Goiânia entrou de vez no mapa nacional da sofisticação? Antes vista como uma capital regional, a cidade agora disputa espaço com polos tradicionais de luxo como Brasília, Curitiba e Belo Horizonte, e, em alguns indicadores, já os ultrapassa.

Um levantamento da Brain Inteligência Estratégica colocou Goiânia entre as dez melhores cidades do país para imóveis de alto padrão, alcançando a 8ª posição nacional e chamando a atenção do mercado imobiliário, investidores e marcas internacionais.

O fenômeno não é isolado. Ele combina crescimento econômico, demanda qualificada, mudanças de estilo de vida e a chegada de empreendimentos assinados que redefinem o padrão de habitar e trabalhar na capital goiana.

O anúncio recente do Tonino Lamborghini Residences & Offices Goiânia, primeiro projeto da marca italiana no Centro-Oeste, reforçou ainda mais essa percepção. Mas essa ascensão existe de fato? Especialistas e incorporadoras ouvidos pelo Jornal Opção respondem.

Empresas como Sim Incorporadora, Opus, City e Flamboyant passaram a disputar quadras dos bairros mais valorizados, como Marista, Oeste, Bueno e Jardim Goiás, com projetos que vão de torres superluxuosas a edifícios boutique e complexos multiuso de padrão internacional.

O lançamento do Tonino Lamborghini, que une residências de alto padrão, escritórios premium, gastronomia e áreas de lazer exclusivas, simboliza essa nova onda. A presença de Tonino Lamborghini e seus herdeiros no evento em Goiânia é vista pelo setor como um certificado de que a capital goiana está no radar global do lifestyle de luxo.

De acordo com Marcos Henrique Santos, porta-voz da Sim Incorporadora, em entrevista à reportagem, a capital já se posiciona entre os principais destinos do País para empreendimentos premium, um movimento que, ao que tudo indica, deve continuar crescendo.

Santos explica que o avanço desse segmento não surgiu de forma repentina, mas como consequência de transformações recentes no comportamento do consumidor. “Goiânia há alguns anos vem incrementando os empreendimentos de alto padrão em função de uma mudança de perfil de compra do cliente”, afirma.

“O cliente está mais exigente, ele busca soluções de arquitetura e conforto maiores, e isso é um movimento recente.” A pandemia provocou uma reconfiguração do mercado imobiliário em praticamente todos os segmentos, e isso também influenciou o alto padrão.

“O hábito de compra de imóvel mudou de forma muito importante, e não só em empreendimentos de luxo”, observa Santos. Segundo ele, a busca atual envolve desde unidades compactas sofisticadas até plantas maiores e condomínios horizontais.

O fenômeno ocorre em paralelo ao crescimento populacional da capital e à migração de moradores vindos de grandes centros urbanos. “Goiânia, a partir do incremento de renda e da própria população, tende a ser impactada com essa demanda de forma especial”, acrescenta.

Sobre empreendimentos assinados por marcas globais, para Santos, trata-se de um movimento global que encontrou terreno fértil em Goiânia. “É uma tendência mundial”, explica. “As pessoas passaram a ter maior identificação com marcas, e Goiânia, pela relação cada vez mais intensa com o mercado de luxo, absorveu esse movimento e viu valor nesse contexto.”

O que define um empreendimento de luxo?

Para além do design e da assinatura de grifes internacionais, há critérios objetivos que definem o segmento. “O primeiro filtro é preço de metro quadrado. Hoje, na média, esses empreendimentos partem de pelo menos R$ 14 mil a R$ 15 mil por metro quadrado”, afirma.

Além da precificação, a localização é decisiva. “Temos bairros e áreas mais nobres, próximos a praças, parques e avenidas com perfil de consumo de alto padrão”, explica. Os bairros Marista, Oeste, Jardim Goiás e Bueno concentram a maior parte da demanda.

