Com políticas públicas robustas e iniciativas estratégicas de articulação entre governo, setor produtivo e academia, Goiás começa a viver um novo ciclo de crescimento no seu ecossistema de inovação. Nos últimos anos, o Estado passou a estruturar uma rede de apoio às startups e empresas de base tecnológica por meio de equipamentos públicos, editais de fomento, eventos e programas de capacitação. Ainda assim, o caminho da interiorização, da captação de investimentos e da maturidade das empresas segue como desafio prioritário.

“O governo apoia as startups através de algumas ferramentas e equipamentos públicos. O Hub Goiás é nosso principal espaço, com coworking gratuito e editais que apoiaram, em dois anos, cerca de 150 startups de forma direta ou indireta”, explica Gabriel Augusto, superintendente de Inovação Tecnológica da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação (Secti-GO).

O Hub Goiás, localizado no Setor Universitário de Goiânia, atua como centro articulador de ações e editais voltados a empreendedores inovadores. Além da estrutura física, o local abriga eventos como Campus Party e Estação da Inovação, e coordena programas como o Mentores da Inovação e as Escolas do Futuro, que oferecem cursos em áreas como robótica, programação e inteligência artificial.

Outra frente de ação é o incentivo à aproximação entre startups e investidores. “Em 2024, realizamos quatro rodadas de negócio com fundos como o Cedro e o KPTL, que já alocaram R$ 5 milhões em startups de GovTech. Esses recursos são operacionalizados pela Goiás Fomento”, destaca Gabriel.

Embora Goiânia, Anápolis e Aparecida de Goiânia concentrem mais de 80% das startups goianas, o governo tem buscado descentralizar esse eixo. Rio Verde será o primeiro município a receber uma extensão do Hub Goiás, com foco no agronegócio. “Estamos na fase de aquisição de equipamentos. Nossa meta é levar esse modelo para os quatro cantos do Estado”, explica o superintendente. Escolas do Futuro também já operam em cidades como Valparaíso, Santo Antônio do Descoberto e Mineiros.

Startups de sucesso

A trajetória da startup SOU Agrosoluções, de Valquer Diniz Novais, é um exemplo da força das soluções criadas a partir de dores reais do mercado. “Antes de empreender, eu trabalhava numa sementeira. A logística era feita por planilha e e-mail. A dor era nossa, e isso virou negócio”, conta.

Fundada em 2018, a empresa desenvolveu uma plataforma completa para logística no agronegócio, com clientes como Basf, Grupo Amaggi e AgroGalaxy. Cresceu sem capital externo, até se inserir no ecossistema formal em 2023, via Hub Cerrado. “Antes eu nem sabia que existiam programas de fomento. Depois que entramos, o Sebrae e o próprio Hub nos ajudaram a estruturar governança, operação e novos negócios”, afirma Valquer.

Hoje, a empresa busca parcerias estratégicas e investidores para internacionalizar. “A gente saiu da fase de MVP. Estamos disputando mercado com concorrentes que têm fundos bilionários por trás. Mesmo assim, nossa solução ainda é a melhor para o agro”, disse.

Time da SOU AgroSoluções. | Foto: Divulgação

Já a IndustryCare, liderada por Bruno Sousa, aposta em dados para transformar a indústria brasileira. Criada em 2019, a empresa oferece uma plataforma de Big Data e Inteligência Artificial que coleta, analisa e projeta melhorias para a operação de grandes indústrias. “A indústria ainda tem pouca cultura de tratar dados com profundidade. Nosso objetivo é acelerar a descoberta de melhorias nos processos produtivos”, explica.

A empresa surgiu após Bruno deixar uma startup anterior focada em gestão de energia. “Usei a energia como porta de entrada para entender os dados industriais. Isso me permitiu estruturar nosso Big Data industrial.”

