Jornalistas devem reproduzir tudo o que os políticos falam?

Jornal Opção acompanha 3° Congresso de Jornalismo de Educação realizado pela Jeduca nesta segunda e terça-feira em São Paulo

3º Congresso de Jornalismo de Educação | Foto: Lívia Barbosa / Jornal Opção

O novo ambiente do jornalismo foi tema de reflexão dos jornalistas José Roberto de Toledo e Paula Cesarino Costa, sob mediação de António Gois, na abertura do 3º Congresso de Jornalismo de Educação, em São Paulo. O Jornal Opção acompanha os principais debates deste encontro organizado pela Associação de Jornalistas de Educação (Jeduca), nos dias 19 e 20 de agosto.

A mesa discutiu o que o jornalista deve saber para competir com as novas formas de circulação de informações e o que fazer para melhorar o cenário.‌ Na ocasião, Toledo abordou o papel da imprensa na cobertura na era da desinformação, especialmente na era Trump e Bolsonaro. Ele relembrou que essa é uma questão global e trouxe a experiência do New Work Times que defende a legitimidade de não se posicionar dentro de uma chamada “resistência” por parte da imprensa diante de governos que “atacam” a imprensa.

Nós estamos em guerra?

“Os governos querem colocar a imprensa dentro da guerra e se nós deixarmos, isso irá acontecer. Mas nós não estamos em guerra”, destaca Toledo. O jornalista lembra que o Brasil precisa aumentar a discussão em torno da comunicação neste momento de desafios e mudanças. “O jornal precisa reproduzir tudo o que o político fala?”, indagou. Essa autocrítica é apontada como necessária assim como a reflexão acerca da hostilidade ao jornalismo e seus desdobramentos.

Veículos têm a difícil missão de caminhar com equipes cada vez mais reduzidas, pouco diversificadas, e neste exercício adotarem uma postura de imparcialidade neutra, ou então adotarem um posicionamento claro. E neste caso, como realizar uma abordagem útil e honesta. “Estamos no governo Bolsonaro há oito meses e já atingimos um grau de ataques muito forte. Não aprendemos a lidar com esse momento”, afirma Paula ao citar o exemplo do excesso de publicações declaratórias.

Toledo acrescenta que se os veículos derem espaço para tudo o que o presidente da República diz nada mais terá espaço, dada a capacidade de comunicação por meio da redes sociais, por exemplo. Ele ressalta ainda a necessidade de manter o foco no que os políticos fazem, ou não fazem, deixando um pouco de comunicar massivamente o que eles dizem.

Para ele, talvez o caminho seria destinar uma aba “barbaridades”, destinada às falas da autoridades que causem indignação, desta forma o restante das publicações poderiam se voltar para o restante das notícias e fatos jornalísticos. Gois levanta também a discussão sobre a necessidade de coragem dos veículos para deixarem de publicar certas notícias meramente declaratórias. Ele lembra que a própria sociedade já está cansada de ver uma enxurrada de declarações que causam certa indignação em todos os meios de informação. Esta, no entanto, não é uma decisao simples por envolver diversos fatores como a necessidade de cliques.

Toledo destaca a necessidade de repensar as pautas, levando-se em conta o papel de nova ferramentas como o Whats App, e do processo de formação dos debates, contextualizando as informações, explicando os cenários e seus efeitos. “A proliferação da informação está diretamente ligada a um novo cenário e influencia, por exemplo, o resultado das eleições”, observa. Gois acrescenta a necessidade de se pensar como acessar esse público que não está aberto ao diálogo e sair das bolhas. Para Paula, essa mudança passa pela diversificação das fontes e das redações.

Participantes

Paula Cesarino Costa

‌Jornalista e editora de diversidade da Folha de S.Paulo, desde de maio de 2019. Foi ombudsman do jornal por 3 anos (2016-2019). Na Folha desde 1987, exerceu diferentes funções. Foi secretária de Redação, diretora da sucursal do Rio de Janeiro, editora de Política, de Negócios e de Especiais, além de coordenar o Programa de Treinamento. Fez pós-graduação em documentário na FGV-RJ.‌

José Roberto de Toledo

‌Editor-executivo da Piauí (site), foi repórter e colunista de política na Folha de S. Paulo e no Estado de S. Paulo e presidente da Abraji‌.

Mediação – Antônio Gois

Presidente da Jeduca e colunista de educação do jornal O Globo. Cobre o tema desde E22 Foi bolsista dos programas Knight Wallace Fellows, na Universidade de Michigan, e da Spencer Education Journalism Fellowship, na Universidade de Columbia. Vencedor dos prêmios Esso, Embratel, Folha, Undime e Andifes, com reportagens sobre educação. Autor do livro “Quatro Décadas de Gestão Educacional no Brasil”, com depoimentos de ex-ministros da Educação desde o governo Figueiredo.‌

 

O Jornal Opção participa do evento a convite do Instituto Unibanco.

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