Segundo o porta-voz, não há um único fator determinante para compra, mas um conjunto de elementos. “Design, arquitetura, soluções de conforto, serviços e conveniências influenciam muito”, diz. A proximidade com serviços utilizados no cotidiano, como escolas, unidades de saúde, gastronomia e áreas de lazer, é cada vez mais valorizada.

A escala de prioridades, no entanto, varia de acordo com o perfil e com a finalidade do imóvel, moradia, segunda residência ou investimento. O setor premium da capital também passou a atrair investidores de fora. “Existem, sim, clientes de outros mercados e até de fora do país”, afirma Santos.

Ainda assim, o público local permanece majoritário. “Nosso público primário está dentro do próprio mercado porque o consumidor busca um produto atualizado e conectado às novas demandas.”

Segundo a incorporadora, o gosto do consumidor de Goiânia tem características próprias. “Áreas verdes são muito valorizadas”, afirma Santos. Além disso, plantas amplas seguem como preferência: “O nosso consumidor está mais habituado a espaços maiores, independentemente da tipologia”.

A ascensão da capital como destino do luxo imobiliário está diretamente ligada ao ciclo econômico regional. “O fator principal é a renda”, avalia o porta-voz.

“O agro e os serviços funcionaram de forma importante para impulsionar a renda. Goiânia tem vasta oferta de serviços médicos, educacionais e universitários, o que a torna polo para várias regiões do País.”

Para Santos, existe um ‘estilo goiano’ de morar bem, e ele já influencia de forma clara o desenho dos novos projetos. “O goianiense valoriza o verde, valoriza espaços mais amplos e boa mobilidade, para com pouco deslocamento chegar aos pontos que precisa”, afirma.

As áreas comuns dos condomínios também são moldadas a partir dessa lógica de uso mais intenso e integrado. Marcas, acabamentos e assinaturas internacionais têm peso variável, dependendo do consumidor.

Mas, independentemente do estilo, o representante da Sim Incorporadora reforça: “Goiânia procura fazer produtos adaptados ao nosso mercado”. A capital, segundo ele, já consolidou seu lugar no mapa brasileiro do luxo, e ainda tem espaço para crescer.

O skyline de Goiânia passou por uma transformação silenciosa, mas expressiva. Em bairros como Marista e Oeste, o padrão arquitetônico subiu, com projetos assinados, torres triangulares, fachadas ventiladas e uso crescente de design contemporâneo.

O Kingdom Park Residence, considerado o edifício residencial mais alto do Centro-Oeste, e torres boutique como as da Opus, mostram a evolução estética da cidade.

O Tonino Lamborghini soma a esse movimento um conceito de design imersivo, com mobiliário assinado e elementos que dialogam com o estilo italiano. A cidade também passou a atrair marcas internacionais, redes de gastronomia, clínicas de saúde de renome e até serviços que antes só existiam nas maiores capitais brasileiras.

Foto: Divulgação

Tonino Lamborghini

A marca Tonino Lamborghini apresentou oficialmente, em Goiânia, seu novo projeto imobiliário no Brasil: o Tonino Lamborghini Residences & Offices Goiânia. O empreendimento, que será erguido na Avenida República do Líbano, no Setor Oeste, é resultado de uma parceria com a Sim Incorporadora.

Durante visita à capital para inaugurar o showroom nos dias 21 e 22 de novembro, o empresário italiano Tonino Lamborghini participou de coletiva de imprensa, encontrou clientes e celebrou contratos.

Segundo a incorporadora, cerca de 70% das unidades foram comercializadas antes mesmo do lançamento oficial. Lamborghini destacou a proposta da marca, fundada em 1981, que segundo ele se baseia na combinação entre design, experiência e identidade.

“O luxo está profundamente ligado à experiência que proporciona. Vai além dos atributos físicos e estéticos e se revela nas sensações, no significado e na história por trás de cada detalhe. Para ser autêntico, um produto de luxo precisa, acima de tudo, ter alma”, afirmou.

A marca Tonino Lamborghini tem empreendimentos em sete países, além de unidades no Brasil, presentes em São Paulo e Balneário Camboriú (SC). Para 2026, há previsão de lançamento em Chapecó (SC).

