Goiânia construiu cerca de 15,5 km de ciclovias/ciclofaixas nos últimos quatro anos, aponta levantamento da Secretaria Municipal de Mobilidade (SMM) ao qual o Jornal Opção teve acesso. Ao todo, Goiânia conta hoje com cerca de 129 km de malha destinada à ciclistas, sendo 56,8 km de ciclovias permanentes, 15 km de ciclofaixas e 40,72 km de ciclorrotas, além de 16km de faixas que funcionam apenas aos domingos e feriados.

Foram construídos 2 km de ciclovias, sendo 0,5 km na Rua 44 e 1,45 km em um trecho na Rua C-34, no Jardim América. Além disso, foram criadas 11,8 km de ciclofaixas permanentes, sendo 5 km na Marginal Barreiro, 2,9 km num trecho que liga a T-63 até a avenida dos Alpes com 2,9 km, 1,9 km no Jardim Europa e 2,1 km na T6. O único trecho ciclofaixas com funcionamento aos finais de semana e feriados criados durante esse período foi o da T3, com cerca de 1,62 km.

Superintendente da SMM, Lucas Amom conta que um dos trechos mais recentes é o da T-6, que liga a Praça do Cigano até a C-121. “Fizemos um monitoramento e identificamos um ciclistas que sai do Parque Amazonas para a Cidade Jardim que faz praticamente todo o trajeto em ciclovias”.

Desrespeito

Bernado Silva Santos, 42, utiliza a bicicleta como meio de transporte praticamente todos os dias. Estudante de educação física, ele relata que a maior dificuldade ainda é a falta de respeito dos motoristas. “Não adianta ter ciclovia se os veículos não respeitam coloca a gente em risco”.

Bernado Silva, 42, reclama da falta de respeito e da baixa quantidade de ciclovias | Foto: Raphael Bezerra

Outra reclamação é sobre o uso indevido dos locais como estacionamento. Ele cita, por exemplo, o entorno do Parque Vaca Brava, que é reservado para os ciclistas nos finais de semana e feriado. “Você passa lá e tem que andar no meio dos carros porque tem veículos estacionados e coloca a vida da gente em risco”, conta.

Ele alega, no entanto, que a quantidade de ciclovias é insuficiente e que as rotas não tão eficientes. “Goiânia tem muito carro e um trânsito caótico. Toda hora tiram ‘fino’ da gente, nos fecham. Se tivesse mais ciclovias a gente se sentiria mais seguro, e quando tem, muitas vezes é violado pelos carros”, lamenta.

Ciclovia no setor Nova Suíça | Foto: Raphael Bezerra/Jornal Opção

O número de usuários de bicicletas tem crescido na Capital, seja por ciclistas que utilizam as bikes como meio de transporte, seja para trabalho—como os entregadores de aplicativos—, ou por puro lazer.

Esse aumento, segundo Amom, faz com que a demanda por novas rotas sejam criadas. “É um ganho significativo para a cidade e a intensão é trazer segurança para o usuário e para os ciclistas”, comenta.

Drama

Inaugurado em 2015 pelo então prefeito Paulo Garcia (PT), o circuito de ciclofaixas permanentes da Capital ainda não tem um trajeto bem definido, que ligue setores mais afastados aos grandes centros. Nas últimas décadas, o País vem se distanciando de uma mobilidade sustentável e isso se dá pela insuficiência dos transportes coletivos, o subaproveitamento dos transportes ativos – em especial da bicicleta – e a tendência do aumento do uso de automóveis.

Os adolescentes Antônio Carlos e Davi da Silva utilizam as bikes todos os dias para ir para a escola. “A estrutura até que tem, mas o desrespeito dos motoristas é muito”, aponta Davi. Ele afirma ainda que, por diversas vezes, quase sofreu acidentes nas ruas de Goiânia.

“Até uma viatura quase me atropelou. No meio urbano é mais fácil, têm as faixas, têm as ciclovias e muito espaço, mas na periferia isso é mais difícil, temos de andar em meio aos carros, sem segurança e os motoristas não respeitam”, relata.

Especialista em trânsito, Adriano Paranaíba diz que há uma escassez de sinalização vertical que identifique ao motorista que naquela região tem ciclistas. “Estudos apontam que 80% dos acidentes entre bicicletas e outros veículos acontecem nos cruzamentos”, diz. Paranaíba diz que há desigualdade na construção das ciclovias.

Ele aponta que as regiões periféricas são menos privilegiadas. “Temos esse problema, porque as ciclovias seriam uma excelente oportunidade de a gente fazer uma integração modal. Não adianta se iludir achando que apenas fazer 500 quilômetros de ciclovia que ligam o nada a lugar nenhum que todo mundo vai querer andar de bicicleta”.

Diferença entre ciclorrotas, ciclofaixas e ciclovias

Lucas explica que a diferença entre a nomenclatura está na separação da via das faixas de rolamento dos veículos e no pavimento. “Por exemplo, a T-63, ela está isolada, ela está fora da faixa de rolamento, então ela é uma ciclovia”. Já a ciclofaixa, ela está no pavimento, mas ela é separada.”

“Por fim, a ciclorrota não tem separação nem de faixas e conta apenas com placas e aquele pictograma no chão, uma seta, informando que ali está uma ciclorrota […]. Nesse caso, veículos e bicicletas utilizam o mesmo pavimento, porém, com prioridade para as bicicletas. Bicicletas, né? Então essa aí é as características de cada uma”, conta.

Tempo de deslocamento

Uma das implicações é o crescimento do tempo despendido no deslocamento pendular, particularmente grave para as viagens em transporte coletivo utilizada por aqueles que tipicamente se encontram nos estratos mais baixos de renda e com moradia mais afastada dos locais de trabalho e centros de serviço. Isso tudo acentua ainda mais a desigualdade espacial das cidades.

O Brasil precisaria investir R$ 295 bilhões até 2042 em infraestruturas de mobilidade urbana nas 15 principais regiões metropolitanas do país. Essa é a quantia necessária para equiparar a infraestrutura de transportes desses municípios ao padrão da Cidade do México e Santiago, cidades referência na oferta de transportes urbanos na América Latina. A estimativa está no estudo inédito da Confederação Nacional da Indústria (CNI) “Mobilidade Urbana no Brasil: marco institucional e propostas de modernização”.

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