Durante a pandemia, Bruno enfrentou o maior desafio da carreira: contratos cancelados, faturamento zerado e nenhuma fonte local de apoio. “Levantei cerca de R$ 1 milhão em três rodadas de investimento — anjo, institucional e pré-seed. E depois, captei mais R$ 6 milhões em fomentos federais, como FINEP e Embrapii, o que nos permitiu operar com as maiores indústrias do país.”

Hoje, a IndustryCare atende empresas como Vale, CSN, Anglo American e Danone. “Nossa base de clientes está no topo da cadeia industrial. E apenas uma delas é de Goiás. O ecossistema local está amadurecendo agora.”

Para Bruno, os hubs goianos são fundamentais na criação de um ambiente mais colaborativo. “O Hub Goiás e o Hub Cerrado hoje reúnem empreendedores em fases diferentes. Compartilhar conhecimento é essencial. Isso me anima: o Estado está desenhando um distrito de inovação baseado no Porto Digital. Isso muda o jogo.”

Desafios de longo prazo

Apesar dos avanços, o mapeamento feito pela Secti aponta gargalos estruturais. Grande parte das startups ainda está nas fases iniciais, sem acesso consistente a capital de risco ou estrutura de governança empresarial. Faltam também marcos legais municipais, conectividade nas regiões do interior e políticas de retenção de talentos.

“O CEIA, aqui em Goiânia, é um dos principais centros de inteligência artificial do Brasil. Mas precisamos preparar o setor produtivo para absorver essa mão de obra altamente qualificada. Estamos discutindo isso com empresas locais”, afirma Gabriel Augusto.

Futuro

Para os próximos anos, o governo de Goiás aposta na consolidação de políticas públicas que permitam amadurecer o ecossistema de inovação, tanto em termos de infraestrutura quanto de capital humano e financeiro. A ideia é articular editais mais estratégicos, ampliar a presença dos hubs no interior e conectar startups com fundos de investimento e empresas-âncora.

Segundo o superintendente de Inovação da Secti, o plano é lançar chamadas públicas mais específicas, voltadas a setores estratégicos como inteligência artificial e agronegócio. “Estamos mapeando o ecossistema e dialogando com os institutos regionais para lançar editais que façam sentido para a realidade local, sem atropelar o estágio das startups”, explica. “Não adianta lançar um edital se não houver empresas maduras o suficiente para absorver os recursos e entregar soluções.”

O processo de interiorização também está em curso, com a implantação do Hub Goiás em cidades como Rio Verde e a ampliação das Escolas do Futuro em municípios-polo. “A nossa intenção é descentralizar e criar estruturas de inovação em todas as regiões. Já estamos em fase de aquisição dos equipamentos e temos agendas marcadas com cidades como Mineiros e Ceres”, detalha Gabriel.

Além do apoio técnico e institucional, há também um esforço para qualificar os empreendedores do ponto de vista da gestão e da governança. Valquer Diniz, da SOU AgroSoluções, defende que o acesso a programas de aceleração é o que transforma uma boa ideia em um negócio sólido. “Depois que a gente entrou no Hub Cerrado, conseguimos estruturar melhor a empresa. Ajudou a melhorar nossa governança, operação e até nos preparou para buscar investimento”, afirma.

Já Bruno Sousa, CEO da IndustryCare, destaca a importância da construção de um ambiente de confiança e troca entre empreendedores. “Hoje, com os hubs funcionando e o ecossistema ganhando corpo, a gente consegue estar em contato com outros fundadores, compartilhar desafios e soluções. Isso ajuda muito”, diz. Ele também se mostra otimista com os planos mais ambiciosos em andamento. “O distrito de inovação deve aproximar a indústria tradicional das soluções tecnológicas que já existem no Estado.”

Nesse cenário, a missão é transformar o ambiente ainda emergente de Goiás em um polo maduro e autossustentável de inovação, que consiga reter talentos, atrair investimento e gerar impacto econômico e social em todo o território.

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