Goiás já tem 111 profissionais de enfermagem afastados pela Covid-19, segundo Cofen

Conselhos federal e regional de enfermagem intensificam fiscalização em clínicas e hospitais para controlarem casos do novo coronavírus entre profissionais

Enfermeiros estão na linha de frente no combate ao coronavírus | Foto: Reprodução

As infecções por coronavírus no Brasil chegaram, na noite deste sábado, a 155.939 confirmações e 10.627 óbitos. O país tem batido nos últimos dias recorde em número de mortos e hoje integra os seis países do mundo que possuem mais de dez mil mortos, ao lado de Estados Unidos, Reino Unido, Espanha, Itália e França. Além de preocupações tais como taxa de aceleração, testagem e leitos disponíveis, é preciso estar atento com as contaminações dos profissionais de enfermagem, pois são eles que tem contato direto com os pacientes durante a maior parte do tempo.

O Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) disponibilizou, então, no Observatório da Enfermagem, os afastamentos desses profissionais por causa da Covid-19 e intensificou a fiscalização nos estados e municípios de como tem sido realizada a proteção desses profissionais a cada dia mais necessários na rede saúde nacional, seja pública ou privada.

“Temos acompanhado com nosso setor de fiscalização indo até essas unidades e averiguado qual a situação e razão do afastamento para garantir que os profissionais que estão sendo contaminados sejam de fato afastados e tenham a proteção necessária para o tratamento”, explica Ivete Santos Barreto, presidente do Conselho Regional de Enfermagem de Goiás. “Já fomos em mais de 150 unidades de saúde, e a cada unidade a gente vai averiguando esses afastamentos. O Conselho Federal criou um observatório nacional onde a gente vai mostrando os dados das instituição. São dados de afastamentos dos profissionais de enfermagem.”

Em Goiás, até o momento, já são registrados 111 profissionais afastados no Observatório da Enfermagem. Com suspeita da infecção, são 70. Confirmados, 41, dos quais três estão internados e uma se tornou vítima. Adelita Ribeiro da Silva tinha 38 anos e não estava no grupo de risco. “A gente vê com muita preocupação, porque percebemos que várias instituições não fizeram um plano de contingenciamento para a proteção dos profissionais, do ponto de visto de quantidade e qualidade dos equipamentos de proteção individual, treinamento de pessoal para que pudessem lidar com essa realidade diferente”, afirma Ivete.

De acordo com ela, existe uma diferença na rotina normal de uma clínica, com as infecções que ocorrem no dia a dia em relação a pandemia do novo coronavírus. “Tem que haver um treinamento para que o profissional supere estresse, o momento de paramentar e desparamentar principalmente, e para eles se tratarem psicológica e emocionalmente para o enfrentamento dessa pandemia”, diz.

“Vemos duas questões que sobrecarregam este profissional. Uma é estes afastados que demoram a ser substituídos e quem fica, fica sobrecarregado. Isso acresce ao risco de contaminação. O outro é a falta de treinamento prévio, uma capacitação para que esse profissional possa enfrentar essas dificuldades”, informou. “O Conselho está acompanhando essa situação, nós estamos notificando os responsáveis técnicos para providência imediata.”

Ela explica que, após a fiscalização nas clínicas e hospitais, o Conselho retorna ao local para averiguar se as providências foram tomadas. “No caso de não ser resolvida a situação, vamos acionar o Ministério Público, vamos acionar as autoridades para que providenciem a proteção desses profissionais”, falou.

Testagem

Uma questão que preocupa o Conselho é o fato de a testagem dos profissionais só ocorrer depois que este apresenta sintomas. “A testagem do profissional tem que ser feita periodicamente, porque se o profissional está em contato com casos suspeitos ou casos confirmados diariamente. Essa testagem não pode ser feita apenas quando o profissional apresenta sinais, sintomas de contaminação. Quando ele apresenta, é porque já contaminou”, alerta.

“Então, estamos também pedindo que além das testagens regulares, que nos forneçam qual o plano de periodicidade dos testes para que a gente garanta o afastamento dos casos suspeitos e casos confirmados para que o profissional possa se tratar”, disse.

Em todo Brasil, estados como São Paulo, Amazonas, Rio de Janeiro e Ceará, a situação dos enfermeiros é mais grave, pois há mais contaminações que em Goiás. Em São Paulo, por exemplo, já foram reportados 2.996 afastamentos de profissionais da enfermagem, dos quais 736 testaram positivo para a Covid-19 e 2.260 são suspeitos. Lá, 21 profissionais já morreram pelo novo coronavírus. No Rio, a situação também é preocupante. Já são 2.265 afastamentos. Sendo 1.033 confirmados e 1.932 casos suspeitos.

Dificuldades

Segundo a presidente do Coren, no início da pandemia, na rede pública estavam mais visíveis as dificuldades. Havia uma dificuldade explícita em adquirir materiais. “Agora, estamos vendo mais dificuldades na rede privada. É natural. As pessoas recorrem mais à rede pública, porque ela atende mais situações de calamidade mais pessoas. Com o aumento do volume de casos, a rede privada começa, também, a absorver um contingente significativo e aí começam a surgir as dificuldades da rede privada”, explica.

Segundo informações da Associação dos Hospitais Privados de Alta Complexidade do Estado de Goiás (Ahpaceg), 41 profissionais da saúde, entre médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem e outros, foram afastados por contaminação pela Covid-19.

Ivete explica que, independente do vínculo do profissional ser na rede pública ou privada, ambas devem garantir a segurança sanitária adequada, até porque normalmente esses profissionais têm vínculos em mais de um local de trabalho. “Se o profissional tiver as condições adequadas de trabalho em qualquer um dos vínculos ele vai estar garantindo que vai se proteger e proteger a quem ele atende. Agora se em um dos vínculos ele não tiver essa garantia de condições adequadas de proteção. Ele pode se contaminar e ser um vetor de contaminação na outra instituição”, informou.

“Os profissionais de enfermagem, de um modo geral, encaram isso com muita responsabilidade. O que nós precisamos e que reivindicamos sempre é que o local em que ele esteja trabalhando dê a ele as condições para chegar nesse local e se paramentar adequadamente. Se ele chegar em um local em que ele possa tomar banho, vestir seu uniforme e ir para seu posto de trabalho, o risco de contaminação desaparece.”

Risco de escassez

Um outro problema desses profissionais se contaminarem e tiverem de ser afastados é que pode gerar uma falta de enfermeiros no mercado. “Apesar de termos muitos profissionais de enfermagem no mercado em Goiás, nós temos hoje quase 60.000 profissionais de enfermagem, dos quais 35.000 são os técnicos de enfermagem, que são o maior contingente. Temos esse número expressivo. Por enquanto não há escassez significativa, mas com o afastamento deles, caso não cuidarmos desses profissionais eles se afastam de mais de um vínculo”, alerta Ivete.

“E aí a gente passa a ter um contingente de profissionais que estão começando no mercado de trabalho, que não tem o treinamento e as habilidades de quem já está a algum tempo no mercado para assumir. Como também podemos chegar numa crise de falta de profissionais. Em Goiás a gente ainda tem uma certa facilidade, porque temos um certo controle da curva. Mas com essas medidas de relaxamento desses últimos dias não sabemos como vai estar no final do mês a curva. Quanto você cuida do profissional de enfermagem, você cuida da assistência aqueles pacientes, porque quem é responsável de ficar 24 horas é o profissional de enfermagem”, argumenta.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.