Guerra na Ucrânia deve manter 13 milhões em situação pobreza na América Latina, diz Banco Mundial

Apesar de perspectivas otimistas anteriores, instituição acendeu alerta de preocupação no continente

Os efeitos da guerra entre Rússia e Ucrânia preocupam a Europa, mas também devem afetar gravemente regiões relativamente distantes, como a América Latina. Segundo o vice-presidente do Banco Mundial para América Latina e Caribe, Carlos Felipe Jaramillo, a região pode deixar cerca de 13 milhões de pessoas na pobreza, devido aos efeitos do conflito. Anteriormente, os números previam o retorno a um patamar de normalidade, com a redução dos efeitos da pandemia da Covid-19, mas a guerra acendeu a preocupação.

“Há dois meses achávamos que o nível de pobreza na América Latina, que com a Covid chegou a 26% [169 milhões] da população, voltaria a 24% de antes da pandemia [156 milhões], mas neste momento mantemos os 26%, portanto os 2 pontos percentuais adicionais”, explicou Jaramillo ao jornal Valor Econômico. Para o cálculo, o Banco Mundial considera uma renda per capita diária de US$ 1,90 em PPC (paridade do poder de compra, que reflete as diferenças de custo de vida entre os países). O valor, então, é comparado com o da inflação de produtos como combustíveis, petróleo, fertilizantes e alimentos, por exemplo.

Por outro lado, Jaramillo destaca que alguns países podem se beneficiar dos efeitos da guerra. Entre os países, o vice-presidente inclui o Brasil. Ele destaca que a exportação de alimentos pode ajudar a economia, mas nosso país sofre com outro contraponto importante: os efeitos da seca. De acordo com o economista André Luís Braga, o principal problema dos brasileiros ligado a guerra, hoje, é a questão dos fertilizantes. Isso porque a região onde ocorre o conflito é de importantes exportadores do produto, essencial para os produtores rurais do país. Nesse sentido, ele destaca que precisamos aguardar um posicionamento do Brasil na questão dos embargos contra a Rússia, o que poderia gerar um impedimento dessas negociações.

Além disso, André Luís chama anteção para outros dois produtos: girassol e trigo. “No caso do girassol, tem um aumento da demanda por soja, fazendo o preço subir, o que pode ser benéfico para o Brasil. No caso do trigo, para nós nem sempre é tão bom, já que não somos um país autossuficiente em trigo, então podemos sofrer uma alta nesse valor, encarecendo pãozinho, bolo e outros derivados”, explica. Ele ainda lembra que, com o aumento do preço da soja, o setor agropecuário brasileiro é prejudicado, especialmente para quem faz engorda de gado, já que a ração pode ficar mais cara, fazendo com que a arroba do boi possa subir.

Cautela

Ainda segundo o economista, a principal leitura de mercado que a guerra gera hoje é de cautela, o que pode ser bem traduzido dentro da bolsa de valores. Ele aponta que existe uma preocupação grande empresas com potencial de venda e crescimento que não conseguem voltar a níveis adequados. “Hoje em dia, quem faz previsão de mercado para além de um mês está subestimando a situação”, comenta citando a imprevisibilidade da atuação russa.

As ações da Rússia, por exemplo, geram dúvidas especialmente sobre o preço do petróleo, que tem previsões para todos os lados. “Hoje tem expectativas de que o barril possa chegar a US$ 300, com outras dizendo que ele fica de US$ 90 para baixo. E o pior é que os dois lados tem razão, porque depende do que a Rússia irá fazer”, explica.

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