica. Kajuru também cita o recente caso das denúncias feitas, ao lado do deputado Elias Vaz (PSB), sobre compras do Ministério da Defesa. Segundo ele, caso houvesse uma relação de maior proximidade pessoal com o presidente, o envolvimento poderia ser diferente. “Se eu tivesse uma relação íntima, de ir na casa, eu poderia contar até dez antes de decidir entrar na denúncia ou não.”

A postura, defende o senador, não prejudica o diálogo em prol da democracia e, na verdade, abre portas para relacionamentos mais proveitosos. Ele cita, por exemplo, o nome de políticos como “Álvaro Dias, Leila do Vôlei (Leila Barros), Eduardo Girão”, dentre outros, exemplo de relacionamentos éticos e corretos. “É assim que você conquista pessoas do bem, para que tenha relações íntimas com elas, e não com as pessoas duvidosas”.

À lista de motivos, ele acrescenta ainda o local de realização do jantar como agravante para justificar sua ausência. “O jantar foi na casa de um histórico corrupto, o ex-senador Eunício [Oliveira]. Não me sentiria bem indo na mansão de um político que o Brasil inteiro vê como corrupto”, aponta. Eunício Oliveira foi investigado pelo suposto recebimento de R$ 2,1 milhões para aprovação de legislação favorável aos interesses da empreiteira Odebrecht. Em 2020, a Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu arquivar o inquérito de investigação.