Goiânia será a primeira cidade do Centro-Oeste a receber um projeto da marca, que adotou o conceito de torre boutique de uso misto, reunindo unidades residenciais (de 38 a 93 m²) e escritórios premium (de 36 a 740 m²). O empreendimento prevê restaurante, áreas comerciais, serviços exclusivos e espaços de lazer.

Segundo a marca, a escolha por Goiânia se deve ao crescimento econômico e ao mercado de consumo de luxo da região. Angela Krieger, diretora criativa da Total Living, afirmou que a capital tem um perfil favorável para receber esse tipo de produto.

“Aqui, o consumo de luxo não é novidade. É uma região com enorme potencial, impulsionada pela força do agronegócio. Sabemos que Goiânia tem um dos maiores PIBs do Brasil, e o que trazemos é uma experiência de vida, um estilo de vida único”, disse.

Lamborghini também mencionou o avanço da arquitetura e do design no Brasil. Para ele, a capital goiana se destaca como “uma cidade jovem, sofisticada e aberta ao novo”. Além do setor imobiliário, a marca atua em hotelaria e em diferentes segmentos de consumo, como acessórios, perfumes, bebidas, joias, artigos esportivos e mobiliário.

Essas frentes fazem parte da estratégia de expansão global. O empreendimento ainda não tem data oficial de início das obras divulgada pela incorporadora.

Foto: Divulgação

Academias premium

A busca por bem-estar, saúde e experiências personalizadas tem impulsionado um crescimento acelerado das academias premium em Goiânia, um movimento que, segundo especialistas, acompanha uma tendência global.

Em entrevista ao Jornal Opção, os sócios da Unus Home Fitness, Pablo Almeida e Gustavo Marques, analisaram o fenômeno e detalharam por que a capital goiana vem atraindo marcas internacionais e consumidores exigentes.

Para Pablo Almeida, o avanço dessas academias em Goiânia é parte de um movimento mais amplo.
“Eu diria que isso é a nível Brasil e até a nível mundo. Cada vez mais as pessoas têm se preocupado com o bem-estar e com a saúde, ainda mais após o efeito pós-pandemia. Goiânia não é diferente”, afirma.

Segundo ele, o crescimento simultâneo do mercado de luxo e da cultura wellness fortaleceu o nicho.
“É a junção do wellness e do fitness crescendo juntamente com o mercado de luxo. Não associo isso só a Goiânia, não. Associo ao mundo inteiro.” O perfil desse consumidor também mudou e exige mais. Gustavo Marques explica:

“O cliente de alto padrão busca algo potencial, algo exclusivo para ele. No Home Fitness, a gente entrega o mesmo padrão de luxo que a pessoa tem dentro da casa dela. Ele procura um lugar aconchegante, onde viva um mundo de bem-estar e saúde.”

A ideia é que o cliente perceba coerência entre sua rotina doméstica e sua rotina de treino, priorizando conforto, privacidade e sofisticação. Marcas estrangeiras de equipamentos e spa têm direcionado atenção crescente para a capital.

Para Pablo, a razão é clara: “A economia de Goiás, especificamente de Goiânia, continuou pulsante na contramão do restante do país. Isso despertou o interesse de grandes marcas.”

Ele cita ainda o impacto do agronegócio na economia regional. “Muito disso é moldado pela crescente do agronegócio, que movimenta nossa economia no país. Isso colocou Goiânia no radar dessas marcas de fitness e wellness.”

Segundo os sócios, três pilares sustentam o conceito premium: tecnologia, arquitetura e atendimento. Gustavo detalha: “Primeiro, os nossos maquinários são de alta tecnologia. Segundo, a arquitetura. E terceiro, nosso atendimento, que busca o nível de uma hotelaria de luxo, cinco estrelas.”

A Unus destaca ainda o spa equipado com tecnologia italiana da Starpool, que oferece terapias exclusivas, como crioterapia a seco e sauna com infravermelho. A procura por experiências fitness sofisticadas se concentra nas regiões de maior renda.

