Goiano cria jornada de RPG baseada no acidente do Césio 137
10 fevereiro 2026 às 15h54

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O engenheiro eletricista Rogério Queiroz, de 27 anos, fã de RPG e morador de Goiânia, decidiu transformar um dos episódios mais marcantes da história da cidade em uma narrativa de jogo de mesa. Em entrevista ao Jornal Opção, nesta terça-feira, 10, ele explica que a campanha, batizada de Goiânia Restrita, mistura elementos históricos, ciência e ficção, levando os jogadores a uma jornada que atravessa séculos e culmina no acidente radiológico com o Césio-137, ocorrido em 1987. (O arquivo com a jornada está no fim da matéria.)
Rogério explica que sempre teve vontade de estudar mais sobre o tema. Ao pesquisar, descobriu que o césio é utilizado como referência no Sistema Internacional de Unidades para calcular o tempo. A partir daí, começou a unir conceitos: o elemento químico, a medição temporal, o acidente radiológico em Goiânia e até mesmo um acidente aéreo na cidade. “Foi uma forma de homenagem às pessoas que sofreram”, afirma.

A narrativa se inicia quando dois catadores de lixo encontram um equipamento em um hospital e ocorre uma explosão luminosa azul no céu, momento em que a cápsula é aberta e o césio liberado. Os jogadores chegam pouco antes desse evento e precisam impedir que ele aconteça. Ivete e Leônidas, sucateiros que protagonizam a trama, são personagens centrais: Ivete, coberta por pó azul, começa a brilhar e se transforma em um portal vivo, enquanto Leônidas presencia o início da tragédia.
A campanha também conecta a descoberta do césio por Gustav Kirchhoff e Robert Bunsen, em 1860, à definição do segundo pelo átomo de césio 133 em 1967, e ao acidente radiológico em Goiânia. A história mistura ciência e ficção, incluindo a ideia de que o Césio-137 poderia abrir buracos de minhoca e permitir viagens no tempo, exploradas por bilionários fictícios como Astra Musk e Sky Bezos.
Os personagens são criados livremente pelos jogadores, mas precisam escolher algumas perícias. Entre elas: biológicas, para compreender os efeitos da radiação no corpo; humanas; tecnológicas, como montar um contador Geiger; de combate, para enfrentar inimigos; furtivas, para se mover sem ser visto. Além disso, há uma lista extensa de habilidades que vão de medicina avançada, química e engenharia até mutação genética, armas experimentais e viagem no tempo.
A campanha se passa no centro de Goiânia, começando na Avenida 85 e seguindo até o hospital. O objetivo é cooperativo: impedir que o acidente ocorra em setembro de 1987. Durante o percurso, NPCs fornecem informações e ajudam a construir a narrativa, enquanto inimigos tentam garantir que o acidente aconteça.
Inspirado no sistema SPECIAL do RPG Fallout, Rogério adaptou os atributos para o português: força, agilidade, resistência, percepção, inteligência, sorte e carisma. Cada jogador recebe pontos para distribuir e definir seu estilo de jogo. A ficha de personagem é o guia para as decisões durante o jogo, influenciando testes de combate, percepção do ambiente ou resolução de enigmas.
O sistema também inclui pontos de vida, energia, ação, medo e radiação. Todos os personagens possuem Cs-133, capaz de manipular o tempo e restaurar status, e o Contador Geiger, que mede radiação. As vantagens e desvantagens equilibram poder e fragilidade, enquanto as armas variam de facas e espadas até rifles de precisão e granadas. Os ataques são feitos com dados de seis lados (d6), e cada personagem possui duas ações por rodada.
A primeira campanha foi uma one shot, com duração de quatro horas. Mas Rogério também organiza partidas seriadas, com sessões de duas horas semanais. Ele cita como exemplo outro RPG que mestrou, baseado no universo de Filhos do Éden, que durou sete meses. “O tempo máximo depende de como o jogo anda. O mínimo não existe, já que o grupo pode perder logo no início”, comenta.

Para Rogério, o RPG vai além da diversão. Ele acredita que o jogo ajuda a desenvolver criatividade, foco e argumentação. “Você precisa convencer os outros jogadores, defender seus pontos e trabalhar em conjunto. Isso vale para a vida pessoal e profissional”, afirma.
Ele destaca ainda o valor de estar longe das telas. “É você, sua ficha e o dado. Isso força a prática argumentativa e a atenção”, aponta.
O engenheiro ressalta que o RPG fortalece vínculos sociais. “É uma rotina que você cria com os amigos, seja semanal, mensal ou até diária. Vocês se encontram, conversam e se divertem juntos. O RPG não é sobre vencer ou perder, mas sobre compartilhar experiências”, conclui. Ele acrescenta: “É um momento em que você encontra amigos, fica um tempo sem nada, sem o mundo exterior, apenas com vocês e a criatividade de vocês”.
Rogério reforça que o RPG é um jogo de cooperação. “Você, junto com seus amigos, tem que chegar no objetivo. Caso consigam ou não, isso não é o foco. O objetivo é que vocês tentem juntos, em conjunto. Isso fortalece muitas amizades e também cria novas, porque todo mundo tem a primeira vez jogando RPG. Sempre vai ter uma pessoa com 10 anos de RPG na mesma mesa com alguém que está na primeira semana. Você conhece muita gente nova, entra em um universo novo e as pessoas são muito adeptas a receber novos jogadores”, afirma.
Ele também destaca que o RPG não deve ser visto como “um jogo de criança” ou algo isolado. “É uma atividade social que hoje movimenta bilhões no mercado de entretenimento e streaming. Temos séries como Game of Thrones, Fallout e Cyberpunk que giram milhões e bilhões de reais. É um mercado que vem crescendo cada vez mais. Na pandemia, plataformas como Discord e Roll20 democratizaram o acesso ao RPG e aproximaram as pessoas pela criatividade”, explica.
Para Rogério, o RPG é uma ponte entre a vida real e o mundo da imaginação. “Você pode ser outra pessoa, outro personagem, ter outro papel, improvisar, argumentar e se divertir de maneiras que na vida comum não conseguiria. É essa a magia do RPG”, conclui.
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