Halley Margon

Da Espanha

I

Enquanto escrevo esse texto o calendário conta pouco mais de um mês desde o ataque terrorista do Hamas em Israel. Lembro o ato infame apenas para trazer de volta à memória o que a fúria desmedida do ataque israelense contra a Faixa de Gaza nos fez esquecer.

II

Uma volta ao passado. Não a esse passado tão próximo, mas a Roma que mais ou menos na transição da República para o Império era uma cidade de mais de um milhão de habitantes, cujo principal ativo de entretenimento era o circo, suas feras e gladiadores. O Anfiteatro Flávio, o Coliseu, comportava entre 50 e 70 mil espectadores. Permitam uma breve citação – qualquer semelhança com o presente será mera coincidência.

“A guerra ocupa Roma, o cidadão romano, tanto quanto o escravo. Roma vive em guerra, se alimenta da guerra. Os escravos, parte importante da sua mão de obra, são espólio de enfrentamentos vencidos, guerreiros batidos pela superioridade da força imperial e trazidos na marra para servir à economia do Império. Cônsules e depois imperadores vão aos campos de batalha para pessoalmente liderar os exércitos na defesa de Roma, para realizar novas conquistas e ampliar as fronteiras imperiais ou para disputar o poder com os eventuais rivais. Roma é como qualquer outro império. Expõe constantemente a força dos seus exércitos à admiração do populacho, engrandece a virilidade, o embate físico, glorifica a morte do que enfrenta com coragem máxima o adversário, o destemor dos que vão para o campo de batalha. Exibe o uniforme da tropa. O sangue da guerra é uma oferenda ritualística dos cônsules e dos imperadores para a cidade. Eles o trazem de longe para reforçar sua comunhão com o populus. Roma fará com que o combate de vida e morte se dê à vista de todos. Roma inteira, então, aplaudirá. Glorificará a si mesma na arena onde sacrifica a vida de escravos treinados para o espetáculo da morte.

“Havia os que se opunham a esses espetáculos que um historiador disse ter envilecido o povo romano? Sempre há, não é? Um, talvez dois tenham manifestado antipatia.

“Diz-se que Sêneca, por exemplo, após ter presenciado um desses shows escreveu:

“– Isso é puro assassinato.”

(Há alguma especulação, nunca confirmada, de que Sêneca tenha trocado uma dezena de cartas com Paulo, o apóstolo de Cristo que antes da conversão se chamava Saulo e se dedicava a perseguir os primeiros discípulos do futuro mestre na cidade de Jerusalém na Palestina.)

Fim da citação.

III

Regresso ao presente. Não completados ainda 30 dias desde o início do revide israelense aos homicídios do Hamas, a cifra de civis assassinados em Gaza pelas forças armadas de Israel já supera a dezena de milhar, 40 % dos quais crianças. A seguinte conta não a fiz eu mesmo, porque seria incapaz de cálculos desse quilate. Eu a vi no Canal R(e)D, aqui da Espanha (disponível na internet, vale a pena assistir). Dez mil é também o número de civis mortos na Ucrânia nos 21 meses desde o início da invasão russa. Considerando que a população da faixa de Gaza é de dois milhões de pessoas e que a Ucrânia tem pouco mais de 40 milhões de habitantes, a conclusão matemática é que “o exército israelense está matando civis palestinos em Gaza a um ritmo 400 (quatrocentas) vezes maior que o perpetrado pelo exército de Putin” – confirma o Canal R(e)D.

IV

Assim que, na atual escalada israelense contra os palestinos de Gaza, à diferença das anteriores (que foram várias e também tremendamente brutais), há uma questão de dimensão e escala. Quem sabe se mal comparando, atacar covardemente um judeu num beco escuro de Berlim ou Amsterdam não é o mesmo que organizar e executar o gazeamento de seis milhões de judeus em pouco menos de três anos. Tampouco espancar até a morte um palestino numa estrada das cercanias de Jerusalém será o mesmo que matar dez mil em pouco mais de três semanas. Nos dois casos há a manifesta intenção de cometer não um simples homicídio, mas de eliminar da face da Terra toda uma gente – ainda quando o combustível que alimenta tanto o homicídio isolado quanto o planejado genocídio seja eventualmente o mesmo ódio abjeto.