“Eu diria que a região dos condomínios, o Marista, o Setor Bueno e o Jardim Goiás”, explica Gustavo.
A escolha não é aleatória: bairros tradicionalmente associados ao alto padrão e áreas emergentes impulsionadas pelos novos condomínios de luxo sustentam a expansão.

Pablo completa: “Os bairros Bueno e Marista comportam nichos de luxo há mais tempo. Mas temos visto uma crescente grande no Jardim Goiás e nos condomínios próximos ao Flamboyant. A expansão de alto padrão está muito forte aqui.”

Tecnologia, localização e variedade importam na hora da matrícula, mas, para a Unus, o processo começa antes. “A gente gosta que o cliente passe por um tour para entender nosso projeto, que é fora do padrão de Goiânia, eu diria até a nível Brasil”, explica Gustavo.

A estratégia inclui apresentar as máquinas, permitir testes e destacar a experiência sensorial. O ticket médio desse segmento costuma ultrapassar R$ 1 mil. Pablo explica:

“No contexto geral, estamos falando de tickets acima de mil reais. Aqui na Unus, conseguimos equalizar para um pouco abaixo. Temos tickets a partir de 800 reais.”

Mesmo com valor mais baixo, ele afirma que o produto é mais completo do que boa parte do mercado.
“Somos um dos poucos, ou talvez o único projeto no Brasil que abrange todas as tecnologias da Technogym e da Starpool. É um produto ultraexclusivo e ultrarrevolucionário.”

Para Gustavo, Goiânia tem um perfil de cliente muito próprio. “O goianiense gosta de ser tratado muito próximo. Ele gosta de estar muito bem assistido. Buscamos um atendimento mais elitizado, mais VIP, para dar mais comodidade.”

Essa preferência por proximidade e acolhimento diferencia o público local de outras capitais, segundo ele. Além da economia forte, Pablo aponta o papel do Shopping Flamboyant na consolidação da região.

“O Flamboyant tem um peso muito grande aqui. Ele tem apostado muito no mercado de alto padrão e isso impulsiona a região a se denotar por serviços de luxo”, afirma. Esse movimento, segundo os sócios, coloca Goiânia no mesmo mapa de cidades como Brasília, Belo Horizonte e Curitiba.

Foto: Reprodução/Instagram Unus

Urbanista questiona discurso de “qualidade de vida”

Para a arquiteta e urbanista Maria Ester, essa narrativa modernização e qualidade de vida está distante da realidade urbana da capital. Em entrevista ao Jornal Opção, ela afirma que o boom premium não representa desenvolvimento urbano, e sim concentração de riqueza.

Segundo a urbanista, confundir luxo com bem-estar social é um equívoco. “Isso se traduz num lucro muito grande para empresas da construção civil, para incorporadoras, para o mercado de revestimentos e serviços. Isso é muito diferente de qualidade de vida”, diz.

Para ela, indicadores reais de desenvolvimento são outros: “Qualidade de vida deveria significar uma sensação de segurança, uma rua sem buraco, uma população educada para o trânsito. E isso não tem relação nenhuma com esses lançamentos”.

A concentração de empreendimentos premium em poucos eixos, como Marista, Bueno e Setor Oeste, cria, segundo Ester, uma falsa percepção de progresso. “É uma espécie de drenagem de recursos em locais pontuais, recursos de várias possibilidades: lucro excedente do agronegócio, carteiras de crédito dos bancos. É um segmento fazendo dinheiro em cima de dinheiro”, afirma.

Ela reforça que desenvolvimento urbano é bem mais amplo. “Desenvolvimento urbano significa uma cidade que tem drenagem resolvida, que tem plano de mitigação dos impactos das mudanças climáticas, que tem serviços públicos organizados. Isso é desenvolvimento. Não esses bolsões de riqueza”.

