Governo Bolsonaro é “autocratismo de viés fascista”, define cientista político

André Singer, cientista político da USP e ex-porta-voz da Presidência com Lula: “Bolsonaro tem viés fascista” | Foto: Reprodução

Para André Singer, o que parece recuo é, na verdade, tática diversionista para confundir sociedade e impedir reação

O avanço das ameaças golpistas do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) à democracia, cristalizado pelas manifestações antidemocráticas de 7 de Setembro, pode inspirar partidos de diferentes ideologias a uma frente ampla pelo impeachment, avalia o cientista político e professor da Universidade de São Paulo (USP) André Singer, em entrevista concedida ao jornal O Estado de S. Paulo. Ele também foi porta-voz da Presidência no governo Lula de 2005 a 2007.

Nem a sinalização de recuo do presidente, na quinta-feira passada, deverá bastar para conter esse processo. Segundo Singer, “o que falta é tempo para que amadureça [a discussão] e resulte em um grande movimento popular a favor do impeachment e da democracia”.

Seria um movimento unificado similar às Diretas Já, que atraíram forças antagônicas em torno da defesa de eleições ao fim do período da ditadura militar. Autor do termo “lulismo” para explicar o realinhamento eleitoral que decorreu do governo petista, o pesquisador introduz agora uma nova definição, para a marcha corrosiva à democracia, por parte do governo Bolsonaro: um “autocratismo de viés fascista”.

André Singer avalia a nota publicada pelo presidente como “parte de uma estratégia adotada desde o começo do mandato de ora avançar, ora recuar”. “Ele [Bolsonaro] tem uma capacidade que não se previa de jogar em diversas dimensões: na institucional, na mobilização de massa, que demonstrou na terça-feira, e com alianças partidárias com uma liberdade inesperada. Por exemplo, substituiu a aliança com o ex-ministro Sérgio Moro por uma com o Centrão de uma forma que não se imaginava possível. É provável que volte a fazer ameaças e ter o mesmo comportamento agressivo e golpista que construiu no mandato”, avalia.

O cientista político entende que Bolsonaro faz parte de um “fenômeno novo no Brasil e no mundo”, ao qual também estão associados Donald Trump e Brexit. “Existe um total descompromisso com os fatos, uma ‘pós-verdade’ que não se coaduna com a política normal. No 7 de Setembro, Bolsonaro diz que defende a liberdade e a Constituição, quando, de fato, defende golpe contra a Constituição, contra a democracia e contra a liberdade. E as pessoas que vão à rua estão envolvidas por esse ambiente no qual não há nexo com a realidade.”

Para André Singer, o atual presidente só pode ser entendido se colocado como um fenômeno de viés fascista. “Não fascista no sentido histórico, mas com elementos fascistas. Essa ambiência ideológica em que se puxa pessoas a uma crença sem conexão com fatos foi própria do fascismo, em que havia elementos delirantes. Por isso, não acho que devemos interpretar a nota [a que foi assinada depois de redigida pelo ex-presidente Michel Temer] como recuo. É uma tática diversionista, que confunde a sociedade, as forças políticas e atrapalha uma ação que precisa ser clara.”

* Com informações do jornal Estado de S. Paulo

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