V

Nem recolhidos ainda os cadáveres dos israelenses mortos pelos fanáticos religiosos do Hamas e já se iniciava a cerimônia de beija-mãos dos chefes europeus a Netanyahu. A lista dos mais afoitos a demonstrar solidariedade e subserviência para o que quer que decidisse o primeiro-ministro pode ser recolhida da internet. Mas lá seguramente aparecerão os nomes do presidente francês, do primeiro-ministro inglês, do social-democrata chanceler alemão e sua compatriota da democracia cristã e presidenta da Comissão Europeia Ursula von Der Lein. Os alemães parecem ser um caso à parte, abarcando quase todo o arco ideológico, da extrema direita à esquerda, todos correndo a abraçar o ultradireitista Netanyahu, fossem quais fossem suas nefastas determinações. Excetuada a nova estrela emergente da esquerda no país Sahra Wagenkecht e alguns poucos que como ela deixaram o Die Linke, praticamente todas as forças políticas da toda poderosa Alemanha se rendem ao charme israelense. Ou quem sabe seja outra coisa. Responsáveis diretos pelo genocídio contra os judeus europeus, não se acanham agora de dar suporte entusiasmado ao genocídio do Estado de Israel contra os palestinos. O mundo todo já em estado de perplexidade frente a brutalidade dos bombardeios israelenses e os Verdes (originalmente Die Grunen) fizeram descer sobre a fachada de sua sede uma gigantesca bandeira de Israel. Com o que realmente parecem gozar é com o genocídio – ou, sabe-se lá, se não com o próprio recalque. Seja como for, é bem provável que a culpa pela perpetração do genocídio contra os judeus europeus não os absolverá pela cumplicidade no de agora contra os palestinos de Gaza.

VI

E se se trata de assassinato, como dizia Sêneca, e disso é que se trata, assassinato no grau mais elevado, organizado e perpetrado contra uma determinada etnia concentrada num determinado território e sem alternativa de fuga, a essas personalidades históricas e políticas não lhes resta outro qualificativo que não o de cúmplices.

VII

O antissemitismo, tanto quanto o racismo e seus distintos objetos, é uma chaga repugnante e aparentemente insanável incrustada na sociedade. É como a ultradireita que, às vezes, premida pelas circunstâncias e pela vergonha, se recolhe, se esconde, mas à primeira oportunidade volta à tona. Seria uma imperdoável ingenuidade supor que nos atos contra o massacre dos palestinos por Israel, coletivos ou individuais, não se manifestem também sentimentos do mais genuíno antissemitismo. Há uma montanha disso grudado ao repúdio contra Israel, o tempo todo. Agora e desde sempre. O curioso é que isso acaba se tornando um biombo para que as forças políticas mais obscurantistas do país, tão fanaticamente religiosas quanto os terroristas do Hamas, executem uma política hedionda e de dupla face: terrorista e genocida, por um lado, e de expansão territorial (roubo de terras), por outro. Quando, do outro lado, a miséria produz energias que podem ser canalizadas de qualquer maneira, inclusive pelas mais irracionais e repugnantes, como as do Hamas, melhor ainda. Lá estará, sempre de prontidão, a inexpugnável máquina de propaganda preparada para grudar a quem quer que ouse se manifestar o infalível rótulo de antissemita. É de fato impressionante a velocidade que, a cada vez que o Estado israelense comete alguma atrocidade, ainda que nenhuma se compare com a que está perpetrando dessa vez, começa a aparecer nas primeiras páginas da imprensa livre a palavra antissemita.

VIII

Inoculado na medida certa o rótulo funciona como uma espécie de vírus que opera para deslegitimar as manifestações e, portanto, proteger a ação dos perpetradores. Mesmo assim, a par e passo com o crescendo da ultraviolência israelense o último final de semana viu também aumentarem as manifestações pela interrupção da matança. Duvido que isso afete o juízo dos ultradireitistas comandantes de Israel, por ora senhores absolutos do país. Mas crescem também as manifestações dentro do próprio país, não contra o morticínio dos palestinos, mas por uma negociação que conduza à devolução dos reféns sequestrados pelo Hamas. A resposta de Netanyahu? A matança dos palestinos cessará quando os reféns forem devolvidos…

Halley Margon é escritor. É colaborador do Jornal Opção.