Goiânia costuma figurar em rankings de bem-estar, mas, para a arquiteta, essa imagem atende apenas a uma parcela muito específica da população. “Essa qualidade de vida que eles falam é para quem ganha 50 mil reais por mês. Para essa pessoa, qualquer cidade teria qualidade de vida”, pontua.

Ela acrescenta que essa narrativa ignora problemas persistentes: “A gente continua com moradores de rua, com gente armada dando tiro. Isso não pode ser considerado uma cidade com qualidade de vida. Isso entra muito no marketing das incorporadoras”.

O avanço de edifícios de marca internacional, com serviços premium, tutelaria e design importado, também não promove integração urbana, na avaliação de Ester. “Essas torres criam ilhas. Elas têm um entorno que presta serviço a elas, lojas de carro, restaurantes, mas não têm conexão com a cidade. Elas falam para si mesmas”.

A urbanista destaca o impacto sobre quem trabalha nesses espaços: “Como é a vida da pessoa que limpa a área comum? Muitas vezes ela passa duas, três horas no trânsito, num ônibus sem qualidade. A gente produz ilhas, não espaços de integração”.

Mesmo empreendimentos multifuncionais, que reúnem hospital, clínica, shopping e serviços no mesmo prédio, não significam avanço urbano automático. “Isso vende metro quadrado. Não necessariamente integra a cidade”, avalia.

Para ela, o essencial continua faltando: “Se você não tem uma praça num raio de 500 metros, onde possa ver um mínimo de grama, árvore, banco para sentar, isso é uma cidade pobre, na minha visão”. O interesse de grifes e serviços internacionais por Goiânia, especialmente no segmento premium, cria um verniz de sofisticação, mas não transforma a cidade.

“Isso é uma etiqueta. É como usar uma roupa de marca. Se acontecer um acidente e eu e outra pessoa formos para o hospital, o sangue é o mesmo que vamos precisar”, compara. Ela completa:

“Tudo que é superficial fica na superfície. Quando cair uma chuva forte e inundar, tanto quem usa roupa de marca quanto quem comprou na 44 vai sofrer igual. Marca não melhora cidade. Projeto melhora cidade”.

O discurso de que Goiânia estaria vivendo uma “verticalização planejada” também não se sustenta, segundo Ester. “A palavra planejada não acontece sem uma rede de outros planejamentos. Se eu vou verticalizar, tenho que planejar drenagem, água, esgoto, circulação. Mas aqui o que se planeja é o lucro em cima da permissão de uso”, afirma.

Ela exemplifica: “Olha, agora quero ocupar a região norte. Vamos articular aqui para liberar. Isso não é planejamento urbano sustentável. Isso é planejar para o lucro da minha empresa”.

“Ocupação devastadora”

Maria Ester avalia que Goiânia vive um processo acelerado de adensamento e expansão imobiliária guiado pelo lucro, e não por uma visão de desenvolvimento de longo prazo.

Para ela, a capital tem estrutura territorial para crescer, mas repete um modelo desigual de ocupação que ameaça justamente quem mais depende dos espaços públicos e da arborização.

Questionada sobre se o adensamento nos bairros de alto padrão ameaça a arborização da cidade, Maria Ester explica que o impacto não é homogêneo. “Nos bairros de alto padrão você vai encontrar muita área verde. Se você for em condomínio fechado, você vai encontrar ali uma massa verde muito, muito interessante”, afirma.

O problema, segundo ela, está em como o adensamento chega às áreas menos valorizadas. “A arborização é ameaçada no momento em que ela não é considerada como um elemento de fundamental inserção para a qualidade de vida de todo mundo”, diz.

A urbanista critica ainda a lógica de urbanização voltada à estética, mas sem preocupação com permeabilidade ou áreas públicas coletivas. “Os caras põem essa maquiagem toda de árvore, mas desmancham a pracinha que está em frente e aumentam a largura da rua”, aponta.

Para Maria Ester, embora empreendimentos de alto padrão mantenham paisagismo próprio, o déficit se concentra na periferia. “A nossa arborização é muito ameaçada nas áreas pobres. As áreas ricas aparecem, são bonitas, são cheias de árvore. O que a gente não tem são espaços permeáveis”, reforça.

