Um cessar-fogo foi estabelecido. Será? Talvez não. O Líbano foi incluído? Parece que não.

Seria aceitável a “lista de desejos” dos aiatolás apresentada aos Estados Unidos como condição para uma trégua de duas semanas?

Ou aos negociadores americanos foi apresentado outro documento? O Estreito de Hormuz será reaberto? Ou os petroleiros que navegam por ali agora terão que pagar pedágio e passar pela aprovação da Marinha iraniana?

Toda essa confusão não é inesperada, já que o único pedido real de uma suposta negociação entre Donald Trump e quem quer que esteja governando o Irã era que os Estados Unidos interrompessem os ataques, mesmo que temporariamente. Em troca, o país persa faria o mesmo em relação aos bombardeios que realizou contra seus vizinhos árabes e Israel, mas logo saberíamos que não de imediato.

É provável que, ao final de duas semanas, tempo que ambos os lados concordaram para as negociações, as conversas serão estendidas por outras duas semanas, e depois por mais duas semanas.

Porém, dado o abismo que separa as exigências americanas das iranianas, ao final, os dois ficarão, tão somente, com o cessar-fogo. E só. Neste momento do conflito, uma simples trégua já é o melhor dos mundos para Trump. Assim o presidente americano não terá que se comprometer em cumprir as demandas estabelecidas num suposto acordo bilateral.

A matemática que não fecha

Para os Estados Unidos, a matemática final desse conflito não fecha. Entre perdas e ganhos, o cálculo ficou incompleto, e se o acordo de cessar-fogo for quebrado (o Irã insiste em colocar no pacote a interrupção da guerra de Israel contra o Hezbollah no Líbano, mas o país não vai parar), Trump terá que agir com algo que vai muito além dos ataques aéreos prometidos na semana passada.

Donald Trump e o aiatóla do Irã
Donald Trump e Mojtaba Khamenei: o mistério é saber se o segundo está mandando mesmo no Irã; consta que está muito doente, talvez em coma | Fotos: Reproduções

Isso significa uma campanha militar massiva contra o Irã, que não vai “destruir uma civilização” como ele disse, mas deverá pulverizar toda a infraestrutura do país.

Vale lembrar que, logo após o anúncio do cessar-fogo, o Irã lançou uma série de mísseis contra os países árabes do Golfo, que atingiram lugares sensíveis como pontes, usinas de dessalinização e termoelétricas.

Portanto, assim como não houve nenhuma manifestação de repulsa mundial sobre esses ataques pós-trégua, caso os EUA tenham que repetir a mesma ação em território iraniano, espera-se também que não haja condenação por parte da comunidade internacional. Afinal, “pau que bate em Chico também bate em Francisco”, diz o ditado popular.

Talvez, Donald Trump decida tomar algumas das ilhas espalhadas pelo Golfo, mas essa não seria a estratégia de alguém que busca o fim da guerra, por um mercado em alta e pelo preço do barril de petróleo estabilizado (de preferência, vagarosamente). Mas não se engane. Isso só vai acontecer caso o Irã coloque Trump na parede, sem saída.

E por ter certeza: o regime vai fazer isso. Neste momento sabe-se muito pouco como as decisões estão sendo tomadas no Irã, com exceção de que, supostamente, elas não são demandas do novo líder supremo, que estaria muito doente, quem sabe até em coma.

Até que o aiatolá Mojtaba Khamenei fale à nação, é quase certo que qualquer frase dita em seu nome tem origem no grupo que está governando o país (fala-se na Guarda Revolucionária). E para evitar que as manifestações tomem as ruas novamente, esse mesmo grupo vai preferir enfrentar mais um round de ataques do que encarar a fúria popular. Os iranianos não querem morrer ao lado de seus líderes mais radicais.

Quem compõe esse grupo ainda é um mistério. Os ataques cirúrgicos eliminaram os principais líderes políticos e militares do alto escalão da República Islâmica.

A alegação de Trump e do secretário de Defesa, Peter Hegseth — de que houve troca de regime porque os novos membros substituíram os que foram mortos — é absurda e desmoraliza toda a Operação Fúria Épica. Se é que fúria foi o que se viu no front americano.