Há muito extrapolando o musical, Bananada lança projeto coletivo com 26 artistas goianos

Coordenado por Matheus Dutra, o Blackbook reúne várias gerações da arte de rua em painel de 20 m² e reascende discussão de 2015 envolvendo obra do Bicicleta sem Freio

Foto: Bruna Aidar

Rafael Fleury, Maurício Mota, Marcelo Peralta, Selon, Beatriz Perini, LuiZ, Danilo Itty, GoType, JP, Matheus Dutra e Bicicleta sem Freio: Doze dos 26 artistas que embarcaram no projeto |  Foto: Bruna Aidar

“Os festivais de música não são mais só de música”. Não mesmo. A fala é do artista Matheus Dutra, que vai provar a afirmação mais uma vez no Festival Bananada de 2016. Neste ano, ele coordena 26 artistas em um painel de 20 m² no Centro Cultural Oscar Niemeyer (CCON), que recebe o evento no fim de semana do dia 13 de maio.

Nesta terça-feira (26/4), o festival oficializou o lançamento do quarto Blackbook, uma ação de artes visuais dentro do Bananada e que, neste ano, optou pela obra colaborativa e pelos celebrados lambe-lambes. Eles aparecerão não só na obra coletiva como também serão utilizados em arquibancadas e outras estruturas do evento.

O lambe lambe é uma das técnicas mais populares da arte contemporânea. De fácil produção e aplicação, ela se popularizou muito na arte de rua e é um símbolo do movimento. A ideia, então, é celebrar o lambe, “Levar pra dentro do evento essa linguagem que é democrática, de fácil produção, mas com conteúdo muito rico”, como ressalta Dutra.

A ideia do Blackbook vai de encontro à proposta do Bananada de integração. Como já vinha ocorrendo nos últimos anos, não é só no palco que a coisa acontece. Gastronomia, moda, tatuagem, arte, skate… É um verdadeiro turbilhão que reúne um pouco da produção que movimenta o cenário “alternativo” da capital. Quem já foi em alguma das edições anteriores sabe que tudo isso tem espaço por ali. Desde uma pista montada para os skatistas até os adorados food trucks, o festival transcende o musical.

“A gente tem conseguido colocar as linguagens pra conversar. Os festivais de música não são mais só de música, são de cultura urbana, né”, assinala Matheus. “O que a gente tenta fazer é capitalizar o que de melhor está sendo feito na cidade em termos de arte e cultura dentro do festival”.

Junto da ideia de reunir em um só espaço várias áreas diferentes, está também o DNA do Bananada: a valorização da cultura goiana. Dar visibilidade aos artistas de rua do Estado, que estão, inclusive, ligados à cena musical em alguma instância. Muitas das bandas daqui têm as artes de seus CDs e posteres feitos por esses artistas. Outros, como Douglas Castro, do Bicicleta sem Freio, são músicos mesmo.

Segundo Matheus, é esse o parâmetro de curadoria: “Eu pensei nos artistas que têm o rock no DNA, que a gente encontra nos eventos, que têm um trabalho de arte urbana. Pela trajetória, independente de ela ser mais recente ou não”. “Desde a novíssima geração até o pessoal mais graduado”, ressalta.

Neste ano, participam Alexandre Andrade, André Rezende, Beatriz Perini, Camaleão, Danilo Itty, Douglas Pereira, Ebert Calaça, Fabiana Queiroga, Galvão, Gotype, JP, Kastelijns, Luciando Drehmer, LuiZ, Marcelo Solá, Márcio Jr., Marck Al, Mauricio Mota, Marcelo Peralta, Mateus Dutra, Morbeck, Selon, Rafael Fleury, Renato Reno, Rodrigo Flávio e Talles Lopes.

Polêmica e provocação

Quem foi, viu painel do Bicicleta Sem Freio (e parceiros) finalizado, no prédio da biblioteca do CCON

Polêmico, o painel do Bicicleta sem Freio diz muito sobre o movimento da arte de rua | Foto: Marcello Dantas

Em 2015, o Blackbook foi polêmico. A dupla de artistas Douglas Castro e Renato Reno, do Bicicleta sem Freio, pintou um painel da parede do CCON e a Secretaria de Cultura, Esporte e Lazer (Seduce) decidiu esconder a obra depois de ser criticada por arquitetos, resenhistas e professores de arte. Para eles, a produção do Bicicleta foi uma intervenção inadequada na obra do arquiteto.

Mas isso não quer dizer que a discussão foi superada. Em provocação, o painel que, por alguns dias, deu um toque diferenciado a um dos prédios do CCON, volta como identidade visual da edição de 2016. Dutra, que participou da intervenção, disse que a ideia é manter viva a discussão que a obra levantou na cidade.

“Foi um painel importante, que levantou uma discussão que há muito tempo não se via em Goiânia: porque pintar, onde pintar, porque não pintar, também”, aponta. “A gente quis reviver isso, alimentar essa polêmica. Porque a polêmica do painel passou, mas os questionamentos que a ação levantou não passaram, estão aí”.

“Tá no bojo da arte urbana, essa coisa da intervenção, de você de certa forma ressignificar a cidade através da ocupação artística”, levanta. “E é uma demanda legítima que os artistas e o público têm, da gente se identificar mais com a cidade, da gente ter esse sentimento de apoderamento”. “Os artistas querem que Goiânia tenha mais a nossa cara”, resume.

Mas lembrem, o movimento é contestador. E Matheus avisa: Vem provocação por aí.

Deixe um comentário