Sobre a expansão de empreendimentos de alto padrão fora dos tradicionais bairros do Sul da capital, a urbanista diz que há espaço territorial de sobra, mas que a dinâmica do mercado reproduz desigualdades.

“Goiânia tem espaço para duas Goiânias aqui dentro”, diz. Ela cita condomínios que já avançam para regiões próximas a Nova Veneza, Nerópolis, Bela Vista de Goiás e para o limite com Goianira.

Também lembra antigas promessas imobiliárias, como o projeto Terras Alfa, na divisa com Senador Canedo, pensado como “cidade do futuro”. Para Maria Ester, essa dispersão não é planejada, mas movida pela necessidade constante do mercado de abrir novos territórios.

“Enquanto eles não povoarem cada centímetro dessa cidade, eles não vão parar”. E alerta: “Essa coisa da desigualdade prevalece enquanto a gente prevalecer com esse modelo de concentração de riqueza em mão de muito pouco”.

A urbanista rejeita a ideia de que Goiânia vive um “desenvolvimento acelerado”. Para ela, o termo é usado de forma equivocada. “A palavra desenvolvimento é que eu não concordo de estar na questão. A gente não tem um desenvolvimento acelerado. A gente tem uma urbanização que é devastadora”, afirma.

E completa: “Desenvolvimento a gente não tem nenhum, porque a gente não tem escola para todo mundo, a gente não tem calçadas muito boas, a gente não está vendo todas as calçadas ficarem maravilhosas de maneira acelerada”.

Segundo Maria Ester, o crescimento atual é movido pelo ritmo da construção civil: “Quem promove o aumento acelerado de urbanização tem visão de lucro. Lucro é sempre curto, médio prazo”. A falta de visão de longo prazo, diz, aparece especialmente na ausência de preocupação ambiental.

“Eles não estão nem um pouco preocupados se vai ter água para todo mundo daqui 20 anos”, afirma, citando impactos do desmatamento no Cerrado e na Amazônia e seus efeitos sobre a seca.

Ao comentar o discurso de que Goiânia se tornou “a nova fronteira da sofisticação”, amplamente utilizado pelo setor imobiliário, Maria Ester é categórica: trata-se de narrativa construída para vender.

“Isso é para vender. Igual quando fazia condomínio fechado: você vai viver de maneira segura. E ninguém contou com os assaltos que tinham dentro dos condomínios”, ironiza. Ela também critica o uso de marcas de luxo como símbolo de status urbano.

“Os caras estão trazendo Lamborghini, Ferrari, é porque aqui tem espaço, tem dinheiro”, diz. Mas afirma que sofisticação verdadeira não se resume a design e rótulos.

“Sofisticação para mim é eu sair a pé com o meu cachorro e não pisar em nenhum cocô de cachorro. É um lugar limpo, iluminado, onde as pessoas falam baixo”, explica. E conclui: “A gente está um pouquinho longe disso”.

Maria Ester | Foto: Reprodução

Sinais de atenção

Para o economista Luiz Carlos Ongaratto, ouvido pela reportagem, a nova onda de verticalização premium se explica por um conjunto de fatores socioculturais e econômicos, mas também traz riscos claros de saturação.

Segundo ele, a cidade vivia até poucos anos atrás um mercado menos acostumado às grifes da arquitetura e da construção civil. Mas isso mudou rapidamente. “Goiânia não tinha, não era comum ter imóveis de alto luxo e passou a ter agora, no período mais recente, a disponibilidade desse tipo de imóvel”, afirma.

O economista explica que a capital goiana se transformou em um polo receptor de moradores e investimentos vindos de diferentes regiões. “É uma cidade que tem atraído muitos imigrantes, concentra capital de outras cidades, não somente do estado, mas do Centro-Oeste, parte da região Norte e parte do Nordeste também.”

Essa combinação se soma ao fator preço. Mesmo com a recente escalada do metro quadrado, Goiânia ainda era percebida como oportunidade por investidores.

