Julio Casares renunciou ao cargo de presidente do São Paulo Futebol Clube nesta quarta-feira, 21, deixando oficialmente a chefia do Executivo tricolor. O agora ex-dirigente confirmou a decisão por meio de uma publicação nas redes sociais.

A renúncia ocorreu após Casares ser derrotado na votação do Conselho Deliberativo, que aprovou a abertura do processo de impeachment. Com a saída voluntária antes da assembleia geral dos associados, a reunião que poderia confirmar o afastamento definitivo do presidente foi cancelada.

Na votação do Conselho, realizada na sexta-feira anterior, 188 conselheiros se manifestaram a favor do impeachment, contra 45 votos contrários e dois em branco. O pleito foi marcado por protestos de torcedores contrários à permanência de Casares no cargo.

Com a renúncia, o vice-presidente Harry Massis Junior, de 80 anos, assume a presidência do clube até o fim do mandato, previsto para dezembro de 2026. A gestão de Julio Casares teve início em 12 de dezembro de 2020, após sua eleição para o triênio 2021–2023.

Logo no primeiro ano, o clube conquistou o Campeonato Paulista de 2021, sob o comando de Hernán Crespo, encerrando um jejum de 16 anos sem títulos estaduais. Em 2022, o São Paulo foi vice-campeão paulista e também vice da Copa Sul-Americana, já com Rogério Ceni à frente da equipe.

No fim de 2023, Casares foi reeleito para o triênio 2024–2026. No primeiro ano do novo mandato, o clube conquistou a Copa do Brasil, sob o comando de Dorival Júnior, encerrando outra longa espera por títulos nacionais.

Em 2024, venceu a Supercopa do Brasil diante do Palmeiras, com Thiago Carpini. Apesar dos títulos, a política de investimentos teve impacto financeiro relevante.

Contratações de peso, como Lucas Moura e James Rodríguez, além da recusa em negociar atletas valorizados como Pablo Maia, Welington e Rodrigo Nestor, contribuíram para o aumento da dívida do clube, que passou de R$ 635 milhões em 2021 para R$ 968 milhões em 2024.

Diante do desequilíbrio financeiro, a diretoria adotou novas práticas administrativas, incluindo a criação de um Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC). Em 2025, o desempenho esportivo abaixo do esperado, aliado à venda de jovens jogadores por valores considerados inferiores ao mercado, provocou forte desgaste da gestão junto à torcida.

No fim do ano, a repercussão de uma reportagem sobre a venda irregular de um camarote no estádio do Morumbi aprofundou a crise. Áudios atribuídos a Mara Casares e Douglas Schwartzmann indicariam a participação em um esquema para uso clandestino de um camarote durante um show da cantora Shakira, realizado em fevereiro de 2025.

Pedido de impeachment e investigações

Em 23 de dezembro, conselheiros do São Paulo protocolaram um pedido de convocação de reunião extraordinária para discutir o impeachment de Julio Casares. O requerimento contou com 57 assinaturas e foi apresentado pelo grupo de oposição Salve o Tricolor Paulista, além de membros ligados à situação.

Paralelamente à crise política, a Polícia Civil manteve investigações em andamento envolvendo o clube e o ex-presidente. Entre os pontos apurados estão depósitos em dinheiro que somariam R$ 1,5 milhão nas contas pessoais de Casares e a realização de 35 saques nas contas do São Paulo entre 2021 e 2025, totalizando cerca de R$ 11 milhões.

Carta de Casares na íntegra

“Ao longo de minha trajetória à frente da Presidência do São Paulo Futebol Clube, atuei com absoluta seriedade, firmeza, responsabilidade e compromisso com a defesa da instituição, sempre orientado pelo respeito à sua história, à sua grandeza e à sua torcida.

Nos últimos meses, o clube passou a viver um ambiente de intensa instabilidade, marcado por ataques reiterados, narrativas distorcidas e pressões externas que extrapolaram o debate institucional legítimo.

O que se iniciou como versões frágeis e boatos foi sendo reiteradamente reproduzido, amplificado e, gradativamente, tratado como verdade, mesmo sem a apresentação de fundamentos consistentes ou provas robustas.

Formou-se, assim, um contexto de grave contaminação do debate, no qual ilações passaram a ocupar o lugar dos fatos e suposições foram apresentadas como certezas, em um processo que, aos poucos, transformou versões construídas em verdades aparentes.

Não afirmo, neste momento, autoria, métodos ou responsabilidades específicas, até porque tais questões devem ser devidamente apuradas pelos órgãos competentes. Contudo, é impossível ignorar que houve articulações de bastidores, distorções deliberadas e uma trama política ardilosa, marcada por interesses, traições institucionais e expedientes incompatíveis com a história e os valores do São Paulo Futebol Clube — fatos que o tempo e a história haverão de registrar.

Esse cenário afetou profundamente a governança do clube e, de forma absolutamente inaceitável, ultrapassou os limites da esfera institucional, alcançando minha família e minha vida pessoal.

Não renunciei anteriormente porque entendi ser meu dever exercer, até o fim, o direito à ampla defesa e ao contraditório.

Enfrentei esse processo de maneira direta, presencial e com dignidade, mesmo diante de um ambiente já contaminado por narrativas previamente construídas.

Na prática, a manifestação realizada na tribuna foi o único espaço efetivo que me foi concedido para apresentar minha defesa, em um rito sumário que, ao meu juízo, restringiu a necessária produção de provas e o pleno esclarecimento dos fatos.

A decisão tomada por este Conselho encerra um processo de natureza política.

Respeito essa decisão, ainda que dela discorde, e reafirmo, com absoluta convicção, que jamais pratiquei qualquer irregularidade.

Minha renúncia não representa confissão, reconhecimento de culpa ou validação das acusações que me foram dirigidas.

Diante da continuidade desse ambiente, da necessidade de preservar minha saúde e, sobretudo, de proteger minha família de ataques e ameaças gravíssimas, bem como para evitar que essa disputa política continue a prejudicar o time de futebol e o ambiente esportivo do clube, apresento minha renúncia ao cargo de Presidente, com efeitos a partir desta data, antecipando, inclusive, o exercício do direito estatutário de aguardar a Assembleia Geral.

Faço questão de registrar que deixo um clube esportivamente estruturado, com um time competitivo, que voltou a disputar decisões, chegou a finais e conquistou títulos de grande relevância. Destaco, de forma especial, a conquista da Copa do Brasil de 2023, título inédito e histórico, que simboliza o trabalho sério, responsável e comprometido desenvolvido ao longo da gestão.

Esse desempenho é fruto do esforço conjunto de atletas, comissão técnica e profissionais do clube, aos quais manifesto meu respeito e confiança.

Tenho absoluta convicção de que seguirão honrando essa camisa e lutando por títulos, com o apoio da torcida e da instituição.

Meu afastamento também tem como objetivo permitir que eventuais apurações ocorram de forma ampla, técnica e isenta, sem qualquer alegação de interferência, para que a verdade possa ser plenamente buscada e alcançada.

Reitero, por fim, minha certeza de que o São Paulo Futebol Clube é maior do que qualquer cargo, circunstância ou narrativa construída.

Ao São Paulo Futebol Clube, amor de infância e da minha vida, jamais renunciarei. Renuncio, sim, ao ambiente de conspirações, distorções, mentiras e disputas de poder que ultrapassaram os limites democráticos e tentaram manchar trajetórias, biografias e a própria história do clube.

Despeço-me com respeito, gratidão e amor permanente por esta instituição, que sempre honrarei.”

Júlio Casares

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