Jornalistas goianas relatam casos de assédio na profissão

Em meio a onda de denúncias contra o machismo na profissão, Opção colheu relatos de profissionais que atuam no Estado. Confira

Na semana em que um grupo de jornalistas da área esportiva lançou um manifesto contra o assédio e o machismo na profissão, o Jornal Opção ouviu e colheu relatos de profissionais que atuam no Estado de Goiás e que já passaram por situações vexatórias e foram assediadas enquanto trabalhavam.

Para preservar a identidade das jornalistas, a reportagem optou não revelar nome nem local de trabalho das oito mulheres ouvidas. Confira os relatos abaixo:

Repórter de TV, jornalista há 4 anos
Cheguei na delegacia e recebi aquela olhada de cima a baixo. O suficiente para me deixar desconcertada. Mas segui em frente. Não era a primeira e presumi que também não seria a última vez. A pauta era sobre um jovem que havia sido preso por tráfico de drogas. Chequei as informações e fiz a entrevista. Mas o suspeito já tinha sido levado para o presídio e eu precisa da imagem dele. O entrevistado disse que possuía fotos e vídeos do preso e sugeriu que eu passasse meu número de telefone pra que ele enviasse as imagens. Relutei e pedi para que ele mandasse para o celular da produção, mas ele insistiu no contrário. Cinco minutos depois de deixar a delegacia, uma notificação no aparelho. Não teve foto, não teve vídeo, só uma cantada barata do Delegado. Apaguei e ignorei.

Jornalista esportiva há 8 anos
Como toda recém formada, encontrar emprego é realização profissional. Sem dificuldades, adentrei no ramo esportivo e assessorei um conhecido clube de futebol.  Num cenário esportivo machista, eu era única mulher. Com saciedade de aprendizagem era a primeira e ultima a chegar ao trabalho. Num universo masculino, não poderia reclamar de cantadas. Isso se tornou diário e resumi meu vestuário a calça jeans e camisa, com a intenção de impor respeito e seriedade. De nada adiantou.

Até que fui convidada a acompanhar o elenco a uma viagem para o interior de São Paulo.
Esse já era um desejo antigo, o presidente me atendeu. Seria mais uma experiência profissional.

Assim que chegamos na cidade, fomos jantar. Como o jogo seria no outro dia, às 16h30, fomos direto para o hotel. Ao chegar, fui informada de que estava no mesmo quarto do presidente. Sim, no mesmo quarto do presidente do clube. Ao esbravejar fui contida pelo presidente que estava atrás observando.

No primeiro momento me senti impotente, mas com os olhos já lacrimejando, assustei o presidente e a recepcionista, que se sensibilizou e perguntou se eu preferia outro quarto. No mesmo momento disse sim, passei o cartão e subi.

Repórter de TV e radialista, jornalista há 3 anos
Durante o início da minha carreira trabalhei um tempo na área do jornalismo esportivo. Ao fazer as coberturas dos jogos no estádio, o assédio vinha de todas as partes e de várias formas. Desde os próprios colegas de equipe, que dentre um comentário e outro duvidavam da minha capacidade de entender futebol, até os funcionários do estádio que gostavam da ideia de ter mulheres por lá para não ficar um universo muito “masculino “. Um episódio que nunca saiu de minha memória foi um dia que estava no gramado acompanhando um time do interior pelo campeonato estadual e a inexpressiva torcida começou a gritar “repórter gostosa”. No momento todos os outros repórteres homens me olharam. Fiquei extremamente constrangida e sem reação. Afinal estava ali como profissional e não para passar uma situação ridícula como essa. Ao compartilhar a história com meus colegas de equipe eles riram. A partir de então não me senti mais a vontade para trabalhar nessa área, por mais que eu ainda a considere interessante.

Assessora de imprensa, jornalista há 4 anos
Ainda quando era estagiária, fui pegar a fala de um deputado a respeito de uma matéria da autoria dele, como eu recusei o abraço/ passadas de mão e insinuações, ele se recusou a falar comigo e foi grosso. Não fiz a matéria. Eu recusei o abraço por já ter passado por varias experiências com o mesmo que sempre que eu e outras meninas chagássemos perto para pegar fala, ele abraçava insinuantemente cada uma. Eu nunca mais fiz nenhuma matéria com o deputado.

Outra vez, eu estava passando pelo saguão principal e um vereador que estava por lá, me chamou, eu, educadamente, fui até ele porque achei que ele precisava de alguma informação. Ele me agarrou pela cintura e ficou falando de como eu estava linda e cheirosa e de como ele ficaria feliz em passar mais tempo perto de mim. Fiquei congelada, me desvencilhei dele dizendo que estava muito atrasada com uma matéria e não poderia ajudar com o que ele queria.

Essas duas histórias já tem algum tempo, mas foram as que mais me marcaram. Num ambiente extremamente masculino, onde os homens são os chefes e tem o poder, o que mais acontece são esses abusos. Alguns são olhares que a gente sente em cima. Outras são palavras ou insinuações. A maioria na verdade são essas opressões disfarçadas de admiração ou de elogios. Mas o abuso é constante e cotidiano!