“A gente viu esse preço do metro quadrado subindo, mas ainda tínhamos um valor mais barato que Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro. Isso abriu a oportunidade desses novos condomínios verticais de alto luxo, assinados por escritórios famosos, por grifes”, explica.

Ongaratto afirma que o perfil cultural local também impulsiona o movimento. “Goiânia atrai esse padrão pela cultura da cidade, de querer gastar mais, querer fazer esse investimento imobiliário. Muitos investidores têm esse objetivo de comprar apartamentos de alto padrão, seja para morar, seja pela valorização.”

A capital, frequentemente apontada como “capital do agro”, absorve o comportamento de consumo de um setor marcado por ostentação e alto poder aquisitivo. “O agro não está em um bom momento há três anos, agora começa uma recuperação de margens, mas ainda estamos em um ciclo de baixa”, pondera.

Apesar disso, a cultura de consumo segue forte. “O investidor do agro e o investidor imobiliário são muito semelhantes. Muitos que lançam ou compram apartamentos também são do agronegócio.” O economista destaca que o ambiente urbano reforça esse imaginário do luxo.

“Temos um aumento de restaurantes de alto padrão, concessionárias de carros de luxo, e muitas delas estão entre as que mais vendem no Brasil, além das grifes que vêm para os shoppings. É uma soma de coisas”, afirma.

Ele cita ainda fenômenos midiáticos que reforçam essa estética: “Se você observar, tem até aquele reality, ‘Poderosas do Cerrado’, que faz apologia a essa vida de ostentação. Como o agro está nessa de luxo, acaba que esse estilo de vida vai potencializando o consumo.”

Embora o cenário aparente prosperidade, Ongaratto alerta que os números precisam ser observados com atenção. Para ele, os preços já atingem patamares que exigem cautela. “Há um risco de ter subido muito o preço e isso esfriar a demanda. Podemos observar promoções e é preciso acompanhar o ritmo de vendas, estoques e os preços reais das negociações.”

Ele lembra que imóveis de luxo têm um comportamento particular. “A perspectiva de valorização é mais difícil nesse tipo de imóvel, porque ele já tem um valor alto. Pode ser um investimento arriscado.”

O economista também aponta o volume de lançamentos como fator crítico. “Aquele boom de três anos atrás acompanhava o boom do agronegócio. Agora, os lançamentos já estão um pouco mais difíceis de serem vendidos a altos preços”, diz.

O risco, segundo ele, não é apenas de estoque encalhado: “Pode haver sobreoferta em um período curto. As incorporadoras precisam saber o momento certo para não queimar o produto e o preço.” Com juros altos, outro ponto de atenção é a entrega dos empreendimentos financiados diretamente pelas construtoras.

“Pode haver destrato no momento da entrega, pela baixa disponibilidade de financiamento. As incorporadoras que fazem financiamento próprio precisam observar a inadimplência das carteiras”, alerta.

Apesar das incertezas, a procura por moradia permanece intensa. “Goiânia tem uma demanda crescente por habitação. A chegada de pessoas de outros estados reforça isso”, sublinha Ongaratto.

O que se observa, no entanto, é uma disparidade entre faixas de renda. “Temos desde empreendimentos do Minha Casa Minha Vida em áreas periféricas até o alto padrão. Mas empreendimentos de médio padrão ainda não são tantos”, analisa.

A expectativa é que mudanças no programa habitacional federal possam estimular esse segmento. “Com a ampliação de financiamento subsidiado e novas faixas, é possível atender a classe média, que hoje tem poucas opções.”

Atualmente, segundo o economista, os preços mostram a distância entre os perfis de público: “Nos setores de médio padrão, você não encontra empreendimentos novos por menos de R$ 8 mil a R$ 10 mil o metro quadrado. Já o alto padrão vai acima de R$ 12 mil, R$ 13 mil, R$ 15 mil e pode chegar a R$ 20 mil.”

Luiz Carlos Ongaratto | Foto: Arquivo pessoal

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