Guia para entender a guerra da Síria em oito passos

Saiba como começou o conflito no país do Oriente Médio, que já dura sete anos

Bashar al-Assad se fortaleceu com o apoio de Vladimir Putin | Foto: Kremlin

Antes da guerra, a Síria era destino para muitos ocidentais que queriam aprender árabe. No país do Oriente Médio, cuja capital, Damasco, é sede de três patriarcados — greco-ortodoxo, melquita e siríaco-ortodoxo —, os cristãos são protegidos. Bashar al-Assad, diferentemente de outros líderes da região, não costuma usar farda militar — típica de ditadores —, mas sim terno, parecendo-se mais com figuras do Ocidente.

Hoje, são poucos, para não dizer ninguém, os que pensam em ir à Síria a fim de estudar o idioma. Em muitas áreas ao longo destes sete anos de conflito, cristãos foram perseguidos por grupos jihadistas. Assad, que era amigo do ex-presidente da França Nicolas Sarkozy, do ex-secretário de Estado dos Estados Unidos John Kerry e dos atores Brad Bitt e Angelina Jolie, deixou de ser benquisto por boa parte do mundo ocidental.

O Jornal Opção elaborou um guia, em oito passos, para explicar como tudo começou. Afinal, não foi à toa que surgiram os refugiados, muito menos o autoproclamado Estado Islâmico. Entenda a seguir:

1. Gasoduto

A guerra na Síria começou, de fato, em 2011. Mas, para entendê-la, é preciso voltar ao ano de 2009, quando Catar e Irã, dois países localizados no Golfo, uma região abundante em recursos naturais, decidiram pôr em prática seus respectivos projetos de gasoduto até o continente europeu.

O projeto do Catar previa a passagem de tal gasoduto por Arábia Saudita, Jordânia, Síria e chegada à Europa pela Turquia. O do Irã, por outro lado, por Iraque, Síria e Líbano, desembarcando no velho continente via Mar Mediterrâneo.

As rotas dos gasodutos que passam pela Síria | Foto: Reprodução

Ambos projetos tinham um ponto de convergência: a Síria. Portanto, o governo sírio teria que escolher um deles. Enquanto o do Catar contava com o apoio dos Estados Unidos e da Europa, já que reduziria a dependência europeia no gás russo, o do Irã contava justamente com o suporte da Rússia.

Assad, apesar de não ser religioso, é de origem alauíta, uma ramificação do xiismo e, por isso, tem afinidade com os iranianos. Além disso, desde a época de Hafez al-Assad, pai de Bashar, a Síria sempre foi uma aliada da Rússia — a única base russa no Mediterrâneo se encontra na costa síria e os dois países têm uma ligação religiosa por meio do cristianismo ortodoxo. Dessa forma, o governo sírio ignorou o projeto do Catar, contrariando as potências ocidentais e os países sunitas da região.

2. Primavera Árabe

Em 2011, eclodiram os protestos da chamada Primavera Árabe em diversos países do Oriente Médio, como Tunísia, Egito, Líbia, Iêmen e a própria Síria. No caso da Tunísia, a transição para a democracia, mesmo que imperfeita, foi a mais bem-sucedida. Em outros, como no Egito, houve sucessivos golpes de Estado. Na Líbia, no Iêmen e na Síria, guerra.

Há relatos de que o governo sírio tenha reprimido os manifestantes e os protestos, que começaram de forma pacífica, foram se radicalizando aos poucos. Arábia Saudita e Catar enxergaram, naquele momento — ainda eram aliados (romperam relações em junho do ano passado devido a acusações dos sauditas de que o Catar apoia o terrorismo) —, a possibilidade de armar diferentes grupos com o objetivo de derrubar Assad e tentar viabilizar o projeto de gasoduto que havia sido rejeitado.

3. Estado Islâmico

Com a desestabilização da Síria, o autoproclamado Estado Islâmico (EI), que, àquela altura, concentrava suas operações no Iraque, decidiu cruzar a fronteira. A origem do grupo está na célula da al-Qaeda no Iraque, liderada pelo jordaniano Abu Musab al-Zarqawi a partir da invasão estadunidense em 2003.

O grupo autoproclamado Estado Islâmico chegou a controlar grandes porções de território na Síria e no Iraque. Hoje, está enfraquecido | Foto: Reuters

Al-Zarqawi morreu em 2006 e o seu sucessor, o egípicio Abu Ayyub al-Masri, alterou o nome da al-Qaeda no Iraque para Estado Islâmico do Iraque naquilo que classificou como parte de um “mosaico de movimentos de resistência islâmica nativos”.

Na Síria, o EI chegou a controlar grandes porções de terras e passou a ser um dos principais  atores do conflito. A capital do “Estado” era o município sírio de Raqqa. No Iraque, contudo, o grupo dominava cidades mais importantes, como Mossul.

A agenda de terrorismo do auproclamado califado se tornou cada vez mais global, inspirando ataques de lobos solitários nos EUA e na Europa e com grupos leais no Egito, no Iêmen e nas Filipinas, entre outros.