Assessora de imprensa e repórter de televisão, jornalista há 8 anos
Eu estava justamente conversando sobre o assunto com outra colega jornalista, de como nós sofremos assédio diariamente e, infelizmente, isso acaba se tornando muitas vezes irrelevante. É vida que segue, já que brigar todas as vezes acaba se tornando exaustivo e até difícil em alguns casos.

As situações foram inúmeras, não consigo lembrar a primeira. Mas, teve uma vez que foi quando entrei em uma empresa que tinha cerca de 3 mil homens e 200 mulheres, e um dos colaboradores mandou um recado por uma outra colega de trabalho que não era pra eu andar sozinha pela fábrica que se não ele ia me atacar.

Nessa mesma empresa, onde trabalhava como assessora de comunicação, fui acompanhar uma entrevista do diretor, e falei que ia esperar fora da sala, ele já soltou “ Mas o colírio da sala do lado de fora? Aí não tem como”. Nessa mesma empresa perdi as contas de quantas cantadas recebia por dia, e quantas olhadas recebia na bunda (e olha que nem bunda tenho!), tirando o quanto meu gerente gritava comigo, era grosso e faltava com respeito na hora de conversar.

Depois de muito choro, resolvi pedir demissão e troquei de área, fui para televisão. E não foi diferente. Cantada da grande maioria dos entrevistados, ou quando ia gravar na rua e passava homem de carro gritando “gostosa”, buzinando. Além de nos ofender, é preciso gravar tudo de novo e, como não muda nada realmente, o assédio também é por parte dos colegas de profissão. Tem cinegrafista que dá em cima dentro do carro, editor que manda mensagem chamando pra tomar cerveja e pedindo pra ir na sua casa (sendo que ele foi folgado e pegou meu telefone na lista de ramais). Teve uma vez também que fui cobrir um treinamento do Vila Nova, além do povo da arquibancada, olhada dos jogadores, um cinegrafista que estava acompanhando outro repórter da mesma emissora que a minha ficou filmando meu peito. No outro dia, uma colega foi decupar as imagens e me avisou que “meus peitos estavam na rede”. Levei o caso para a minha superiora, foi passado para o superior dele, para o presidente da televisão, mas nenhuma providência foi tomada, nem advertência ele levou.

Enfim, casos tenho vários, e deixando bem claro, não sou nenhuma top model, e meu corpo está longe de ser um modelo de beleza irresistível, é falta de educação e respeito mesmo.

Assessora de imprensa, jornalista há 8 anos
Aconteceu quando eu era assessora de imprensa em uma campanha política. Eu sempre tinha que acompanhar o candidato em todos os eventos externos, como carreatas, passeatas e reuniões. Era parte do meu trabalho entrevistar algumas pessoas e também as próprias fontes políticas. Em uma carreata, vestida com calça jeans levemente rasgado por causa do modelo, tênis e camisa, um entrevistado notou o rasgado, que era minúsculo, pegou na minha perna e disse: “Nossa, você está muito moderninha hoje, né? Quer ir para outro lugar?”. Ele foi muito direto e o pior é que isso acontecia com muita frequência em campanha. Nunca vi isso acontecer com homem nenhum, só com mulher. Acho que eles pensam que estamos ali a disposição. Fiquei muito constrangida e desconversei, nem consegui responder nada tamanho o choque.

Fotógrafa há 9 anos
Enquanto pautava, fotografando, um evento musical para um veículo que trabalhei, há dois anos, um homem me abordou repentinamente pondo a mão na minha cintura e perguntou se eu não gostaria de fotografá-lo para guardar de lembrança. O modo como ele falou não foi nada agradável e, após eu claramente rejeitar o pedido, ele passou o resto do evento bem perto e encarando o tempo todo e rindo.

 

Assessora de imprensa, jornalista há 10 anos
Há uns poucos anos, eu fui ao Castro’s entrevistar um artista, um cantor, para ser mais exata, bastante famoso que estava em Goiânia para uma apresentação. Chegando lá, mandaram subir. Achei normal pq muitos artistas atendem na ante-sala dos apartamentos para evitar chamar a atenção para si. E, assim como pensava, a entrevista começou. Fiz algumas perguntas, ele respondeu…. Mas, logo, ele começou a mudar o rumo da prosa e a querer “me entrevistar” em meio a alguns galanteios. Eu desviava o foco e voltava para a entrevista. Mas ele insistia em me elogiar e eu acabei ficando bastante incomodada com isso e resolvi encerrar a entrevista. Agradeci e me levantei para ir embora. Nisso, ele levantou e tentou me agarrar, me deu um abraço forte. Senti que eu estava em uma situação muito vulnerável e isso foi ruim de sentir. Afinal, ele muito mais forte que eu… Poderia me imobilizar. Eu reagi ao “abraço” apertado, tentando me livrar dele. Consegui. Abri a porta e fui embora. Achei tenso. Na hora, eu fiquei surpresa, espantada! Não sabia como reagir pq não esperava aquele tipo de atitude, afinal, estava ali trabalhando e não dei nenhum tipo de abertura para aquilo. Depois, fiquei pensando que ele merecia ter ouvido poucas e boas, mas acho que foi melhor do jeito que terminou. As coisas poderiam ter tomada outra dimensão.

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