4. Grupos “rebeldes”

A oposição síria é geralmente classificada no Ocidente como rebelde. Entretanto, a maioria de seus membros é, na verdade, terrorista. Fazem parte dos grupos opositores o Jaysh al-Islam e o Hay’at Tahrir al-Sham — antiga Frente al-Nusra —, a célula da al-Qaeda na Síria, que é ligada aos Capacetes Brancos.

A ideologia por trás desses grupos, bem como do Estado Islâmico, é o wahhabismo, uma vertente ultrarradical do islamismo sunita, que vem a ser a religião de Estado da Arábia Saudita, responsável por patrociná-la e difundi-la mundo afora por meio de mesquitas e madraças.

5. Curdos

Os curdos formam o maior grupo étnico do mundo sem um Estado — são cerca de 30 milhões de pessoas que reivindicam um território, denominado Curdistão, abrangendo partes da Turquia, da Armênia, do Irã, do Iraque e da Síria. No Iraque, possuem um exército paramilitar chamado Peshmerga. Na Síria, se apresentam como Unidades de Proteção Popular (YPG, na sigla em curdo).

Cabe reiterar que curdo, assim como árabe, é etnia e não religião. Os curdos são majoritariamente muçulmanos sunitas. Considerados terroristas pela Turquia, lutam contra o Estado Islâmico — que os persegue — e são neutros em relação a Assad.

6. Refugiados

Conforme indicam dados de 2016 do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), a Síria é o país que encabeça a lista dos países de origem dos refugiados — 5,5 milhões.

Segundo relatório da Anistia Internacional de 2015, apenas cinco países do Oriente Médio são responsáveis por 95% do acolhimento dos refugiados sírios: Turquia, Líbano, Jordânia, Iraque e Egito.

Dados do Acnur de 2016 registraram 5,5 milhões de refugiados sírios | Foto: Reprodução

O caso do Líbano é o que mais chama a atenção. O país acolheu 1,2 milhão de refugiados sírios, número correspondente a um quinto de toda a sua população, ou seja, uma em cada cinco pessoas no Líbano é refugiada.

O relatório aponta também para o fato de que países do Golfo — os mais ricos da região —, como Catar, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Kuwait e Bahrein, não ofereceram refúgio aos sírios.

7. Envolvimento externo

Como dito anteriormente, Arábia Saudita e Catar financiam grupos da oposição. O Ocidente, de uma forma geral, também luta contra Assad — Estado Unidos e países europeus, como França e Inglaterra.

Além da Rússia e do Irã, Assad conta com o apoio do grupo xiita libanês Hezbollah e da China — o último em menor escala na comparação com os demais. Por sua vez, a Turquia prioriza os confrontos contra os curdos. E Israel, temendo uma eventual expansão iraniana, frequentemente bombardeia instalações do governo sírio.

8. Situação atual

Pode-se afirmar que, desde o envolvimento da Rússia a favor de Assad, o governo sírio tem vencido a guerra. Não há, nesse momento, qualquer perspectiva de mudança no poder do país. Os grupos jihadistas da oposição estão cada vez mais fracos e, hoje, restam-lhes praticamente um último bastião: a cidade de Idlib.

Afrin, no norte da Síria, é uma outra área de conflito, mas, desta vez, entre turcos e curdos. O Estado Islâmico já está eliminado enquanto Estado e se tornou um grupo terrorista convencional, sem controlar territórios e operando por meio de células.

Assad domina as principais cidades do país — Damasco, Aleppo, Homs, Hama, Tartus e Latakia. Apesar de ser acusado de cometer crimes contra a humanidade, grande parte da população apoia o governo sírio, que é visto como um protetor das minorias, como cristãos, alauítas, drusos e curdos.

Mapa mostra as regiões controladas por cada ator na guerra da Síria e os locais atacados por EUA, França e Reino Unido | Foto: El País

Em razão deste momento favorável, é pouco provável que Assad tenha usado armas químicas, pois estava saindo vitorioso com armamentos convencionais. O governo sírio já usou armas químicas no passado — que, de acordo com a Organização de Proibição de Armas Químicas (Opaq), teriam sido entregues em 2014 —, mas usá-las agora não faz muito sentido.

Fato é que Donald Trump não esperou as inspeções da Opaq e, em conjunto com os governos francês e britânico, lançou uma ofensiva militar contra instalações que supostamente estariam produzindo armas químicas. Não causou grandes danos e a medida talvez tenha sido utilizada para desviar as atenções da relação entre o presidente dos Estados Unidos e seu homólogo russo, Vladimir Putin.

Nota-se que Assad não significa ser necessariamente o lado bom da guerra. Este lado não existe. Mas não há quem possa substitui-lo no momento e, tirá-lo do poder nos moldes de Saddam Hussein, no Iraque, e Muamar Kadafi, na Líbia, pode comprometer a pouca estabilidade da Síria. No fundo, quem mais sofre é a população civil e os que se refugiam.

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